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E se a amizade de um sultão do século XVIII contar mais para a geopolítica do que Trump?

Não faltará quem queira ver no acordo de cooperação militar assinado em outubro entre o ministro da Defesa marroquino e o seu homólogo americano a explicação para o reconhecimento, dois meses depois, por Washington, da soberania de Rabat sobre o Sara Ocidental. Claro que a venda de armas é importante para a política externa americana, e Donald Trump começou logo a sua presidência com um gigantesco contrato assinado com a Arábia Saudita, assim como também serve os países compradores porque os coloca sob uma espécie de proteção dos Estados Unidos. Mas a estreiteza das relações entre os Estados Unidos e Marrocos não tem dois meses, nem sequer duas décadas (há quem note a cooperação com a CIA nos interrogatórios aos prisioneiros da Al-Qaeda capturados no Afeganistão e no Iraque), mas sim mais de dois séculos.

O segundo incêndio do Capitólio

Num final de tarde de há mais de dois séculos, o Capitólio em Washington foi posto a arder. A jovem nação americana calculara mal a relação de forças com a Grã-Bretanha, antigo colonizador, e numa guerra que durou entre 1812 e 1814 não só ambicionara anexar o Canadá como, frustrada pelo fracasso, incendiara York, a atual Toronto. Em retaliação, os britânicos desembarcaram no Maryland, derrotaram a tentativa de resistência dos americanos e marcharam sobre a capital. O Capitólio, ainda em construção mas já sede do Senado e da Câmara dos Representantes, foi deixado em chamas, e a Casa Branca também.

Abolição da pena de morte avança, de P de Portugal a C de Cazaquistão

Ainda há dias a ministra da Justiça recordou aqui no DN, na edição de aniversário, a magnífica carta a elogiar Portugal pela abolição da pena de morte que o escritor Victor Hugo fez publicar no jornal em 1867. E quando há quatro anos se celebrou século e meio dessa decisão pioneira de Portugal, que tanto entusiasmou o romancista francês e também meia Europa, coube à própria Francisca Van Dunem fazer um discurso solene de elogio ao país, pois hoje não há dúvida de que o caminho para a plena afirmação do Estado de direito passa pela renúncia do Estado a matar.

Calendário gregoriano, arma geopolítica do Ocidente

Os dois mais famosos gracejos a homenagear o triunfo do Calendário Gregoriano são o que relembra que a Revolução de Outubro afinal ocorreu em novembro e o que cita Benjamin Franklin a dizer ser "agradável para um velho homem poder ir deitar-se a 2 de setembro e não ter de acordar até 14 de setembro". Ambas as blagues resumem na perfeição o que aconteceu com o abandono do calendário juliano: uma atualização de 12 dias na forma de medir a era cristã, decretada por um Papa no final do século XVI mas calculada por cientistas como o alemão Cristóvão Clávio.