Um Hamlet através do olhar de sua mãe

A mais recente encenação de Simão do Vale, 'Gertrude', estreia amanhã no Teatro Nacional de São João, no Porto, às 21.30.

"Acabamos por ter um Hamlet que não é protagonista de coisa nenhuma. Finalmente!", já tinha brincado Simão do Vale quando falou de "Gertrude", a sua recente peça, na apresentação do segundo semestre do Teatro Nacional de São João, no Porto, no passado dia 27 de março.

Uma personagem secundária na dramatologia shakespeariana que assume, pela primeira vez, o papel principal. É Gertrude, a mãe de Hamlet, a rainha dinamarquesa viúva que volta a contrair matrimónio com o irmão do seu marido, o rei Cláudio. Porquê esta personagem? "Por pura curiosidade, porque apesar de ser fundamental na obra, está envolta num grande mistério", explicou aos jornalistas Simão do Vale, que além de assumir a encenação, divide o palco com a atriz italiana Fiammetta Bellone.

"Estava ligada à academia de teatro onde estudei, [em Génova, Itália], apesar de não ter sido minha professora. Propus-lhe, no âmbito da escola, preparar a cena inicial desta peça, e foi assim que tudo começou", explicou o encenador.

Um português e uma italiana em palco, numa interpretação em que as línguas destas duas nacionalidades se imiscuem e completam. "As palavras fluem bastante bem", garante Simão do Vale. "Já conhecia a Fiammenta e tinha curiosidade em confrontar estas duas línguas no palco", completa.

Sendo grande o elo que une o encenador ao teatro de Itália, este não esconde que por vezes o italiano acaba por ser mais útil do que o português. "O que acontece é que a escola italiana obriga os atores a exagerar", adianta Simão do Vale. "Há um certo histrionismo existente que acaba por ser apelativo para quem vem de fora", completa.

Esta peça acaba por existir à margem de Hamlet, o que permite ao encenador dizer que o conhecimento da história original não é um ponto obrigatório. Adjacente à tentativa de levar aos palcos de teatro "Gertrude", Simão do Vale revela o desafio de criar " uma coerência conceptual e narrativa independente da peça original".

"Um Hamlet através do ponto de vista da mãe", assim definiu Jacinto Lucas Pires a recente encenação de Simão do Vale. "Shakspeare abre tantas possibilidades", revelou o jovem ator e encenador, "e esta aqui, Gertrude, é muito especial, porque há milhentas possibilidades de leitura", rematou.

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