"Harmonia celeste" em órbita, corrida ao espaço em Terra

China lançou o primeiro módulo da futura estação espacial, mais um feito no programa de "rejuvenescimento nacional". EUA aliam-se a privados para não ficarem sem base em órbita.

A China deu mais um passo no seu programa espacial com o lançamento do primeiro módulo da futura estação espacial Tiangong, que significa "Palácio celestial". Se for completada com sucesso, entrará em funcionamento no próximo ano, e poderá tornar-se na única em funcionamento num futuro não muito distante, uma vez que a Estação Espacial Internacional (EEI) está a atingir o fim de vida calendarizado, 2024.

Isto se as agências espaciais envolvidas não se decidirem pelo prolongamento do prazo. A NASA fez saber que a EEI pode estar em atividade pelo menos até 2028 e está a envolver empresas em projetos para não ficar sem uma base em órbita, em mais uma frente da competição sino-americana, numa reedição da corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética.

"Um palácio no céu já não será apenas uma fantasia romântica dos antigos", disse o pivô da CCTV durante a transmissão em direto do lançamento do Longa Marcha 5B, o foguete que levou para órbita o Tianhe ("Harmonia celeste"), o módulo central do palácio celestial, um espaço com 50 metros cúbicos com todas as tecnologias de suporte de vida e de energia, onde os três astronautas irão conviver por períodos de três a seis meses.

Este é o primeiro de 11 lançamentos semelhantes de transporte do equipamento adicional, bem como dos astronautas, que deverão partir em junho.

Além do módulo central, a configuração da estação prevê a acoplagem permanente de dois módulos para experiências científicas, o Wentian ("Demanda dos céus") e o Mengtian ("Sonho dos céus"). Também está previsto o lançamento de um telescópio espacial, o Xuntian ("Cruzeiro celestial"), para perto da estação chinesa, em 2024. O telescópio, diz Pequim, terá um campo de visão 300 vezes maior do que o Hubble da NASA.

A estação Tiangong é semelhante à soviética Mir, que orbitou a Terra entre 1986 e 2001, e também se espera uma vida útil de 15 anos no máximo, mas terá um peso muito menor. Ainda nas comparações, a estação chinesa terá cerca de um quarto do tamanho da Estação Espacial Internacional. Apesar de ser um projeto totalmente made in China, Pequim está recetiva a cooperação com outros países, embora não esclareça em que bases. Não é de crer que a colaboração se faça à imagem da EEI, que reúne as agências dos EUA, Canadá, Japão e Europa.

O programa espacial tripulado chinês nasceu em 1992. Intitulado Projeto 921, tinha como meta o estabelecimento de uma estação espacial permanente e, até lá, testar tecnologia e astronautas (ou taikonautas, como dizem os chineses), como fizeram em 2011 e 2016 com as missões Tiangong-1 e 2. Antes, em 2003, a China tornou-se no terceiro país a enviar um homem para o espaço.

O Partido Comunista Chinês vê com bons olhos a "cultura espacial" como instrumento de "rejuvenescimento nacional".

Os mais recentes feitos incluem as missões Chang'e, com a primeira alunagem no lado oculto da Lua, em 2019, e a recolha de amostras de solo lunar no final de 2020. Em fevereiro deste ano, a sonda Tianwen-1 entrou na órbita de Marte e espera colocar um robô no solo do planeta vermelho em meados de maio. Em março, foi anunciado um acordo com a Rússia para a construção de uma estação lunar, entretanto aberta a outras nações.

A par destas iniciativas estatais, a indústria espacial privada chinesa cresceu de forma exponencial, com centenas de empresas da indústria espacial a estabelecerem-se nos últimos cinco anos.

Rota da seda espacial

Em 2016, o presidente Xi Jinping saudava a aspiração de tornar o país num líder da exploração espacial. Ao longo das quase três décadas de programa espacial a China investiu biliões e é hoje o segundo país que mais gasta no espaço. Porquê? Pelos mesmos motivos que levaram os EUA e a URSS/Rússia a fazê-lo. "Poder-se-ia dizer que esta é a rota da seda espacial, demonstra que a China é uma força a ter em conta", comentou Keith Hayward, da Royal Aeronautic Society à BBC.

O prestígio internacional e o sentimento de orgulho nacional fazem parte desta "cultura espacial" que o Partido Comunista vê com bons olhos instilar nas massas, desde os brinquedos da Sembo Block (a Lego chinesa) a um futuro parque temático. Tudo em nome do "rejuvenescimento nacional" que os meios de comunicação dizem advir do "sonho espacial", como se lê no The Diplomat.

Com os Estados Unidos de volta a um programa espacial mais ambicioso, e com a China identificada como o grande rival - a cooperação espacial está proibida por Washington -, a NASA tudo fará para que a China não fique com a única estação espacial em atividade. Em março, desafiou as empresas a desenvolverem estações privadas que podem ser usadas pela agência espacial.

Duas empresas já responderam afirmativamente, com a Axiom Space a pretender construir módulos para juntar à EEI e posteriormente autonomizá-los como estação. Rússia e Índia também têm projetos para estações próprias, mas não serão materializadas antes de 2028 e 2030, respetivamente.

cesar.avo@dn.pt

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