Cornucópia: o "estrangulamento" aos 40 anos

O Teatro da Cornucópia, em Lisboa, tem as portas abertas a partir das 16.00 de hoje e ao longo de todo o dia para receber os amigos e fazer a festa dos seus 40 anos. Foi a 13 de outubro de 1973 que estreou 'O Misantropo', de Molière. Mas, apesar do reconhecimento público, o grupo vive dias difíceis.

Em momento de balanço da companhia que fundou com Jorge Silva Melo e que ainda dirige, agora com Cristina Reis, o ator e encenador Luís Miguel Cintra não esconde uma certa amargura: "Ao fim de 40 anos há muita coisa muito interresante e muito rica que se passou, fizemos muito trabalho, mas a verdade é que não chegámos àquilo que deveria ser uma situação confortável, que corresponda à relação que a gente tem com o público, de extremo respeito e admiração, uma relação afectiva até. Estamos numa situação de estrangulamento por causa do malvado dinheiro, faz um bocado de impressão."

Os problemas financeiros, de que o diretor se tem vindo a queixar há já algum tempo, podem de facto ditar o fim da atividade da Cornucópia mais cedo do que os responsáveis políticos esperam: "Admito que haja outras estruturas que possam trabalhar com muito menos dinheiro e com maneiras de trabalhar que se traduzam em menos gastos, nós não conseguimos. Para já há uma coisa importante para nós que sempre foi a casa, a sala, e que outras estruturas não têm, infelizmente para elas, com certeza, porque é um instrumento de trabalho extremamente importante, mas que significa muitos gastos. E sobretudo houve outra coisa: a criação de uma expectativa ou de um desejo, que foi de certa maneira estimulado pelo Estado, de desenvolvimento da companhia, de se tornar cada vez mais uma companhia estável, fixa, de utilidade pública. E depois houve um tirar do tapete muito violento, de repente."

Esse momento de expectativa coincide com a passagem de Manuel Maria Carrilho pelo Ministério da Cultura, explica: "Nessa altura houve um grande estímulo a todas as actividades artísticas, no sentido em que a arte portuguesa tinha de ser valorizada. No caso da Cornucópia, defendeu que a companhia devia ter condições como deve ser para fazer um trabalho que era útil ao público. Atualmente é o contrário, da parte do Governo não há ninguém que reconheça a utilidade de nenhuma atividade artística a não ser para vender o país, é a arte é como se fosse uma espécie de call girl para depois fazer dinheiro, que é o que interessa. Ora o dinheiro é justamente aquilo que não levarás contigo, por isso é o valor mais estúpido a que a gente se pode agarrar, mas sem ele não se pode trabalhar na sociedade em que vivemos, portanto, o que acontece é de facto uma situção de um grande estrangulamento."

Este ano "foi possível trabalhar graças a poupança anterior, a acrescentar ao subsídio que nos foi atribuído, e a um acontecimento extraordinário que foi a atribuição de um subsídio pontual da câmara municipal de Lisboa - foi a primeira vez que recebemos algum apoio financeiro da autarquia, tanto que não existia sequer registo do número de contribuinte da Cornucópia na câmara. Foi, segundo a vereadora da Cultura, uma prenda à Cornucópia pelos seus 40 anos, mas a prenda é efémera porque não fazemos 40 anos todos os anos."

Portanto, as perspectivas para o futuro são negras. Ainda que haja propostas de trabalho, apalavradas com outras estruturas, como os teatros nacionais ou teatro São Luiz, Cintra está à espera para ver como se irão concretizar: "O que acontece é que todas as estruturas, mesmo as mais estáveis, estão com dificuldades."

Coloca-se efectivamente a hipótese de a Cornucópia fechar as portas? Luís Miguel Cintra responde sem ilusões: "Apesar de tudo já cheguei a uma idade em que não tenho a mesma urgência de trabalhar do que noutras alturas. O corpo pesa mais, tenho mais dificuldades físicas, a memória funciona menos bem, etc., portanto não tenho aquela necessidade de ir a correr fazer espetáculos como tinha antigamente. Tenho muito a necessidade de fazer teatro para viver porque foi assim que fiz toda a vida, e não fazendo é como se me tirassem a comida. Mas não é isso que está em causa. O que interessa é que o teatro que a gente faz é um teatro de utilidade pública, no meu entender. Se de facto quem representa os cidadãos acha que não vale a pena, que não precisa de nós, a gente deixa de fazer. Não vou andar agora a suplicar que me deixem trabalhar. Já provámos suficientemente o que é que somos capazes de fazer, já demos todos os dados às entidades públicas e ao próprio público para julgar se de facto querem de nós alguma coisa ou não."

"Não baixar a fasquia" é uma máxima sua que se aplica na perfeição ao trabalho da Cornucópia: "Às vezes as pessoas surpreendem-se porque encontram aqui uma qualidade e uma seriedade a trabalhar que não encontram noutros sítios. É uma questão de respeito por nós e pelos outros. Acho que estamos a viver numa sociedade que desrespeita profundamente o que é o ser humano. E eu tenho uma noção muito clara, agora que chego a esta idade, de que a vida é muito curta, e por isso não podemos desperdiçar muita coisa, são milhares de vidas humanas que estão a ser subaproveitadas e a gente tem que ter consciência disso e ser violento mesmo na defesa do direito que cada um tem de ser feliz. Isto é válido para a nossa vida privada e também na nossa visão da vida política, temos de sair da visão egoísta de conseguir mais privilégios pessoais ou mais conforto e passar a defender é que as pessoas sejam mais felizes. A felicidade vem do respeito por nós próprios e pelos outros." Dentro ou fora do palco.

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