Jorge Silva Melo encena 'A Estalajadeira', de Goldoni

O encenador queria ter feito a peça logo no início do Teatro da Cornucópia, mas só agora, com os Artistas Unidos, concretiza o sonho. 'A Estalajadeira' tem estreia na sexta-feira no Teatro São João, no Porto, onde fica até 3 de março.

Um caderno pequeno, de capa preta, comprado em Londres em 1972, foi onde Jorge Silva Melo anotou os seus planos para a Cornucópia, que dava então os seus primeiros passos. Listas de peças, atores a convidar, livros que era preciso comprar. Haveria de se fazer O Misantropo, de Molière, com encenação de Luís Miguel Cintra, e a seguir A Estalajadeira, de Goldoni, com encenação de Jorge Silva Melo. Esses eram os planos. E Glicínia Quartim era a atriz destinada a ser Mirandolina. Afinal não fizeram. Depois de O Misantropo, Glicínia quis ir fazer outras coisas e A Estalajadeira ficou esquecida.

"Mas eu sempre gostei muito da peça, aliás, gosto muito do Goldoni", conta Jorge Silva Melo. O caderno aqui está, nas suas mãos Passaram-se 40 anos mas a peça está finalmente em cena. Como quase sempre lhe acontece, a vontade de fazer A Estalajadeira ressurgiu quando encontrou a atriz ideal, Catarina Wallenstein, "rotunda e bela, ideal para a mulher fatal do século XVIII". Escrita pelo dramaturgo italiano Carlo Goldoni em 1753, num tom falsamente ligeiro, esta peça centra-se na personagem de Mirandolina e nos seus vários pretendentes, o Marquês de Forlipópoli (interpretado por Américo Silva), o Conde de Albafiorita (António Simão) e o Cavaleiro de Ripafratta (Elmano Sancho), que ela domina com as suas artes femininas. Uma simples mulher, estalajadeira, e os seus fregueses, todos de classes mais elevadas mas que ali estão aos seus pés. A peça, que, como recorda Silva Melo, também foi encenada por Luchino Visconti, em 1952, com Rina Morelli e Marcello Mastroianni, é "de um requinte, com um permanente volte-face, a consciência constante das personagens em cena, que fazem dela uma obra prima absoluta."

"As peças do Goldoni têm muitas personagens, portanto, é um autor um bocadinho difícil de fazer nos tempos de penúria que vivemos." Para pôr em cena A Estalajadeira, que será a sua maior produção este ano, os Artistas Unidos foram à procura de parceiros - estiveram a ensaiar no Cartaxo e abriram as portas ao público por uma noite, vão estrear no Teatro Nacional de São João, no Porto, e a seguir andarão em digressão, que termina em abril no Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

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