Três dias (quase) 'non-stop' celebrando a Alemanha

Casa da Música faz hoje (sexta-feira, 16) a Abertura oficial do Ano Alemanha/2015, com vários concertos até domingo à noite. Compositor Helmut Lachenmann é um dos convidados

Uma história da Alemanha em três dias é quase tão utópico como fazer as obras completas de Shakespeare em 97 minutos, mas a Casa da Música espera certamente o mesmo sucesso obtido pela peça teatral para o conjunto de iniciativas com que, entre hoje e domingo, é inaugurado o 'Ano Alemanha', designação que sinaliza o destaque que irá ser dado ao longo do corrente ano à música e aos compositores desse país.

A história começa a ser contada hoje, à hora de almoço (13.00), quando o organista (e pianista e maestro) Jonathan Ayerst começar a fazer soar o órgão histórico da Igreja dos Clérigos, em obras de Krieger, Buxtehude e J.S. Bach. Mas o verdadeiro momento fundador acontece à noite (21.00), na Sala Suggia da Casa da Música. Aí, a Sinfónica do Porto Casa da Música (OSPCdM) põe a 'Alemanha em concerto' com obras de Weber, Helmut Lachenmann e Beethoven, dando início a dois eixos da programação de 2015: a integral dos concertos para piano de Beethoven e a retrospectiva da obra de Lachenmann. A primeira destas iniciativas terá por protagonistaPedro Burmester, Artista em Residência ao longo da temporada; por seu lado, a segunda coloca a primeira pedra no edifício Lachenmann, Compositor em Residência na CdM em 2015 (ver abaixo). Burmester começa a sua integral com o Concerto n.º 4, op. 58 e o ciclo terá sequência a 7 de março (Concerto n.º 3), 22 de maio (Concerto n.º 1), 24 de outubro (Concerto n.º 2) e 12 de dezembro (Concerto n.º 5). De Lachenmann, ouve-se Schreiben (Escrever), obra de 2003 que será dirigida por Matthias Hermann. O restante programa terá a dirigi-lo o suíço Baldur Brönnimann, no que será o seu primeiro concerto enquanto novo maestro titular da OSPCdM. No sábado e no domingo, outras três obras de Lachenmann (que estará no Porto por estes dias) serão ouvidas na CdM: ...zwei Gefühle..., Musik mit Leonardo, para altifalante e ensemble (de 1992) e Mouvement (-vor der Erstarrung), para ensemble, obra de 1982-4, pelo Remix Ensemble (sábado); e Consolations II, para 16 vozes (obra de 1968), pelo Coro Casa da Música (domingo).

Até final do ano, a música de Lachenmann integrará mais quatro concertos: a 1 de março, a OSPCdM toca Kontrakadenz (1970-71), para grande orquestra; depois, a 20 de outubro, o Remix toca Concertini (2005), para grande ensemble; quatro dias depois, a OSPCdM interpreta Accanto, para clarinete solo e orquestra (de 1975-76) e, por fim, a 12 de dezembro, a "despedida", com Suite de danças com hino alemão, para quarteto de cordas (no caso, o Quarteto Arditti) e orquestra (obra de 1979-80). Prossegue a 'História da Alemanha' no sábado, com um concerto iniciativa do Serviço Educativo (16.00): o ensemble da Escola Profissional de Música de Espinho traz "Da música nascem histórias", a partir de obras de Beethoven, Schumann e Brahms. Duas horas depois, o já mencionado concerto do Remix: Peter Rundel dirige as citadas obras de Lachenmann e ainda dois momentos da versão do Anel do Nibelungo wagneriano assinada por Jonathan Dove. Este concerto terá em palco o próprio Lachenmann, como narrador.

No domingo (12.00), volta a ouvir-se o órgão e de novo por Jonathan Ayerst, mas desta vez no instrumento instalado na Sala Suggia: obras de Bach e Buxtehude, mas também de Brahms e Wolfgang Rihm (n. 1952). Por fim, às 18.00, o Coro Casa da Música canta Schütz, Hassler, o citado Lachenmann, Stockhausen e Hidalgo/Beethoven.

À música propriamente dita acresce ainda o 6.º Curso Livre de História da Música, todas as segundas-feiras de 12 de janeiro a 12 de outubro e composto de cinco módulos subordinados a outros tantos temas, todos eles tendo a Alemanha em comum.

Outra significativa presença alemã será a do cravista e pianofortista Andreas Staier, Artista em Associação da CdM em 2015. Ao longo do ano, ele virá duas vezes à Casa: a 30 de maio, é solista (em cravo) e dirige a Orquestra Barroca Casa da Música em obras de Telemann e Bach; já na rentrée, a 3 de novembro, faz um recital de cravo com obras de Bach e de autores franceses. Além de Lachenmann, outras cinco figuras da nova música alemã figuram na programação de 2015: Karlheinz Stockhausen (1928-2007). Wolfgang Rihm (n. 1952), Jörg Widmann (n. 1973, que virá também como solista - ele é clarinetista), Hanz Zender (n. 1936) e Johannes Kalitzke (n. 1959). Outras presenças muito relevantes serão as dos Tangerine Dream (11 abril), Ute Lemper (30 abril) e da Akademie für Alte Musik Berlin (1 novembro).

Momentos altos em termos da "programação alemã" serão a execução ao vivo da partitura de Richard Strauss para o filme mudo O Cavaleiro da Rosa (7 fevereiro); a da Missa solemnis, de Beethoven (27 março); os concertos dedicados à Entartete Musik ou "Música degenerada" (24 e 26 abril) e o concerto dedicado ao mito fáustico (16 outubro).

Burmester chega ao CD

Outra iniciativa que acrescerá ainda mais brilho a este fim-de-semana será a edição em CD, por iniciativa da própria CdM, do recital de Pedro Burmester na Sala Suggia, a 8 de dezembro de 2013, o primeiro em absoluto que o pianista portuense ali deu. Trata-se, por conseguinte, de uma gravação ao vivo, contendo o programa e os extras que Burmester tocou naquela ocasião: Variações sobre um tema popular português, de Lopes-Graça; Partita n.º 6, de Bach; Benção de Deus na solidão, de Liszt; Musica ricercata, de Ligeti; e, tocadas em extra: Ständchen, de Schubert/Liszt; Valsa op. 64 n.º 1, de Chopin e My beautiful blue country, de Luís Pipa. O disco é colocado à venda na CdM hoje (sexta-feira), dia em que Pedro regressa à instituição para tocar o Concerto n.º 4 de Beethoven ao lado da OSPCdM. O pianista será Artista em Residência da CdM ao longo deste ano, cabendo-lhe tocar os cinco concertos para piano de Beethoven, sempre com a OSPCdM.

O compositor em residência

Helmut Lachenmann (n. 1935, Estugarda) será em 2015 o Compositor em Residência na Casa da Música, traduzindo-se tal numa presença regular da obra (e da pessoa) de Lachenmann na Casa da Música no ano em que completa 80 anos. Helmut Lachenmann é hoje, junto com Wolfgang Rihm, a figura de maior destaque e prestígio na composição alemã. Nos últimos anos, tem sido objeto de uma crescente consagração, com festivais/ciclos retrospetivos dedicados à sua obra em centros importantes como o Southbank Centre de Londres ou em Nova Iorque. A sua carreira de compositor tem mais de meio século, tendo-a iniciado quando ainda era aluno de Luigi Nono (1924-1990) em Veneza. Particularmente associado a Lachenmann está o termo de"música concreta instrumental", designando a sua opção criativa de transpor para instrumentos os conceitos associados à música concreta (geralmente aplicados em música pré-gravada, depois tecnologicamente transformada). Lachenmann foi sempre um outsider face a todas as vanguardas e a sua sonoridade distintiva não raro atraiu críticas, censuras e incompreensão de colegas e críticos. Na sequência da reflexão de Nono sobre a relevância da criação musical erudita nas sociedades ocidentalizadas modernas (atitude que nele se ligava intimamente a uma tomada de posição social), Lachenmann enveredou por uma reformulação radical do conceito de música e de escuta à qual não foram estranhas as reflexões de Adorno sobre esse tema. Isso resultou em propostas que não soavam como nada mais na criação contemporânea e que requeriam dos executantes a aprendizagem de um catálogo novo de técnicas de execução/produção de som. Lachenmann emancipou e promoveu os ruídos a uma nova categoria estética, bem como dissecou a própria fisicalidade do som, elaborando com o tempo um conjunto de obras que reformulavam e redefiniam (ou alargavam/enriqueciam) aquilo que entendemos por música enquanto arte performativa, uma espécie de espectrograma (não espectralista) da natureza ontológica do som. Especial projeção adquiriu a sua ópera A rapariga dos fósforos, estreada na Ópera de Hamburgo em 1997, a partir do conhecido conto de H. C. Andersen. Lachenmann ganhou o Prémio Siemens (1997), o da Royal Philharmonic Society (2004), o Leão de Ouro da Bienal de Veneza (2008) e foi feito Fellow do Royal College of Music (2010) e Commandeur des Arts et des Lettres (2012). Ao longo do próximo mês, e para além do Porto, obras de Lachenmann serão tocas em Colónia, Bremen, Berlim e Estugarda, Londres, Paris, Amesterdão e Graz. Entre os intérpretes, contam-se a Sinfónica da Rádio de Berlim e a Filarmónica de Berlim - esta, com Simon Rattle, leva Tableau (1988), de Lachenmann, na sua digressão europeia.

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