Escadas rolantes do Martim Moniz. "Se não fossem os turistas não tínhamos nada disto"

Escadas rolantes que ligam o Martim Moniz à Rua Marquês de Ponte de Lima foram inauguradas este sábado e tornam mais fácil aceder ao Castelo. Uma ajuda preciosa para os turistas, mas sobretudo para os habitantes idosos do bairro

Henrique e Maria de Fátima Costa estão à janela enquanto à sua frente vai passando um corrupio de gente - moradores de Alfama, muitos turistas. Todos os dias é assim, mas este sábado há uma novidade: quem sobe as Escadinhas da Saúde pode optar por fazê-lo de uma forma mais cómoda, usando as escadas rolantes inauguradas ao fim da manhã pelo presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina.

O casal que veio à janela para se despedir do filho está satisfeito com a escadaria mecânica que liga o Martim Moniz e a Rua Marquês de Ponte de Lima, tornando mais fácil aceder ao Castelo. Por construir ainda está o lanço que ligará à costa do Castelo, integrado no Plano Geral de Acessibilidades Suaves e Assistidas à Colina do Castelo.

Para os habitantes da zona, a maioria idosos, as escadas rolantes a céu aberto, e gratuitas, são uma bênção. Afinal, as Escadinhas da Saúde - também com as suas pedras renovadas - representam 32 metros de uma subida íngreme com um desnível de 13 metros. Agora só não há ajuda mecânica para descer mas, como diz Alzira Pereira, "a descer todos os santos ajudam".

E Alzira sabe bem do que fala, ela que até mora ligeiramente a meio da escadaria. Há mais de 50 anos que ali habita, sempre a subir e a descer, carregada de sacos de compras, e talvez por isso a aparência não lhe denuncie os 84 anos. A filha, deficiente motora e atleta paralímpica de boccia, sofreu sobretudo na altura em que a obra estava em curso. Consegue deslocar-se de muletas se a distância for curta e quando chegava dos treinos descia os lanços da Rua Marquês de Ponte de Lima até à porta de casa e não tinha onde se amparar. No entanto, a mãe garante que Cristina não vai usar as escadas motoras porque tem receio.

Alzira conseguiu uma pequena ajuda para a filha. O primeiro lanço de escadas de pedra, no sentido descendente, por ter menos de meia dúzia de degraus, não contemplava corrimão. Então Alzira decidiu conversar com o engenheiro responsável pela obra. Resultado: mesmo não estando previsto no plano, o corrimão lá está. E ela está contente por ter conseguido esta pequena vitória para a filha.

"A zona mudou da noite para o dia"

Alzira já se habituou aos turistas, tal como Henrique e Maria de Fátima, o casal que continua à janela. "Mudou muito desde que para aqui viemos morar há 23 anos. É como da noite para o dia, mas está muito melhor. Antes era só droga, havia gente a dormir à nossa porta, até traziam para aqui os colchões", conta Henrique Costa, de 76 anos.

Os turistas não os incomodam, às vezes até lhes tiram fotografias. Dão vida e alegria ao bairro, mas também é verdade "que às vezes são demais". Henrique que está agradecido com as novas escadas, tanto mais que até foi operado a um menisco. Mas, meio a brincar meio a sério, lá vai dizendo: "Se não fossem os turistas não tínhamos nada disto!"

Paul e Barbara, suíços, acabam de chegar ao cimo da escadaria, próximo da janela de Henrique e Maria de Fátima. Falam francês, inglês, alemão e até percebem um pouco de italiano e espanhol mas não entendem o que diz Henrique e Alzira. De português nada.

De câmara em punho, maravilhado com a luz de Lisboa e os cenários que oferece para fotografar, Paul preferiu as escadas... de pedra, porque gosta de se exercitar. A mulher optou pela ajuda mecânica, diz que está cansada de tanto palmilhar. Não lhe passava pela cabeça que se tivesse decido ir ao castelo umas horas mais cedo não tinha escadas rolantes. "Acho muito bem, para os turistas e para quem aqui mora", diz.

"Fixe para o turismo e para as pessoas de idade"

O marido de Sandra Rodrigues e a bulldog francesa são os primeiros a sair da escada rolante. Ela e o filho António vêm logo a seguir. O marido segue de muletas, partiu o pé, a cadela está muito gorda e certamente também agradece a ajuda que tem a partir de agora. Sandra, de 37 anos, viveu mais de 30 em França e veio há três para Alfama, "porque é o bairro mais engraçado, o mais autêntico". Trabalha com turistas, apostou no imobiliário e no alojamento local e vê as escadas rolantes como "uma coisa muito fixe para o turismo e para as pessoas de idade que ali vivem". Embora faça questão de sublinhar que, muitas vezes, o pior é descer.

Turistas com malas, turistas com máquinas fotográficas, turistas com carrinhos de bebé... As escadas tiveram um bom primeiro dia de funcionamento, "clientes" não faltaram. Atentos e a zelar para que tudo corra bem estão a meio - onde é possível sair - dois funcionários as Liftech que trabalharam mais de um ano na obra que custou cerca de 850 mil euros.

A descer apressada vai uma moradora que não se quer identificar, mas que garante que hoje há muito mais gente nas Escadinhas da Saúde. Lisboetas que vieram ver a novidade, porque os turistas, esses, desconhecem que foram brindados com esta preciosa ajuda numa subida íngreme.

Cá em baixo na Praça do Martim Moniz alinham-se os tuk-tuk à espera dos turistas que sobem e descem a escadaria. O condutor Paulo Pinheiro, de 41 anos, não tem dúvidas que as escadas rolantes são uma mais-valia, sobretudo para as pessoas mais velhas e não vê como isso poderá prejudicar o seu negócio. "Os turistas escolhem tours completos e as escadas só dão acesso à rua de cima."

A partir de agora, quando Alzira Pereira for fazer as compras diárias e assistir à missa na Igreja de São Domingos vai ter o regresso a casa facilitado. Até parece de propósito, ela que andou anos e anos de luto carregado pelo marido, ontem vestiu a camisa de seda às ramagens que costurou, como se fosse para assinalar a data.

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