Um ator de cinema que também realizou

Desde a década de 60, Nicolau Breyner interpretou variadas personagens. E em três ocasiões colocou-se atrás da câmara

Alfred Hitchcock elogiava os atores capazes de interpretar personagens normais compelidas a enfrentar situações excecionais. Talvez se possa condensar a trajetória cinematográfica de Nicolau Brey-ner através desse paradoxo (mesmo não esquecendo que o mestre do suspense se referia a um contexto de produção bem diferente daquele em que, melhor ou pior, tem existido o cinema português).

A sua vocação para a comédia ficou patente em alguns dos títulos de maior impacto comercial da década de 60, como Pão, Amor e Totobola... (1964), de Henrique Campos, ou Sarilhos de Fraldas (1967), de Constantino Esteves. A relação com a televisão intensificou-se na década de 70, de algum modo secundarizando o cinema. Em todo o caso, foi surgindo em títulos de realizadores como Artur Semedo (Malteses, Burgueses e às Vezes, 1974), António de Macedo (O Princípio da Sabedoria, 1975), ou Luís Galvão Teles (A Vida É Bela?!, 1982).

Sob a direção de Fernando Lopes, experimentou a comédia burlesca (Crónica dos Bons Malandros, 1984) e um drama baseado em Antonio Tabucchi (O Fio do Horizonte, 1993), tendo surgido ainda em algumas coproduções, com destaque para Afirma Pereira (1995), de Roberto Faenza, também segundo Tabucchi, contracenando com Marcello Mastroianni. Inferno (1999), de Joaquim Leitão, O Milagre segundo Salomé (2004), de Mário Barroso, e Arte de Roubar (2008), de Leonel Vieira, são alguns títulos da sua restante filmografia. António-Pedro Vasconcelos terá sido o cineasta que o convidou para papéis mais contrastados, em Jaime (1999), Os Imortais (2003), Call Girl (2007), A Bela e o Paparazzo (2009) e Os Gatos Não Têm Vertigens (2014).

Nicolau Breyner experimentou também a realização cinematográfica, assinando um policial (Contrato, 2009), um thriller (A Teia de Gelo, 2012) e uma comédia (7 Pecados Rurais, 2013). Estava a trabalhar em Seara de Vento, de Sérgio Tréfaut, adaptação do romance de Manuel da Fonseca.

Recentemente concluíra a sua participação em Before Dawn, realização da alemã Maria Schrader sobre o escritor Stefan Zweig. A atriz Maria Vieira, que também integra o elenco, resumiu para o DN a memória que dele guarda: "Feliz, bem disposto, com sentido de humor. É assim que o vou lembrar para sempre, mas nas filmagens, há três ou quatro meses, isolou-se um pouco e senti-o um pouco triste." Por estrear ficam ainda Expatriate, de Renato Lucas, e A Ilha dos Cães, de Jorge António.

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