"There is no place, but here I am", canta Bowie na derradeira canção

Chega hoje às lojas Lazarus Cast Album, gravação do espetáculo de Bowie e nele são reveladas as três últimas gravações de estúdio do músico, que trazem novos ambientes sonoros

Antes ainda de Lazarus, o musical concebido por David Bowie e Enda Wash que revisita a personagem que o próprio músico interpretou em 1976 no filme The Man Who Fell to Earth, de Nicholas Roeg, se ter estreado em Nova Iorque, já estava marcada a data para a gravação do disco que traduziria em formato físico esse trabalho de palco. A data era 11 de janeiro de 2016. Quando os músicos e o elenco chegaram nessa manhã ao estúdio de gravação, o choque era inevitável: David Bowie tinha morrido horas antes, na noite de dia 10. Mas, mesmo assim, as gravações prosseguiram e o resultado é editado hoje no CD Lazarus Cast Album.

O disco não revela apenas a gravação desse musical pelo elenco que entre dezembro de 2015 e janeiro deste ano interpretou esta história em cima do palco. A maior novidade passa pelo segundo disco presente neste álbum, um CD com apenas quatro canções em que encontramos não só o tema Lazarus (também single do último álbum de Bowie, Blackstar, e que hoje é vista como uma premonição do que viria acontecer) mas também outras três canções inéditas que constituem as últimas gravações de estúdio do músico: No Plan, Killing a Little Time e When I Met You.

À luz dos acontecimentos, e tal como aconteceu com o álbum Blackstar depois de conhecida a notícia da morte de David Bowie, também estas novas canções ganham leituras que estão diretamente relacionadas com o desaparecimento do músico. Como se o próprio, nos últimos momentos de criatividade e inventividade artística, também estivesse a refletir sobre a sua condição. No Plan, por exemplo, e tal como já acontecia em Lazarus, carrega em si mesma uma aura fatalista. "This is no place, but here I am", canta David Bowie no tema.

Estas novas canções que agora são reveladas ao mundo em Lazarus Cast Album, depois de terem sido interpretadas em palco pelo elenco de Lazarus, foram gravadas com o mesmo grupo de músicos de jazz com quem David Bowie gravou o seu último álbum de estúdio, músicos esses liderados pelo saxofonista norte-americano Donny McCaslin. E também elas são reveladoras de que nos seus últimos momentos, o músico empenhou--se, uma vez mais, a explorar novas texturas, novos ambientes sonoros. É o que acontece na agressiva Killing a Little Time, uma canção que prima pela sua ferocidade, o que ganha eco nos versos cantados: "I"ve got a handful of songs to sing, to sting your soul, to fuck you over."

Estas mesmas canções surgem no primeiro disco de Lazarus Cast Album, nas versões que durante dois meses foram levadas ao palco do New York Theatre Workshop e que a partir da próxima terça-feira, dia 25, ganhará nova vida no palco do Kings Cross Theatre, em Londres, onde o musical vai estrear, ficando em cena até 21 de janeiro do próximo ano.

Apesar de Lazarus ter estreado no ano passado, a ideia de revisitar a personagem de Thomas Newton, que David Bowie interpretou em 1976, em The Man Who Fell to Earth, filme que já era uma adaptação do romance com o mesmo título de Walter Tevis, remonta a 2013, ano em que o músico abordou pela primeira vez o produtor Robert Fox com esta mesma ideia.

Bowie considerou o trabalho de muitos jovens e talentosos escritores, mas acabou por seguir a sugestão de Robert Fox e decidiu trabalhar com Enda Walsh na escrita deste musical que se tornaria a sequela de The Man Who Fell to Earth. Além da canção que dá título ao espetáculo e dos três temas que são agora revelados, o musical acabou por assentar em vários momentos do percurso discográfico de David Bowie. Recuamos até 1970 e até à célebre The Man Who Sold the World. Passam-se por outros momentos e canções incontornáveis, como Changes e Life On Mars? (ambas do álbum Hunky Dory, de 1971), não esquecendo Sound and Vision (de Low, de 1977) ou Heroes (do álbum homónimo, de 1977), ou os anos 1980 de Absolute Beginners, chegando até ao álbum The Next Day (o disco que em 2013 pôs fim a dez anos de silêncio quanto a novidades musicais), do qual foram recuperados os temas Love is Lost, Where Are We Now?, Dirty Boys e Valentine"s Day.

No musical foi Michael C. Hall (ator norte-americano que ficou conhecido por ter protagonizado séries televisivas como Dexter e Sete Palmos de Terra) quem interpretou o papel de Thomas Newton, o ser alienígena que aterra subitamente na Terra e que há 40 anos foi interpretado por David Bowie. E agora que o espetáculo se prepara para atravessar o Atlântico e assentar arraias no londrino Kings Cross Theatre, o mesmo ator continuará a desempenhar este papel. O elenco de Nova Iorque, e que se ouve no disco Lazarus Cast Album, mantém-se praticamente intacto em Londres, tendo, no entanto, a atriz Cristin Milioti (que interpretava Elly, a assistente de Newton) sido agora substituída por Amy Lennox.

Mas as novidades em torno da vida e obra de David Bowie não se ficam por aqui. Além de ter sido publicado recentemente o livro Sobre Bowie, da autoria de Rob Sheffield, a 11 de novembro chegará às lojas uma nova coletânea, Legacy, que traz novidades (ver caixa) e amanhã é exibido no festival DocLisboa o filme Bowie, l"Homme Cent Visages ou le Fantôme d"Hérouville, de Gaëtan Chataigner (dia 22, às 14.00, no Cinema São Jorge, e dia 30, às 16.15, na Culturgest).

Lazarus Cast Album

Original New York Cast; David Bowie

Columbia

Records/Sony

Music Portugal

Preço: 10,50euro

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