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Obrigado fuzileiros pela coça que deram a Napoleão

Obrigado a transferir a capital do Império português para o Rio de Janeiro para escapar à captura pelas tropas napoleónicas, o príncipe-regente D. João ordenou já com a Corte no Brasil a conquista de Caiena, a capital da Guiana francesa, que caiu em janeiro de 1809. Nessa ação militar, destinada a tirar desforço dos franceses que tinham invadido Portugal e chegado a entrar em Lisboa em finais de 1807, participaram "cerca de 300 infantes de Marinha, embarcados nos brigues Infante D. Pedro e Voador", como contou há três anos num artigo na Revista da Armada o almirante Silva Ribeiro, hoje Chefe do Estado-Maior das Forças Armadas. Ora esses "infantes" que integravam a então Brigada Real da Marinha são, embora sob outra designação, os nossos fuzileiros, corpo militar de elite que ontem celebrou 400 anos, tendo sido criado em 1621 com o nome original de Terço da Armada Real da Coroa de Portugal.

O regresso dos talibãs

Ao contrário da intervenção militar de 2003 no Iraque que levou à queda de Saddam Hussein, a guerra que os americanos iniciaram no Afeganistão dois anos antes nunca teve a legitimidade posta em causa. Afinal os talibãs eram os anfitriões de Ussama bin Laden, o responsável pelos atentados de 11 de setembro de 2001 contra as Torres Gémeas de Nova Iorque e o Pentágono em Washington, que mataram quase três mil pessoas. E o ataque lançado no início de outubro de 2001 foi precedido de pedidos dos Estados Unidos para que o regime afegão entregasse o chefe da Al-Qaeda, podendo assim evitar a punição, que chegou primeiro com bombardeamentos aéreos e mísseis e finalmente através de tropas no terreno.

Homenagem a Gagarine

Com a chegada da cápsula Soyuz MS-18 à Estação Espacial Internacional, conhecida também pelo acrónimo inglês ISS, são neste momento dez os cosmonautas e astronautas lá em cima a olhar para a o planeta azul. Mas se as diferentes designações dos viajantes no espaço ainda trazem as marcas da corrida espacial que coincidiu com o pico da Guerra Fria, a presença simultânea na ISS de russos e americanos (e ainda de um japonês) simboliza a cooperação científica internacional que é agora a regra. E esta cooperação entre as nações na investigação espacial é a melhor homenagem que se pode prestar a Yuri Gagarine, o cosmonauta que, faz nesta segunda-feira 60 anos, efetuou o primeiro voo ao espaço. Herói da Rússia, Gagarine é também um herói da humanidade, tal como se pode dizer do americano Neil Armstrong, que em 1969 se tornou o primeiro homem a pisar a Lua.

Falcão palestiniano

Condenado a cinco penas de prisão perpétua por terrorismo em 2004, Marwan Barghouti tem dedicado os anos detido em Israel a aprender hebraico. Dedicar-se à língua do inimigo é um pormenor que aqueles que o comparam a Nelson Mandela gostam de realçar, pois nas quase três décadas passadas atrás das grades o político sul-africano, campeão da luta contra o apartheid, também aprendeu africânder, o idioma derivado do holandês que falavam os mais convictos defensores do regime racista branco que durou oficialmente até às eleições multirraciais de 1994.

Um espião não faz a Guerra Fria

Quando os serviços secretos britânicos decidiram em 1993 abrir os arquivos da era vitoriana (grosso modo, o século XIX), as páginas dos jornais londrinos encheram-se de rocambolescas histórias de espionagem e de episódios curiosos de compra de influência pelo Império, como a oferta de um elefante indiano ao imperador da Etiópia. Um dos documentos revelava um pagamento de duas libras a um diplomata em Génova, numa Itália recém-reunificada, por "informação naval atualizada", verba que hoje equivaleria a 135 libras ou 160 euros - nunca foi pago, afinal o espião limitara-se a copiar o que lera na imprensa.

Lisboa, cidade judaica... também

Ao saber que o futuro Museu Judaico vai ser hoje apresentado em Lisboa recordei-me de uma entrevista ao rabino Shlomo Pereira em que este sublinhava que "a Península Ibérica nos anos 1400 era o centro do judaísmo no mundo... em tudo". O também economista nos EUA, onde responde pelo nome de Alfredo Marvão Pereira, acrescentava que do ponto de vista da produção intelectual os judeus portugueses e espanhóis de então quase que podiam comparar-se aos de hoje em Israel, nos Estados Unidos e em França. Não por acaso o mais antigo livro impresso em Portugal, um Pentateuco surgido em Faro em 1487, está em hebraico.

Jihad em Moçambique e os limites do intervencionismo português

Dizia o bispo de Pemba, há um ano, que "o povo tem andado de lá para cá e de cá para lá, correndo atrás da própria vida". Entretanto regressado ao Brasil, D. Luiz Lisboa foi a voz que primeiro alertou para a violência que desde 2017 assola a província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique. O número de mortos varia, muitos falam de quase dois mil, mas todos os relatos coincidem no terror, com gente decapitada pelos grupos jihadistas, que como é regra nas milícias deste género misturam extremismo islâmico com crime e estão infiltradas por estrangeiros.