Uma Carmen de carne e osso, vivendo sobre o fio da navalha

A famosa obra de Georges Bizet abre amanhã (20.00) a temporada do Teatro São Carlos, na estreia em Lisboa da encenação de Calixto Bieito que tem corrido mundo. Justina Gringyte substituiu Katarina Bradic como Carmen

A poucos dias da estreia, uma lesão contraída em Lisboa impediu a sérvia Katarina Bradic de protagonizar a Carmen que amanhã estreia no Teatro São Carlos. Mas nada que perturbe Joan Anton Rechi, responsável pela reposição da famosa encenação de Calixto Bieito: "esta produção já tem 17 anos, pelo que já há um bom manancial de "Carmens", isto é, cantoras que cantaram e conhecem a produção. E o engraçado é que querem sempre repetir a experiência!"

A propósito, cita uma delas, que afirmou ser esta "a Carmen que me faltava, pois aborda aspetos que jamais havia trabalhado". A escolha acabou por recair na lituana Justina Gringyte (estreia-se em Lisboa), que já integrava o elenco da próxima reposição, no Massimo de Palermo: "É incrível - afirma, a propósito, Rechi - que ainda se faça tanto e em tantos sítios", referindo-se à encenação de Bieito, estreada no Festival de Perelada em 1999 e que ganhou uma "segunda vida" desde a produção do Liceu de Barcelona, há seis anos: "este ano, foi a estreia nos EUA, com produções na Ópera de San Francisco e na de Boston. Agora, depois de Lisboa, vamos regressar a Palermo, de seguida prepararemos a estreia em Paris (Opéra Bastille) - onde haverá quatro elencos diferentes! - e depois iremos a Veneza (Teatro Fenice), para a terceira reposição lá".

Sucesso que Rechi explica por ser "uma Carmen muito redonda, que encaixa muito bem na história". Inclusivé a violência, as alusões sexuais e a nudez em palco: "Violência e sexualidade latente estão implícitas na obra e ainda mais na novela de Mérimée [base do libreto], que, a esse respeito, é bem mais crua que a ópera". Não duvida, por isso, ao afirmar que "a Carmen é uma história de sexo e violência e, acredito, não há nada nesta encenação que não vá de encontro à obra". E lembra: "Carmen foi um escândalo na época. Até atiravam pedras aos teatros que a programavam. Perguntavam-se: "como é possível uma mulher destas ser heroína de uma ópera?"" Parafraseando Bieito, Rechi reafirma ser Carmen "o primeiro drama de género, pois mostra em palco - até ao limite [o assassinato de Carmen por Don José]! - a violência exercida sobre uma mulher".

Estes ingredientes combinam com a intenção de "uma ópera que fosse como um road-movie: trepidante e rápida no "ritmo", que passasse diante dos nossos olhos de forma vertiginosa". A ideia da "estrada" liga, é claro, ao nomadismo dos ciganos - para mais, contrabandistas na história! - e nasceu... de uma viagem: "fomos à Andaluzia descrita na novela, mas só em Marrocos e em Ceuta encontrámos o espírito que queríamos para esta produção: uma terra de fronteira, onde há os mesmos contrabandistas que tentam, à socapa dos guardas e militares, fazer entrar mercadorias ilegais em Ceuta; os carros de prestígio em 2.ª ou 3.ª mão que servem de casa; e em Tânger vimos inclusive a arena de uma praça de touros usada como parque de automóveis usados como habitação".

Algo que, para Rechi, se liga ao ideal de liberdade que perpassa da obra na visão de Bieito: "as personagens têm uma ânsia de liberdade. Daí o ciclorama que vai passando sobre as suas cabeças e que significa a possibilidade de alcançar um outro modo de vida. Deste desfasamento surge uma certa melancolia nas suas atitudes". Mas a "vida perigosa" tem as suas leis: "eles caminham sempre sobre o "fio da navalha", excitante e perigoso em simultâneo. São pessoas que vivem no limite, para as quais os conceitos de vida e de morte se esbatem, tão próximos estão".

Motivações de fundo foram duas: "ir contra os estereótipos românticos, isto é: aqui não há crime passional nem Don José é um herói, mas antes um homem violento que se fez soldado para escapar à prisão por assassinato; há maus tratos de um homem sobre uma mulher, Carmen, que não quer ir contra a sua própria natureza; depois, enquanto espanhóis, queríamos ir contra as visões do lugar-comum e do cliché "espanhol", que para nós são um mundo de fantasia como a Disneyland. Daí que por vezes usemos esses mesmos clichés para os desmontar, tal como acontece com o touro da Osborne".

E tudo isso converge em Carmen para a pintar como "uma mulher real, de carne e osso, sem mito, com coisas boas e más, como todos os restantes personagens e como todos nós". No final, importam pouco ousadias e polémicas: "não é o escândalo ou a ausência dele que tornam moderna uma encenação. O que é moderno é a visão que temos da história, porque isso vai-se alterando com o tempo. A profundidade psicológica conferida a estas personagens é que torna muito moderna a leitura de Bieito".
E deixa uma interrogação: "As pessoas confrontam-se com violência e sexualidade de cada vez que ligam a televisão. No teatro também não é incomum, mas só nos teatros líricos é que tal é causa de escândalo. Porque será?"

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