Cientistas leem carta selada há 300 anos sem a abrir

Com recurso a raios-X e a um algoritmo foi possível desdobrar virtualmente a carta enviada em 1697 de Lille para Haia.

Uma carta escrita a 31 de julho de 1697 em Lille, França, dobrada de tal forma que se transformou num envelope e ficou efetivamente selada, nunca chegou ao seu destinatário em Haia, nos Países Baixos. Acabou dentro de um baú. Agora, mais de 300 anos depois, os cientistas encontraram uma forma de a ler sem a abrir: graças a um leitor de raios-X altamente sensível e a um algoritmo, conseguiram desdobrar virtualmente a carta.

"Monsieur & cousin", lê-se no início da missiva escrita em francês e enviada por Jacques Sennacques ao primo Pierre Le Pers, um mercador francês que vivia na cidade neerlandesa. O motivo da carta era pedir um certificado da morte de Daniel Le Pers, que teria morrido em dezembro de 1695. Era já a segunda carta que Sennacques enviava com o mesmo pedido, aproveitando para saber novidades sobre a saúde do primo e da sua família.

A técnica de dobrar uma carta de forma a esta transformar-se no seu próprio envelope era algo normal antes de estes se tornarem comuns, a partir de 1830. A técnica é conhecida como letterlocking em inglês, uma junção das palavras letter (carta) e locking (trancar).

A carta que os cientistas agora abriram virtualmente com esta nova técnica faz parte de um conjunto de 577 que estavam num baú que pertencia ao chefe dos correios de Haia, Simon de Brienne, e à sua mulher, que terão ficado por entregar. O baú foi doado ao museu das Comunicações da cidade em 1926 e incluía ainda 2571 cartas abertas. Nessa altura era quem recebia as cartas que pagava pelo serviço e se estas não eram entregues porque o destinatário estava morto ou recusava receber, então ficavam por entregar, segundo a CNN.

Os cientistas dizem que esta técnica poderá servir para ler não só as cartas que estavam no baú de Brienne, mas também os Prize Papers, por exemplo, que inclui centenas de cartas por abrir que foram confiscadas pelos britânicos a navios inimigos entre os séculos XVII e XIX. "A história por vezes resiste ao escrutínio e essa própria resistência merece um estudo paciente", escrevem os autores do artigo, publicado na revista Nature Communications.

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