Testemunhos da propaganda de António Ferro na Livraria Sá da Costa

Exposição mostra coleção reunida para o documentário "Estética, Propaganda e Política no Portugal de António Ferro"

Incontáveis panfletos, desde o chão até ao teto, prendem o olhar de quem chega ao primeiro andar da Livraria Sá da Costa. Com o Chiado lisboeta a espreitar pelas janelas, esses panfletos misturam diferentes mensagens propagandísticas e é fácil, num primeiro momento, fazer-se um paralelo com aqueles quadros que as equipas das séries CSI e afins enchem de informação sobre o caso que têm em mãos. E foi assim mesmo que nasceu, assegura ao DN Paulo Seabra, o mentor da exposição Estética, Propaganda e Política no Portugal de António Ferro.

"Quando começámos a pesquisa percebemos que havia muito material relacionado com diferentes temas: cultura, direitos dos trabalhadores, a guerra, e foi assim que fomos organizando as coisas", conta. Esta é uma mostra recheada de singulares documentos que testemunham este período da história nacional, e na qual todos estão à venda.

Trata-se de documentos tão diferentes como a revista Time, de 22 de julho de 1946, com a fotografia de Oliveira de Salazar na capa e com o título Portugal"s Salazar, Dean of Dictators (75 euros), um álbum de fotografias que documentam a visita presidencial de Américo Tomás à Madeira, em 1962 (3000 euros), um folheto com o guia do Portugal dos Pequenitos (300 euros) e até o diploma de funções públicas em que António Joaquim Tavares Ferro é nomeado diretor do Secretariado de Propaganda Nacional, a 12 de outubro de 1933. Foi num alfarrabista em Torres Vedras que Paulo Seabra encontrou este documento, assinado pelo próprio António Ferro. Sem revelar quanto pagou pelo diploma, avança que está à venda por 2500 euros.

A exposição é o prolongamento do documentário homónimo que Paulo Seabra realizou para a RTP. Exibido em 2013 - "e com mais de meio milhão de audiência", sublinha -, começou a ser preparado em 2009. "A dada altura, optámos por adquirir o que íamos encontrando", conta ao DN, relembrando que foi um trabalho exaustivo que o levou a percorrer o país todo.

Aliás, esta foi uma recolha que se estendeu além-fronteiras. Por exemplo, muitos dos documentos sobre a presença portuguesa na exposição de 1937 em Paris foram adquiridos no Canadá, "onde existe um grande núcleo de colecionadores de todo o tipo de materiais relacionados com a extrema-direita".

"O título Estética, Propaganda e Política no Portugal de António Ferro surge, exatamente, para dizer que não se estava a falar de António Ferro, mas antes de um conjunto de fatores, da sociedade e do tempo português em que o António Ferro foi âncora", explica Paulo Seabra. E contextualiza: "É após uma série de entrevistas a Salazar [publicadas no Diário de Notícias], depois reunidas no livro Salazar, o Homem e a Obra, que António Ferro convence Salazar da necessidade da existência de um departamento de propaganda ou imagem do Estado Novo".

Após a sua nomeação, "consegue ir buscar os autores modernistas portugueses que fazem um corte radical com a estética da I República, ligada ao século XIX, Romântica, algo que se materializa de forma marcante na presença de Portugal na exposição de Paris em 1937, com o pavilhão a ser executado por Keil do Amaral e o que é apresentado como representação da arte portuguesa em Paris são as artes populares".

A exposição termina neste domingo, e o que não for vendido regressa à casa de Paulo Seabra ou desce ao primeiro andar das estantes da Livraria Sá da Costa.

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