Um T1 de 220 m2 (quase) sem portas à conquista da Europa

Uma casa portuguesa está na shortlist do prémio de arquitetura Mies van der Rohe. É um laboratório para repensar a arquitetura

Há uma casinha portuguesa a despertar a curiosidade dos arquitetos europeus. Fica em Oeiras e saiu do atelier de Pedro Domingos. O arquiteto ri-se. "Sim casinha, gosto. Com obras de outra dimensão e com outra importância no panorama...". A Casa de Oeiras é uma das 40 seleccionadas do prémio de arquitetura Mies van der Rohe, cujos cinco finalistas são divulgados amanhã. Entre os 355 projetos de toda a Europa, Portugal chega à fase intermédia com quatro projetos, um dos quais esta casa. Afinal o que tem de especial?

Esta não é, claro, uma casa qualquer. Tem 220 metros quadrados e desenvolve-se em torno de um pátio interior. Não tem portas interiores (só a da casa de banho e a decisão já chegou numa fase final da obra...), as janelas não abrem, não tem rodapés, o chãr e o teto são de betão à vista. Uma depuração extrema para responder ao programa e às limitações financeiras do cliente. "A encomenda pressupunha que se ia fazer uma casa mas não era uma casa convencional. Era uma casa para uma pessoa que tinha uma coleção de livros grande, uma pequena coleção de arte e precisava de ter uma casa onde pudesse ter acesso a este património, pudesse trabalhar, pudesse escrever. Pede-nos um lugar que nós, a dada altura, nomeámos a casa para pensar à semelhança da cabana de Heidegger que tinha uma cabana para onde ele ia escrever", conta Pedro Domingos.

Este programa - a que se junta o facto de o terreno ser numa zona urbana em Oeiras, próxima da linha do comboio rodeada de "grandes moradias incaracterísticas que ocupam quase o lote todo" - estava próximo dos desafios que o arquiteto colocava aos alunos quando dava aulas. Mas agora era a sério.

"A reação foi construir uma casa a partir da tipologia pátio, virada para dentro, havia aí a oportunidade de fazer um ensaio, para nós funcionou quase como laboratório, estudar a tipologia da casa pátio. O cliente foi sempre aderindo, confiou sempre, passou a responsabilidade para nós", conta o arquiteto. "Depois fomos fazendo o projeto até levarmos a coisa a um certo radicalismo - estava montada a coisa para isso e é algo que nos interessa em relação à arquitetura, tentar levar cada projeto aos seus limites. Às tantas já estávamos a propor a casa sem portas nenhumas, nem na casa de banho. Para lá chegar havia um processo que qualquer pessoa sentia que estava a entrar em níveis de privacidade ... o próprio cliente chegou ao fim da obra e disse que o melhor era por uma porta".

O projeto demorou três anos a ser feito. É o que precisa uma casa, "de tempo." As duas salas, de estar e de trabalho, têm um pé direito de cinco metros, para receber a coleção de arte. A casa desenvolve-se toda num só piso, em 220 metros quadrados, e é um T1. Pedro Domingos ri-se: "para licenciar a casa na câmara tivemos de pôr uma tipologia e só tem um quarto. É um T1 nessa perspetiva mas é difícil de classificar, a casa está feita de uma certa maneira que é difícil de a classificar. Mas isso é bom."
O contrato de construção para os 220 metros quadrados foi 170 mil euros. "Isso exigiu medidas bastante radicais, desenhadas e pensados no seu conjunto. Essas opções não sendo as mais comuns fazem sentido. É um teste para pensar se se pode fazer uma casa com custos muito controlados e continuar a ter uma atmosfera muito intensa, muito forte", diz o arquiteto.

"Há um certo cansaço entre os arquitetos e não só destas temáticas, da globalização, da coisa internacional, da arquitetura já não ter lugar e que já é repetida e já serve mais propósitos mas de exibição de poder ou políticos, económicos e perdem um bocado a sua essência que é responder às necessidades das pessoas. E andamos nisto já há algum tempo. Eu acho que agora há uma espécie de retoma ao essencial".

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