"Trump? Qualquer psicopata se torna perigoso"

Entrevista ao realizador Oliver Stone a propósito do seu novo filme, "Snowden", que estreia quinta-feira em Portugal.

Já foi o maior cineasta americano. Serenou. Recompôs-se. Hoje é o homem que teve coragem de filmar a história do ex-colaborador dos serviços secretos americanos, Edward Snowden. Em Snowden, o título do filme, Oliver Stone volta à sua grande forma e filma um dos novos símbolos da resistência americana perante o estado das coisas. É isso mesmo que Stone diz quando o DN se aproxima dele e anuncia que não estamos nos melhores dos tempos e dá como exemplo o erro de não ser o ex-candidato Bernie Sanders a concorrer contra Donald Trump.

Dói-lhe o ouvido, mas isso não o impossibilita de gerir neste Festival de Toronto o impacto da estreia do seu novo filme. Quem não o conhece pode julgar que está apático, mas Stone está disponível para a luta. Antes desta conversa, lembra-se de Portugal e jura pés juntos que quer voltar. Aliás, estávamos sem vaga para estas entrevistas devido ao nosso mercado de cinema não ser prioritário em termos internacionais mas graças à amizade que o cineasta tem com o Douro Harvest Film Festival e o seu diretor, Manuel Vaz, conseguimos à última da hora alguns minutos de conversa. Ainda diz: "O Porto é lindo. Adorei o Douro!"

Antes do gravador ficar ligado perguntava o que se passava com a história do ex-primeiro-ministro que foi preso. Oliver Stone está curioso com o caso José Sócrates: "Ah, mas agora já não está preso! Sei que em França também já se falou do Sarkozy..."

No começo do filme vemos Snowden como um jovem idealista patriótico que se alista no exército e quer lutar pelo seu país. Esse Snowden tinha muito a ver com o jovem Oliver Stone que também se alistou?

Identifico-me muito! Sim, eu também fui lutar para o Vietname. O Ron Kovic, que filmei em Nascido a 4 de julho, também estava na mesma situação. Uma pessoa aprende com a vida. Tal como eu, o Edward aprendeu com a experiência. Ambos temos a mesma natureza! Ele alistou-se em 2004, a altura mais quente da guerra.

Está curioso em perceber como é que fora dos EUA este filme vai ser julgado?

Sim, sobretudo porque na Europa as opiniões em relação ao Edward são muito mais favoráveis. Seja como for, os americanos estão a mudar em relação a ele desde 2014. O povo americano também vai percebendo melhor as coisas... Sabia-se muito pouco sobre ele e o mundo que revelou é bastante complicado de se perceber. Trata-se de um super segredo, que continua em segredo!

O filme esteve para se estrear o ano passado e acaba por chegar em ano de eleições.

Não foi intencional. Este filme teve imensos obstáculos, mas se o tivesse terminado mais cedo tê-lo-ia lançado antes. A verdade é que os candidatos à Presidência norte-americana não falam destes temas de vigilância e dos drones. Enfim, a hipocrisia continua. Por isso, quis fazer um thriller o mais puro possível mas o mais real possível. Fizemos muita pesquisa e descobrimos muitos dados contraditórios. Foi muito difícil, quase ao nível do que foi a preparação para o meu outro filme, o JFK. Quis ser muito exato e, nesse sentido, fiz questão de viajar até ao Edward nove vezes. Ele ajudou-nos, mas também ouvimos outras versões. Quisemos estar perto da verdade, mas nunca se sabe! Se calhar, agora vão surgir novos dados. Obviamente tivemos de dramatizar alguns dos factos. Por exemplo, ele teve muitos supervisores em diversos lugares - no filme condensámos apenas para uma pessoa.

Como foi a rodagem de Snowden?

Esta rodagem demorou muito tempo porque era um guião imensamente complicado para ser reduzido para a duração de duas horas e obedecendo às regras de um thriller. Claro que não podíamos fazer um Bourne, que por muito entusiasmante que seja não é nada realista em termos de credibilidade da NSA. O que a NSA faz de facto está revelado em Snowden, mas em 2016 eles investiram mais dinheiro nas suas operações e provavelmente ainda terão mais informação. O que me interessou aqui era contar a história que estava dentro desta história, é o que me interessa sempre, desde o Vietname. Quando fui para aquela guerra não percebia o que se estava a pensar, era jovem. Aos 29 não era nada como Sr.. Snowden! Era um tipo relativamente inconsciente e demorei tempo a acordar. É preciso não esquecer que fui educado por um pai conservador.

Acredita que os EUA vigiam de perto um país como Portugal?

Vocês não estão naquilo que se denomina o "grande olho". Mas por exemplo, algo que perturbou o Snowden foi quando estava a trabalhar no Havai e percebeu que material cru de informação classificada estava a ser enviado para Israel. Escusado será dizer que palestinos que vivem nos EUA são vigiados... As consequências disso podem ser muito pesadas.

Como é que Edward Snowden está a viver estes dias antes da estreia mundial do filme?

Continua igual, não muda nada! Está agradado com o filme, disse-me. Edward é alguém que continua patriota e interessado na NSA. Creio que ele deveria ser nomeado chefe da NSA, a sério! Tirem os vigaristas que lá estão e ponham-no a ele! Estou realmente convencido que faria um trabalho superior. Seria mais eficiente a proteger o povo americano em vez de passar para a ofensiva. A administração Bush atacou os outros países com os serviços secretos...

E psicologicamente, como é que ele se encontra? Tem otimismo?

É um tipo muito estoico! Na verdade, não mudou a sua vida, está sempre ao computador! Não sei se tem muitos amigos. Quer dizer... a Lindsay mudou-se para Moscovo e isso foi importante. Ela é a pessoa mais importante na sua vida.

E o Oliver, está mais otimista?

Esta é a parte em que deveria dizer algo otimista, não é? Estamos aí com umas eleições superficiais. Muitos queixam-se da falta de democracia em eleições noutros países mas nós devíamos era olhar para o nosso caso. Ainda há bem pouco tempo foi revelado o comportamento ilegal das pessoas de topo dos democratas! Só querem atribuir culpas à Rússia, mas vejam o que ficámos a saber... Há muita porcaria envolvida neste desafio que Bernie Sanders propôs! Sabe que mais, há muita gente que acredita que Sanders venceu a Clinton mas a imprensa abafou o caso. Democracia? Digo apenas para não dar lições de moral a outros países. Olhem para a nossa democracia - estamos a ser hackers dentro de outros países desde 2007! E isso é tão grave! Fomos também nós que antes lançámos a bomba atómica em Hiroshima e Nagasaki, nunca se esqueçam disso. Ainda quer que eu diga algo otimista?! É deprimente ter a minha idade: atravessei a Guerra Fria, fui veterano da merda do Vietname e agora estou a ver tudo isto de novo! Nojento... A única coisa mais otimista que posso dizer é que há pessoas como o Snowden que fazem este tipo de coisas e trazem luz a este túnel merdoso. Um filme pode ajudar, um artigo pode ajudar...

A segurança de Snowden no palco foi intensa. Chegou a temer que a NSA pudesse estar a vigiá-lo?

Nunca se sabe...Estou vivo! Talvez ainda venha a ser "hacked" por eles e depois ainda vão aparecer pelo mundo inteiro coisas secretas sobre mim! Evidentemente que tomámos precauções, seríamos estúpidos se não o fizéssemos. Desaparecemos do mapa e não comunicámos nada de importante através de emails. A rodagem foi na Alemanha. Achámos que era um país mais simpático para a causa da personagem Snowden. Obviamente a Alemanha é um país alvo dos EUA. Eles também estão a ser vigiados. Estamos a viver aquele efeito parecido ao que se passava nos anos 1950, na época McCarthy: vê por onde andas, não abras a boca, não fales demasiado liberal porque podes ter sarilhos. O sentimento é o mesmo. Tudo isto acontece porque era assim que o Bush queria, a tal "guerra ao terror!"!

Muitos não se lembram mas dirigiu Donald Trump em Wall Street. A cena foi depois eliminada e não ficou na versão final. Disse que o achou adorável. Será que esse é o mesmo Trump de hoje?

É o mesmo tipo! É um charmoso e muito divertido... Um entertainer.

Mas perigoso?

Claro! Qualquer psicopata torna-se perigoso! Vivemos num mundo perigoso.

Já está a pensar no próximo filme?

Talvez não haja um próximo filme! Talvez me reforme e vá para o estrangeiro...

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