Verão de 1966: quando Hepburn e O'Toole roubaram um milhão

"Como Roubar Um Milhão" estreou-se há 50 anos, e o período estival desse ano deu-nos mais pérolas do entretenimento

Uma carta de William Wyler. Foi apenas isso que encaminhou o estrelato de Audrey Hepburn em Hollywood. Nela manifestava ao realizador inglês Thorold Dickinson o seu interesse (e da Paramount) pela jovem do screen test que este dirigira para Secret People (1952). Por essa altura, Wyler preparava a rodagem do próximo filme, Férias em Roma (1953), com Elizabeth Taylor na iminência de tomar o papel da protagonista, mas acabou por alterar a escolha feminina ao vislumbrar naquele teste tudo o que procurava: "Charme, inocência e talento. Ela era também muito engraçada."

Ora, seriam estas as características vivas no rosto solar de Audrey que se redescobririam em diversas personagens, depois dessa princesa fugitiva de Férias em Roma, ao lado de Gregory Peck - que lhe valeu logo o primeiro e único Óscar da carreira. Digamos ainda, as mesmas características reconhecíveis numa inofensiva impostora (imagine-se a combinação) em Como Roubar Um Milhão, igualmente assinado por Wyler, sobre o qual passam 50 anos da estreia neste verão.

A classe de Audrey Hepburn

Porquê iniciar em Como Roubar Um Milhão um pensamento sobre esse verão de 1966, comparando com o que nos chega ao grande ecrã nestes dias? Talvez porque este caper movie (filme de assalto) se constitui um caso paradigmático daquilo que era uma tradição pura do cinema de entretenimento - mais apetecível na estação quente -, cuja aposta se firmava numa bela dupla de atores carismáticos, um bom argumento e muita classe pelo meio.

Audrey Hepburn e Peter O"Toole (que já tinha no currículo Lawrence da Arábia, lançado em 1962) emprestaram aqui carisma de sobra, e a classe, essa fazia parte de Audrey, uma das poucas atrizes com verdadeira influência na moda da década - atributo que Wyler fazia questão de sublinhar. E a verdade é que não se esquece o guarda-roupa dela neste filme...

Como Roubar Um Milhão veicula pois, sem prejuízo, a deliciosa futilidade que serve a própria ideia do artifício, ou seja, da ilusão que é também o cinema, até porque, no enredo, o pai de Nicole (Audrey) é um muito bem-sucedido falsificador de arte. Por sua vez, Simon Dermott (O"Toole) aparece como o ladrão perfeito para salvar a "donzela em apuros", ajudando-a a roubar uma estátua forjada pelo pai, exposta num museu de Paris, em vias de ser apanhada numa análise técnica que colocaria fim a uma vida dedicada ao ofício de replicar a beleza. No final, o assalto estende-se à matéria romântica: roubam o coração um ao outro.

No mesmo verão de 1966, chegava também às salas americanas Cortina Rasgada, de Alfred Hitchcock, com outro par memorável, desta vez no cenário da Guerra Fria - Paul New-man e Julie Andrews -, além da hilariante comédia de e com Jerry Lewis, Uma Poltrona para Três, em que o próprio se fragmenta num triplo de homens excêntricos, que procuram convencer, lá está, três pacientes da sua namorada, uma psiquiatra (Janet Leigh), de que o ser masculino não é tão odioso como a experiência de todas elas estabelecia...

Entre o thriller e a comédia, este foi ainda o ano em que a série televisiva de Batman daria lugar à primeira longa-metragem do super-herói da DC Comics (longe estávamos do confronto com o Super-Homem que O Despertar da Justiça, de Zack Snyder, nos trouxe no início do ano). Os Flintstones, famosa animação da época que retratava uma família na Idade da Pedra, também saltavam para a grande tela - The Man Called Flintstone - mas não passaria deste único filme, na versão animada. Agora, temos uma espécie de equivalente que é a Idade do Gelo.

Mas houve mais um marco na variedade de estreias desse ano: Viagem Fantástica, de Richard Fleischer, que deslumbrou pelos efeitos especiais (categoria em que ganhou o Óscar, para além da direção artística), e soube colocar a fantasia e a ficção científica ao serviço de uma história imaginativa sobre um submarino microscópico que percorre o interior do corpo humano. Fleischer voltava assim à aventura e, num certo sentido, ao tema das Vinte Mil Léguas Submarinas, de Verne, que adaptara em 1954.

Olhando os exemplos, quais as reminiscências de um verão destes na atualidade? Responderíamos, sem perigo de generalização: as sequelas infinitas. A grande indústria alimenta-se hoje do conceito de série, que deixou de ser uma especificidade televisiva, para o levar até ao limite de um apelo cinematográfico em que justamente o cinema, na maioria das vezes, já não encontra definição. Em 1966, os géneros ainda eram terrenos trabalhados com códigos artísticos que convocavam o espectador para a imersão num caos organizado, isto é, em que a escrita do filme precedia tudo. Cada efeito especial, a existir, respondia a uma necessidade e à economia narrativa em si. Agora estes tendem a apagar a escrita.

Se há agradáveis exceções? Claro que sim. Veja-se O Amigo Gigante, de Steven Spielberg, chegado às nossas salas no início de julho, um filme que usa técnicas digitais para reforçar os traços humanistas presentes na narrativa, ou a leveza inteligente e clássica de Maggie Tem Um Plano, com assinatura de Rebecca Miller, ou Amor e Amizade, de Whit Stillman, a deixar claro que o cinema pode conter modernidade velada em trajes de época. Aí, em vez de um milhão, roubam-se maridos.

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