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O que dois salários dão ao Estado pagava outro trabalhador

Num país em que quase metade das famílias não ganha o suficiente para pagar IRS, a discussão sobre o salário mínimo nacional, que todos os anos se torna audível quando se discute o Orçamento do Estado, omite sempre os elementos de brutal injustiça social que estão em causa. Por um lado, onde esta progressão se faz por matemática simples, os salários seguintes não sobem de degrau conforme aumentam os mais baixos, criando uma fatia cada vez mais alargada e indistinta de portugueses remetidos a rendimentos colados à fasquia mais baixa, muitos deles depois de terem trabalhado mais de uma década sem progredir ou vendo outros equiparar-se-lhes por simples razão de negociação política, não de mérito. Por outro, ao obrigar a aumentar progressivamente os que menos ganham - em teoria, menos qualificados, menos experientes e menos capazes de garantir mais-valia -, deixa-se os cofres públicos e privados sem margem para compensar melhor quem mais merece, para distinguir pelo mérito. E esfuma-se totalmente o fator de prémio, a ambição de chegar mais longe, os incentivos a melhorar.

Das incoerências e dos bons sinais

1. A pandemia está, até ver, controlada, e ainda que seja preciso manter cautelas, isso permitiu reabrir todas as atividades. Um regresso da normalidade que António Costa garantiu que aconteceria a partir de 1 de outubro e que se tornou realidade. Ou mais ou menos real, porque aparentemente há perigosos focos de contágio de covid que têm de ser controlados por quem entende mesmo de pandemias: a Direção-Geral da Saúde, braço armado português da mesma OMS a quem repetiu primeiro que não valia a pena usar máscaras e depois as impôs, que certamente percebeu que o vírus pegava mais de noite e ao fim de semana e por isso cortou horários e certas atividades e obrigou quem queria comer fora a levar certificado mas só nesses dias e horários, que advoga a testagem em massa mas não trabalha os dados obtidos com esses testes.

A lixeira do mundo na luta pelo ambiente

Enquanto a Europa e os EUA traçam planos ambiciosos para proteger o ambiente - uma urgência que não é discutível -, a China e a Índia sozinhas conseguem manter a procura mundial de carvão estável, mesmo com as quebras de produção que a pandemia trouxe ao mundo. E mesmo com todos os esforços do Ocidente para eletrificar e limpar as suas economias. São dois terços da procura mundial de carvão concentrados em dois países. Alimentar estes dois gigantes em franca expansão significa, de acordo com a Agência Internacional da Energia, que tão cedo o mundo não se livra destas centrais e das consequentes emissões, com Pequim a liderar o consumo, apesar do compromisso recentemente assumido por Xi Jinping de se juntar à luta pela descarbonização.