Rui Horta dentro de "Memórias de Adriano"

O espetáculo 'Multiplex - a Necessidade de se Estar onde se Está' pode ser visto hoje e amanhã no Pequeno Auditório do CCB, em Lisboa.

"Boa noite, o meu nome é Adriano e vou morrer aqui, mas só daqui a bocado." O chão ainda é branco e Adriano, o imperador romano de 117 a 138, ainda não empreendeu a sua caminhada. Um homem, um projeto, Roma a nascer ali mesmo no meio do pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, onde se apresenta o novo espetáculo de Rui Gil, Multiplex - a Necessidade de se Estar onde se Está, a partir de Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar, publicado em 1951. Um livro que mais do que sobre Adriano é "uma reflexão sobre a complexidade", como diz o coreógrafo.

Rui Horta explica que este é um daqueles livros que o acompanham há muitos anos. "Sempre achei que iria fazer qualquer coisa com este livro." Chegou o momento. É uma obra "sobre a construção da civilização, sobre como somos tão fantásticos e luminosos e profundamente humanos e, ao mesmo tempo, como também somos capazes de destruir tudo. Temos esta duplicidade, esta capacidade de construir e destruir, por fora e por dentro de nós."

Aproveitando o facto de o livro estar narrado na primeira pessoa, Rui Horta escolheu uma série de excertos de Memórias de Adriano e, em vez de se preocupar em contar uma narrativa, opta por explanar os pensamentos de Adriano, aqui interpretado pelo ator Pedro Gil. "Não queria contar uma história, mas antes trabalhar uma certa introspeção criando um espetáculo imersivo, que nos permitisse estar dentro das palavras", diz Rui Horta. Dentro das palavras metafórica mas também literalmente, uma vez que em alguns momentos o texto é projetado no palco e sobre os corpos dos intérpretes. "Este é o verdadeiro livro de cabeceira, podemos abri-lo em qualquer momento e ficamos saciados com dez páginas. Tudo o que ele diz aqui são pérolas, é muito mais filosófico do que narrativo."

Temas como a paz, a construção, o amor (para o momento "mais dançado" de todo o espetáculo, onde os corpos ganham protagonismo), a obsessão pela morte, as sombras, a destruição, o legado, são apresentados por Pedro Gil e pela bailarina Silvia Bertoncelli, que, num eco permanente em italiano, "nos transporta para Roma como um cenário acústico". Ela é Antínoo, o favorito do imperador, mas é também Marco Aurélio (para quem são escritas estas memórias), é o tempo, é o império, é o outro.

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