Um pintor de paisagens e silêncios

"A Assassina" assinala o retorno do cineasta taiwanês Hou Hsiao-Hsien

Um dia, Hou Hsiao-Hsien enfiou pela porta de um autocarro ignorando o destino. Quando o autocarro parou, saiu e leu a placa: Fengkuei. Deixou-se ficar a observar um campo de juncos selvagens sob o efeito do pôr-do-sol, e no momento em que a luz se apartava, outra claridade lhe nasceu no espírito. Acabava de perceber a sua demanda como realizador: a câmara deveria captar sempre o máximo "realismo" (palavra tão cara nos nossos tempos...). O seu quarto filme, The Boys From Fengkuei (1983), feito naquele lugar, quis gravar a impressão desse dia.

Digamos que A Assassina devolve-nos, com acutilância, esta noção de realismo que interpela os sentidos. O filme que assinala o retorno do cineasta taiwanês, após oito anos de intervalo, é um desses magníficos lances em que um autor faz a incursão num género, tratando-o como um conjunto de regras a quebrar.

O espetador movido pela promessa de um filme de artes marciais, na senda de Ang Lee, por exemplo, terá um embate com A Assassina que não se definirá, de todo, pelas marcas da ação. E é precisamente nessa incoerência que a obra de Hou Hsiao-Hsien estabelece a sua voz dentro do dito género: as artes marciais surgem como pequenas disrupções ao longo de uma história contemplativa.

Ou seja, a assassina que "vigia", com tristeza, a sua presa, e nós que "observamos", ao detalhe, o realismo de uma época - século IX - na China, oferecida em imagens, apetece dizer, absolutas, na referência pictórica daquela cultura.

A assassina deve matar, mas a resistência do seu coração é o que determina o tempo do filme, um suave tempo de espera, sendo relegadas para segundo plano as subtilezas da corte na Dinastia Tang - o contexto histórico tem a relevância de uma moldura, nem mais nem menos. Já imperativa é a textura das imagens e o silêncio da protagonista.

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