Era ua beç... un burro*

No Nordeste transmontano existe uma raça autóctone, com características únicas, em risco de desaparecer - é o burro mirandês. As causas da extinção estão relacionadas, sobretudo, com a mecanização dos trabalhos agrícolas e o abandono do mundo rural.

A idade avançada das burras (que provoca diminuição da taxa de fertilidade), a fraca disponibilidade de machos inteiros e o cruzamento de diferentes raças, diluindo as características da raça, são outras ameaças.

No total existem cerca de oito mil animais desta raça, cinco mil concentrados em Trás-os-Montes. No entanto, deste universo apenas 800 são fêmeas reprodutoras da raça asinina de Miranda. "São animais com muita idade", alerta o veterinário Miguel Nóvoas. A média destes burros é de cerca de 17 anos de idade, sendo que a maioria dos seus proprietários está na casa dos 70 anos. "Por isso, apenas podemos contar com cerca de 300 fêmeas que possam reproduzir e dar continuidade à raça."

O veterinário é desde 2001 um dos responsáveis da Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino (AEPGA), um projecto sem fins lucrativos, cujo objectivo principal é proteger a raça autóctone de asininos das Terras de Miranda.

Há cerca de quatro anos criaram um livro de registo zootécnico da raça asinina de Miranda, no qual todos os animais estão inscritos. Recolhem as medidas biométricas, análises de ADN e estudam os possíveis cruzamentos entre raças puras. O trabalho começou a dar os primeiros frutos no ano passado, já com 200 nascimentos em linhagem pura.

Do plano de actividades da associação constam também acções de carácter promocional dos novos usos ligados aos burros. "O turismo, onde desenvolvemos passeios unindo a cultura do burro às tradições locais, um esforço em divulgar a utilização do burro como um recurso terapêutico através da asinoterapia e asinomediação."

Outra proposta da AEPGA é a "adopção" de um animal, contribuindo para salvar o património genético dos burros de Miranda, mas também melhorar as condições de vida da população local. Por um preço de 30 euros (adopção individual) ou 300 (institucional), os novos donos recebem um certificado de adopção e um relatório bianual sobre o animal.

Um preço simbólico que ajuda nas actividades da associação, já que cada burro custa em média 800 e 1000 euros por ano. O Estado português, através do Programa de Desenvolvimento Rural (Proder), dá aos criadores do burro de Miranda um subsídio comunitário de 170 euros por animal (por ano), como apoio de manutenção às raças autóctones, mas que acaba por ficar muito aquém das despesas reais. "É preciso gosto e motivação."

A história dos burros no mundo remonta ao final da Idade de Bronze. Segundo os vestígios mais antigos, estes animais chegaram à Europa no quinto milénio antes de Cristo, divididos em dois grandes grupos, o Equus asinus europeus, com origem mediterrânea, e o Equus asinus africanus, proveniente da bacia do Nilo.

A proliferação ocorreu devido à utilização desta espécie para a alimentação humana, produção de híbridos e posteriormente para serviços de carga e transporte. Esta subespécie europeia foi a pioneira da maioria das raças que ainda hoje existem no Continente. É o exemplo da raça zamorano-leonesa ou da siciliana. O tronco africano deu também origem a algumas raças existentes na Europa como a andalusa e cordovesa (Espanha).

Em Portugal, segundo os últimos estudos, a raça tipicamente portuguesa, que existe principalmente no concelho de Miranda do Douro e na parte de Mogadouro, no planalto mirandês, apresentando um conjunto de características que se assemelham à raça zamorano-leonesa.

"As populações foram apurando raça e as suas características, desenvolvendo aquilo que mais lhes interessava. Os cruzamentos deram origem a um animal robusto, forte e resistente ao frio, com boas aptidões para o trabalho", explica Miguel Nóvoas.

Um animal que é preciso salvar da extinção, para que, um dia, as histórias mirandesas não comecem por "Era ua beç un burro" ...

* Era uma vez... um burro, em mirandês.

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