Tigerman: "A arte não tem de ser correta nem decente"

É um novo The Legendary Tigerman aquele que se apresenta em Misfit, o sétimo registo de originais do alter ego musical criado por Paulo Furtado já há mais de 15 anos.

The Legendary Tigerman tem um novo projeto, diferente daquele que o apresentava inicialmente como one-man band. Apresenta-se agora, e pela primeira vez, como uma banda da qual fazem também parte o baterista Paulo Segadães, o saxofonista João Cabrita e o baixista Filipe Pisco, que sob a "direção artística" de Paulo Furtado ajudaram a moldar o som deste álbum, considerado pelo próprio Paulo Furtado como um regresso ao rock "mais instintivo" dos primeiros trabalhos.

Quem é hoje o The Legendary Tigerman? Pode dizer-se que é um daqueles casos em que a criatura tomou conta do criador?

Penso que é o mesmo artista que tem sido nos últimos 15 anos, mas sim, reconheço que essa confusão possa existir. Eu próprio a senti durante os primeiros anos de vida do Tigerman [risos]. Hoje, o Tigerman está mais confinado ao palco e é o Paulo Furtado quem sai à rua e tem uma vida normal.

Mas é uma personagem ou faz parte do Paulo Furtado?

É uma parte de mim, mais descontrolada, que hoje uso para fazer música. Quando o Tigerman surgiu, há 15 anos, essa parte estava mais presente no meu dia-a-dia e agora está mais confinada ao palco.

O palco funciona para si como uma terapia para exteriorizar esse lado mais descontrolado?

Prefiro chamar-lhe um espaço de liberdade. A música e a arte no geral têm de continuar a ser espaços de liberdade, onde não há qualquer tipo de censura ou de autocensura. Ao contrário do que acontece no quotidiano, a arte não tem de ser correta ou decente, tem de chocar e fazer pensar. E foi para aí que fui direcionando essa minha parte mais selvagem, que assim acaba por ficar mais controlada e também me evita ir parar à cadeia [risos].

Foi essa vontade de chocar através da arte que o atraiu para o rock, quando começou a tocar?

No início não havia propriamente uma opção, pelo menos pensada. Não se tratou de uma escolha, era mais algo que me movia. Era o que queria fazer desde que me conheço, e quando se segue o instinto não se pensa muito nos porquês ou se é o mais certo. Anos depois, sim, comecei a racionalizar um pouco mais as minhas escolhas, mas ainda assim tentando sempre seguir o meu instinto e nunca pondo o intelecto acima desse lado mais animal.

Que é algo que tem muito que ver com o rock, esse lado mais animal

Com o rock e não só. O Tigerman, por exemplo, também tem muitas coisas de hip-hop, assim meio dissimuladas, mas também de blues ou do folk, que são estilos musicais igualmente muito instintivos. Por outro lado, à medida que vamos ficando mais velhos, é normal que comecemos a intelectualizar a nossa arte. Daí também o facto de os meus primeiros trabalhos serem muito mais diretos.

É esse raciocínio que explica o próprio percurso do Tigerman, que começa como uma one-man band mais visceral e com o tempo evoluiu para um formato de banda mais tradicional, agora finalmente assumido neste novo disco?

Por acaso fiz esse exercício de reflexão recentemente e cheguei à conclusão de que os pressupostos deste projeto não mudaram quase nada. Apercebi-me no outro dia de que o primeiro álbum do Tigerman, o Naked Blues, começou como uma curta-metragem, com argumento feito com o André Cepeda e o Pedro Medeiros, que deu aquela espécie de videoclipe, também filmado em Super 8, a partir do qual escrevi a canção. Tal como aconteceu agora com o Misfit, em que escrevi um filme do qual nasceu o disco, criado a partir da perspetiva da personagem principal. Ou seja, este é um projeto que desde sempre me permitiu trabalhar cinema, fotografia e música em conjunto. E penso que no Misfit isso é levado ao ponto mais extremo.

Disse há uns tempos, numa entrevista, que no futuro se via a trabalhar mais em cinema do que propriamente em música. Este projeto é mais um passo nesse sentido?

Agora vou falar como Paulo Furtado [risos], porque por vezes estas máscaras sobrepõem-se todas e torna-se um pouco confuso. Sim, o cinema tem um papel cada vez mais importante na minha vida. Quer nas bandas sonoras, faço várias por ano, quer através da realização. Estou neste momento a rodar a minha primeira curta-metragem, que nada tem que ver com o universo da música. Chama-se Amor Quântico e é uma parábola sobre amor e esperança, que conta a história de uma mulher em três momentos temporais distintos.

Esse novo interesse pelo cinema nunca pôs em causa o amor pela música?

Claro que não. Não só pela música como pelo palco e especialmente pela estrada. Chegamos a estar meses fora de casa e esses momentos de companheirismo com os músicos e a equipa técnica são uma parte muito importante da minha vida. Por outro lado, também há alturas em que me questiono se quero continuar a fazer digressões tão longas ou se prefiro fazer mais bandas sonoras em vez de discos. É uma decisão que terei de tomar nos próximos anos, porque com este disco vai acontecer o mesmo de sempre, que é tocar o máximo possível.

Falemos deste novo disco, que marca uma mudança no conceito do projeto The Legendary Tigerman, agora assumidamente uma banda

Antes do Misfit tinha feito muita música para cinema e teatro e o disco anterior, o True, foi feito de uma forma muito isolada, numa cave, onde passei meses a fio a ensaiar sozinho, levando o conceito de one-man band a um limite quase cruel. Foi assim uma espécie de purga em relação a esse formato. Entretanto as coisas foram mudando de uma forma natural, muito orgânica, primeiro ao vivo, com a chegada do Paulo Segadães para a bateria e depois do João Cabrita para o saxofone, a quem entretanto se juntou também o Pisco, no baixo. E quando chegou a altura de fazer um novo disco fazia todo o sentido que eles também participassem, porque sabia que não queria voltar de novo ao processo anterior. Não somos uma banda no sentido mais livre da palavra, porque há uma direção artística muito forte, que é minha, mas todos eles trouxeram muitas direções novas. Além disso, também me trouxeram a vontade de os fazer sentir confortáveis na banda.

E o que é que surgiu primeiro, o filme ou disco?

Já há algum tempo que me apetecia trabalhar com a Rita Lino e o Pedro Maia e surgiu-me essa ideia de fazer um filme, sem saber se seria uma curta ou uma longa-metragem. O objetivo era sairmos daqui e sermos inspirados pela América profunda, a mesma onde havia tocado há 20 anos e me fez perceber o meu caminho, que era isto que eu queria fazer na música. Foi aliás nessa digressão que, de certa forma, nasceu o Tigerman, e portanto pareceu-me a altura certa para lá regressar. Ou seja, queria escrever um disco em viagem, fazer um road movie, e tudo isso se encaixou na perfeição neste projeto. O mais surreal é eu ter pensado que podia ir duas semanas para a América rodar um filme e escrever um disco e isso realmente ter acontecido [risos]. Do ponto de vista criativo foi tudo feito nesses 14 dias. Durante o dia filmávamos e à noite escrevia as canções.

É por isso que o disco é assim tão direto, tão rock and roll, devido a esse regresso às origens do próprio Tigerman?

Isso aconteceu porque não tive muito tempo para pensar, tinha de fazer e pronto. E se calhar isso levou-me a fazer coisas mais próximas daquelas que fazia quando era mais novo. Por vezes, para não intelectualizar muito, tenho de me forçar a trabalhar de uma forma mais imediata. Ou mais instintiva, lá está o que falávamos há pouco.

E quem é hoje o Paulo Furtado?

Um gajo que nasceu em Moçambique, cresceu em Coimbra e teve uma banda com a qual foi tocar à América há 20 anos. A quem saiu o lado certo da moeda desta vida, porque continua a fazer música e tem a sorte de ter pessoas que o querem ouvir um pouco por todo o lado.

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