"Sou um operário da música, não sou uma vedeta"

Américo Monteiro é o nome do autor de "Pimba Pimba", famoso desde 1995. A história começa no Douro em 1957 e prolonga-se nos filhos que estudam num colégio inglês a caminho de universidades estrangeiras.

A conversa decorre no estúdio que Emanuel criou e que hoje perdeu quase toda a utilidade. Mas é ali o escritório dirigido pelo filho Samuel, de 36 anos, arquiteto de formação, manager e membro da banda Maxi.

No livro que é hoje lançado na Fnac Colombo ao fim da tarde, conta como veio sozinho da aldeia do Douro aos dez anos para ser aprendiz de padeiro em Lisboa e como se tornou homem e artista, dando uma volta radical ao destino. Conta tudo - num àparte, confidencia que deixou de fora as pessoas que lhe fizeram mal mas não diz nomes.

A viagem de comboio, a primeira fatia de fiambre, as idas às meninas do Intendente, os casamentos, o divórcio, os quatro filhos, a vida de barman, o futebol, a música e a descoberta astuta e meticulosa do lugar de artista, depois de produzir um disco de Marco Paulo.

Havia ali um espaço à espera dele e fez tudo para ocupá-lo. Quem não se lembra do refrão "E nós pimba" que vendeu 500 mil cópias em 1995? Reivindica esse espaço, quase cientificamente preparado, na música popular. É Emanuel por ele próprio, através da escrita de Elizabete Agostinho.

Por que decidiu, aos 59 anos, contar a sua vida?

Foi um acaso mas decidi rapidamente. Todos achamos que a nossa vida daria um romance, mas eu queria que não fosse o livro do artista Emanuel, que fosse o livro de um homem que nasceu na década de 1950, no pós-Guerra.

Porquê?

O meu pai viveu a Guerra entre os oito e os 13 anos, no meio da fome e das restrições. A minha mãe é cinco anos mais nova, era uma criança. As pessoas não tinham nada. Quando eu nasci, ele era um homem de 25 anos com uma esposa bonita, na aldeia. O pai dele abandonara a mulher e os sete filhos. O pai da minha mãe morreu aos 32 anos com uma doença de pulmões por causa das minas. Temos dois jovens que formam a sua família. Qual é o objetivo deles? Que o filho não passe a fome que eles passaram. Se trabalhavam dez, 15 ou 20 horas não era relevante. Quando ia para a escola, tinha-me levantado às sete para regar a horta e quando saía da escola ai nda ia apanhar lenha.

Nunca pôs isso em causa?

Aquilo era normal, sempre fui feliz. Muita gente achará que é revoltante, qual revoltante? Não tem problema nenhum. A natureza dá-nos a capacidade de adaptação às circunstâncias. Eu ia sozinho para o meio da montanha, sem medo. Precisava do espaço. Sempre fui uma criança pensativa e com mundos na cabeça que não sabia explicar. Queria ver o mundo, imaginava como era a China, sonhava ir de triciclo de Covas do Douro a Pinhão que ficava a sete quilómetros... fazia as curvas todas. Vir para Lisboa foi uma decisão minha. E vim felicíssimo.

No Porto teve de ir lavar a cara por causa do fumo do carvão.

Sabe porque é que eu cheguei com a cara preta?

Pôs a cabeça de fora?

Curti aquilo tudo. Tinha um fascínio pelo rio Douro... ainda tenho. Fico parado, bloqueado a olhar. E não é tão bonito como quando não tinha as barragens, uma quantidade de água a correr pelo meio das rochas, ouvia-se as águas a três ou quatro quilómetros. Vim sempre com a cabeça de fora, estava um dia lindo. Era uma aquelas máquinas pretas com carruagens de madeira, como nos filmes de cowboys. A minha mãe tinha-me dado uns tostõezinhos, comprei uma sandes de fiambre na estação do Porto. Provei fiambre!

Nunca tinha comido fiambre?

Os meus pais sempre deram aos filhos uma mesa farta. Trabalhavam que nem uns desalmados mas nunca passámos fome. Mas nunca tinha provado fiambre. Apanhei a automotora no Porto e os meus tios estavam à minha espera em Lisboa. Na casa deles, na Madorna, saía por volta das onze da noite, chegava à padaria a um quarto para a meia-noite. Trabalhava-se sete horas, seis dias por semana, folgava-se ao domingo. Tenho dois filhos gémeos com dez anos, olho para eles e penso como é possível? Com 15 anos, houve alturas em que se dormisse seis horas era muito. Tinha ocupação total: futebol, inglês, geografia, trabalho. Foi disto que o homem que está aqui foi feito. Trabalhei depois num restaurante de luxo, o Paris-Orly.

Diz no livro que foi adolescente quando era criança, e foi adulto quando era adolescente.

Estive para apagar uma cena sobre a primeira vez que fui às prostitutas, tinha 13 ou 14 anos. Eu tinha corpo e mentalidade de pelo menos 16 e só me dava com os adultos. O estado psicológico da rapaziada numa padaria era diferente de hoje. Ir às meninas, uau! Não existiam telemóveis, ninguém tinha televisão. Tudo na vida aconteceu cedo, até o corpo.

Conta que quando foi barman no Paris-Orly frequentava a biblioteca, lia muito. O que o levou a isso?

Queria adquirir conhecimento, saber por que é que existia, por que é que o homem foi à Lua. Quis saber a história dos gregos, dos romanos, quem foi o primeiro papa, quem foi Jesus Cristo, por que existiam muçulmanos, estudei a Bíblia. Sempre que tinha espaço, eu lia. Até porque a profissão que eu tinha o exigia.

O barman é mesmo o confidente do cliente?

É mesmo. Isso mudou a minha vida. Havia um professor que todas as tardes saía da universidade e ia para o bar. Tornou-se meu amigo, era uma joia. Era proibido o barman sentar-se com o cliente, mas ele mandava-me sentar e ficávamos a conversar.Era um regalo.

E também se inscreveu na Escola de Música Duarte Costa...

... a 500 metros do Paris-Orly, ainda existe.

Ia-se para lá para aprender a tocar rock. Por que optou pela clássica?

Não optei, a minha professora só ensinava guitarra clássica. Eu queria aprender uns acordes para cantar para as miúdas, para aprender a tocar Beatles. Mas ela "obrigou-me" a estudar como deve ser. A Escola Duarte Costa foi a base, frequentei-a durante alguns anos. Quando adquirimos bases de música consistentes,é só progredir.

A música nunca tinha entrado na sua vida?

No Alto Douro, existia o hábito inteligente de contratar tocadores de concertina para tocar à frente das rogas - uma série de homens, 20 ou 30, que acartavam as uvas dos socalcos lá de cima, a 1500 ou 2000 metros de distância, até cá abaixo. Na serra, toca-se de um lado, faz eco do outro, ouve-se a quilómetros de distância e cria um encantamento indescritível. Na música que faço, é quase viciante colocar o acordeão. Era um instrumento de segunda mas eu desde os primeiros sucessos coloquei o acordeão em tudo.

Tocou sempre guitarra ou toca outros instrumentos?

Toco piano, mas o meu instrumento é a guitarra clássica. Tocar não é só chegar e decorar, a parte psicomotora é muito importante - é a capacidade de o cérebro controlar o corpo, os dez dedos, os pés, a coordenação rítmica. Parece fácil mas em 90 por cento dos seres humanos sai tudo descoordenado. Tive a sorte de nascer com esta coordenação natural. Sou um bocado tenso mas, quando chega a música, tudo muda.

Já para dançar não é tão ágil.

Nos bailes, o que a gente queria era encostar-se às meninas e as meninas queriam encostar-se aos rapazes, nunca me preocupei mais do que isso. Optei pelo desporto e por estudar geografia e história, e o entretenimento ficou para trás.

Deixou o futebol. Porquê?

Por causa da música. O futebol não tinha o fascínio de hoje e não acreditava em mim, jogava por prazer. Levaram-me ao Sporting, fiz testes e acharam que era bom, mas eu tinha 18 anos, tinha de ir para o Atlético. O ordenado era o dobro do que ganhava no Paris-Orly - e eu ganhava muito bem. Mas aquilo tinha umas regras esquisitas. Concentrei-me na música.

Mas na música estava a começar, no futebol estava lançado.

Não há explicação. Convidaram-me para professor de música e aceitei, deixei o bar e fui ganhar metade. Já era casado, tinha comprado um Ford Escort novo... não faz uma pequena ideia, foi o carro que me deu maior prazer comprar. Sempre que decidi mudar de vida, se fosse esotérico acreditava que as decisões não foram minhas. Mas são minhas, é a minha consciência, a minha experiência. Acredito na existência de Deus, acredito que somos influenciados se deixarmos e se quisermos. É o livre arbítrio de que falam os livros sagrados. Tomo decisões que têm consequências maravilhosas e não sei porquê.

E essa foi uma delas?

Sim - "passas a ganhar metade mas vais para ali porque a tua vida é aquela". E foi.Dei aulas numa escola em Odivelas, acabei por ser diretor. Em Famões tinha uma orquestra e um grupo e eu passava para a pauta as músicas da moda, Rolling Stones, por exemplo. Ensinava-os a ler música e a tocar. E tinha um grupo de baile ao pé de Caneças.

Nunca pensou que era cantor?

Não. O projeto Emanuel apareceu quando me convidaram para orquestrar o disco Joana do Marco Paulo, a vedeta absoluta dos anos 80. Eu era um músico, um professor, com 30 e poucos anos, orquestrava, tocava. Ao aportuguesar musicalmente as canções - ele cantava versões de músicas estrangeiras - o Marco voltou às grandes vendas. Obviamente por causa da grande voz e da qualidade artística indiscutível dele, mas o segredo do sucesso foi a forma como orquestrei. E pensei: há espaço para um artista ainda mais popular que o Marco. Fui às origens, vi como funcionam os intervalos da nossa música tradicional. Andei anos a trabalhar mas ia sempre pesquisando, gravei, filmei ranchos folclóricos, analisei o que se tocava, as marchas populares de Lisboa, as marchas brasileiras que se cantavam nos bailes, o fado.

Nunca compôs outro tipo de música a não ser a popular?

Em 2010 compus o Ritmo do Amor, 15 milhões de visualizações só no videoclip. É uma fusão de kuduro, reggaetón e o meu próprio estilo. Estou preparado para fazer a música que quiser. A música é uma arte que comunica emoções e impressões através dos sons, não se classifica por ser popular, pimba, maria, manel ou jazz.

A maior parte dos que cantam o seu tipo de música não tem preparação. Concorda?

Garanto-lhe que o Pimba Pimba é uma obra-prima de música popular. Aquilo não é jazz, não é blues, não é rock, é música popular. E alguém que entenda verdadeiramente de música, e de música popular, quando analisar nota a nota vai perceber que é irrepreensível. Aquilo está muito bem feito. Soa bem do princípio ao fim. Foram meses de trabalho com várias experiências para ficar assim. Não foi feita por acaso, não teve sucesso por dizer pimba, por ter conotações sexuais. Eu não sabia que a palavra tinha conotações sexuais, na minha aldeia usava-se para confirmar o contexto. Usei esse termo porque tinha graça. Mas para chegar aí há todo um trabalho musical, o contratempo, a divisão de compassos por causa do bailarico, o som dos metais no sítio certo, as pessoas que estão a dançar sabem que naquele momento têm de dar a voltinha. Vender 500 mil cópias não foi por acaso.

Com o conhecimento que tem, poderia fazer jazz, por exemplo?

Não seria um músico de jazz a não ser que me dessem quatro ou cinco anos para estudar. Percebe o respeito que eu tenho? É o respeito que exijo por mim. A minha origem é esta. O meu destino, se isso existe, era este.

Daí a resposta que deu a Victorino de Almeida e José Jorge Letria quando rejeitou uma série de composições que fizeram para si?

Sentei-me ao piano e tivemos uma conversa muito interessante em que disse ao maestro por que não podia ser. Ele fez uma balada linda, musicalmente extraordinária e as letras estavam fabulosas. Foi um dos momentos mais bonitos da minha vida. Eu não podia cantar aquelas canções porque o meu público não ia entender. Existo para dar alegria às pessoas.

Está aprisionado nessa exigência do público?

Não estou aprisionado em nada, faço o que gosto, sou um privilegiado. Para mim não faz diferença que as 10 mil pessoas que estão a assistir sejam de Bragança ou de Paris ou doutores ou agricultores. Estou a compor para pessoas. Gosto de saber que contribuo para que tenham alegria quando vão dançar ou estão a conduzir, ou quando estão tristes e põem o Emanuel a tocar e a vida deles muda. Isso é que são os meus discos de platina e de ouro - e eu tenho muitos.

Tem quatro caixotes cheios, guardados em casa.

Esses têm pouco significado. O que conta é a riqueza interior. Vivo da minha profissão e da minha arte. Sou um operário da música, não sou vedeta, sou o homem mais simples do mundo, vivo uma vida pacata.

Ainda lá está o menino do Douro?

Está e estará, quero ser sempre esse menino. Crescido, maduro, educado, que procura ter filhos educadose quer dar-lhes exemplos de vida, mas esse menino continua. Preciso desse menino para existir.

Tem o mesmo raciocínio dos seus pais: não quero que os meus filhos passem pelo mesmo?

A realidade é outra. Eles não têm a vida que eu tive. Eu adormeço os meus filhos quase todos os dias, quando estou em casa tem de ser o papá a contar a história. Os meus pais não tinham tempo para isso, estava fora de questão. Os meus filhos nem sonham que existe outra vida, e eu nunca lhes disse, não faço essas comparações. O mais velho é arquiteto, o segundo prepara-se num colégio inglês de Palmela para ir estudar Engenharia Biomédica em Praga, os gémeos estão no 5º ano no mesmo colégio.

Continua a ir a Covas do Douro?

Vou todos os anos, às vezes 15 ou 20 minutos, nem que seja só para beber água da fonte, visitar o meu professor da escola primária, Luís Pereira Pinto.

Fechou o estúdio?

Vou gravar singles para um videoclip, aqui no estúdio. A indústria discográfica morreu, a internet alterou as regras. Estive 12 anos na direção da SPA e sinto-me chocado mas não posso alterar a realidade. O mundo caminhou assim. Gravar um disco para quê? Pagar a músicos, estar aqui dois meses a gravar um álbum para vender cinco mil discos? Não paga as despesas. Prefiro oferecer, os meus fãs que tirem da net e se consolem. A maior tristeza é que os autores perderam o seu meio de subsistência. A SPA tem procurado meios de ir buscar direitos a outros lados, dar aos seus associados o melhor possível.

Esses têm pouco significado. O que conta é a riqueza interior. Vivo da minha profissão e da minha arte. Sou um operário da música, não sou vedeta, sou o homem mais simples do mundo, vivo uma vida pacata.

Ainda lá está o menino do Douro?

Está e estará, quero ser sempre esse menino. Crescido, maduro, educado, que procura ter filhos educadose quer dar-lhes exemplos de vida, mas esse menino continua. Preciso desse menino para existir.

Tem o mesmo raciocínio dos seus pais: não quero que os meus filhos passem pelo mesmo?

A realidade é outra. Eles não têm a vida que eu tive. Eu adormeço os meus filhos quase todos os dias, quando estou em casa tem de ser o papá a contar a história. Os meus pais não tinham tempo para isso, estava fora de questão. Os meus filhos nem sonham que existe outra vida, e eu nunca lhes disse, não faço essas comparações. O mais velho é arquiteto, o segundo prepara-se num colégio inglês de Palmela para ir estudar Engenharia Biomédica em Praga, os gémeos estão no 5º ano no mesmo colégio.

Continua a ir a Covas do Douro?

Vou todos os anos, às vezes 15 ou 20 minutos, nem que seja só para beber água da fonte, visitar o meu professor da escola primária, Luís Pereira Pinto.

Fechou o estúdio?

Vou gravar singles para um videoclip, aqui no estúdio. A indústria discográfica morreu, a internet alterou as regras. Estive 12 anos na direção da SPA e sinto-me chocado mas não posso alterar a realidade. O mundo caminhou assim. Gravar um disco para quê? Pagar a músicos, estar aqui dois meses a gravar um álbum para vender cinco mil discos? Não paga as despesas. Prefiro oferecer, os meus fãs que tirem da net e se consolem. A maior tristeza é que os autores perderam o seu meio de subsistência. A SPA tem procurado meios de ir buscar direitos a outros lados, dar aos seus associados o melhor possível.

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