Streaming e o cinema: o que dizem os portugueses

A maioria dos distribuidores, divulgadores, produtores, cineastas e atores compreende a decisão de Cannes

Será ainda uma questão fraturante a Netflix? Em Portugal, os agentes do cinema parecem ter aprendido a lidar com este gigante do serviço de streaming. É mais ou menos consensual que é tempo de saber lidar com as novas formas de cinema, não sendo por acaso que há quem tenha investido num serviço alternativo como a Il Sorpasso, com a aposta entre nós da Filmin, que em Espanha é um sucesso. Curiosamente, numa ronda por alguns nomes do mercado do cinema português houve quem recusasse falar da polémica com o Festival de Cannes. A questão pode ainda ser delicada.

"Alegremente todos nós, a começar pelos jornalistas, vamos dando publicidade grátis a uma empresa que não investe no talento e indústria locais. A exemplo de marcas como a Apple ou a Uber, em que os seus lançamentos de produto são tratados como notícia e não como publicidade, por cá a "Netflix beneficia do mesmo entusiasmo jornalístico, escapando-lhes, por exemplo, que uma das melhores séries do ano passado - A Fabulosa Mrs. Maisel - da Amazon", começa por nos dizer Pedro Boucherie Mendes, diretor dos canais temáticos da SIC, profissional de televisão que vê Cannes como um negócio: "Foram pressionados pelos agentes de cinema old school", aludindo à proibição do festival de filmes na competição sem estreia em sala.

Nuno Gonçalves, diretor da distribuidora Cinemundo, lança uma reflexão quanto a essa medida: "Parece-nos que abriram um precedente que poderá vir a abranger outras entidades." O mesmo distribuidor está convencido de que um serviço como a Netflix não vai matar nunca a vida dos filmes nas salas de cinema.

Um dos maiores especialistas de cultura pop, Álvaro Costa, entende que a decisão de Cannes foi sobretudo formal: "A Netflix já se tornou um estúdio." E deixa um aviso: "A Apple vai ocupar os estúdios de Culver City ! E tudo o vento digital vai levar... mas a experiência de ir à sala nunca vai morrer." Mais cauteloso é o cineasta João Canijo, que bem ao seu estilo admite não ter uma opinião: "Não acho nada, porque não sei as razões. Se tiver sido no mesmo sentido da lei francesa em relação aos telefilmes, compreende-se." Confessa também não ter pensado muito sobre a ameaça da Netflix em relação à morte da exibição dos filmes nas salas, mas vai dizendo que "talvez...".

Por sua vez, o ator do momento, Jaime Freitas, visto em Amor Amor e em Aparição, é mais taxativo: " A decisão do Frémaux parece-me ser um contra-ataque impotente ao crescente poder do streaming, que vai sombreando o mágico ritual da ida ao cinema. A diplomacia parece não estar a resultar."

Miguel Dias, diretor de um dos grandes festivais nacionais, o Curtas de Vila do Conde, apoia a decisão de Cannes, mas para o seu festival defende um outro ideal: "Consideramos a curta como um território propício a todas as contaminações, incluindo filmes feitos para streaming, para as galerias de arte, para jogos de vídeo... Nunca iríamos banir um filme da Netflix."

Quanto ao produtor e realizador Nuno Bernardo, a acabar a pós-produção de Gabriel, a Netflix não será bem uma ameaça ao futuro do cinema nas salas: "A Netflix é cada vez mais uma plataforma para exibição de produtos próprios e cada vez menos irá adquirir catálogo de séries e filmes existentes." O homem forte da BeActive não deixa também de apoiar a decisão de Cannes, divulgada quase na mesma altura em que Steven Spielberg também veio a público dizer que os projetos da Netflix não deveriam contar para os Óscares...

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