Um western para ver até ao osso

A Desaparecida, o Aleijado e os Trogloditas é o segundo título da Cinema Bold

Se pararmos nas primeiras palavras do título português, temos um filme de John Ford: A Desaparecida (1956). Ao continuar... o Aleijado e os Trogloditas, dá ideia de que a seriedade acabou por ser arredada desta primeira longa-metragem de S. Craig Zahler. Nada mais errado. É preciso que não nos deixemos atraiçoar pelos vocábulos. Há de facto uma premissa fordiana neste western, que, por uma ordem semelhante à do título, soma novas possibilidades ao género, sem o desfigurar. Aliás, nem isso seria possível com Kurt Russell, de respeitosa barba e bigode, a comandar uma expedição enquadrada na paisagem seca da fronteira do Texas com o Novo México. Estamos em meados do século XIX.

O desencadear desta busca acontece na sequência de um ataque noturno. O sossego da cidade protegida pelo xerife Hunt (Russell) foi quebrado pelo desaparecimento de uma mulher, a enfermeira local, que fazia serão na esquadra. Tentava baixar a febre de um forasteiro a quem tirara uma bala cravada na perna. De manhã, sem vivalma no posto, e um morto na cavalariça, torna-se óbvio que foi obra de selvagens... Índios? Não, mais específico, trogloditas, seres canibais que habitam em cavernas. Tinham seguido o rasto do forasteiro.

Rapidamente, três discrepantes personalidades se juntam ao xerife na perigosa mas inevitável jornada de resgate: o próprio marido da enfermeira (que é o aleijado do título, interpretado por Patrick Wilson), um velho pistoleiro (Richard Jenkins) movido pela nobreza de ajudar os amigos, e outro bem mais jovem e hercúleo (Matthew Fox), que se considera indispensável no frágil conjunto. De cavalos alinhados, os quatro homens inscrevem-se no cenário do Velho Oeste como figuras esboçadas a quem o território quer roubar a alma.

Zahler é também argumentista e compositor, e revela um esmerado sentido de tempo, que trabalha com inteligência e segurança. O compasso brando da viagem, que vai permitindo expor os traços de cada personagem e a sua resistência, é também uma suspensão que torna mais impactante a sequência final, na caverna dos horrores. E se há receios que esta violenta transposição de género estrague o trabalho a cinzel do realizador americano, a verdade é que não há perda de justeza.

Nada se descaracteriza neste robusto quadro humano - que, mesmo os momentos mais assustadores, não deixa de conciliar com humorísticos detalhes. Aqui, os valores do western e os elementos do terror coexistem pela habilidade da pena e da câmara de um nome debutante que vai valer a pena seguir.

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