Snu e Francisco Sá Carneiro: uma história de amor e coragem agora em filme

Inês Castel-Branco e Pedro Almendra são os protagonista de "Snu", filme realizado por Patrícia Sequeira que estreia a 27 de setembro (artigo originalmente publicado a 7 de março de 2018)

Inês Castel-Branco nasceu quase dois anos depois de o avião de Francisco Sá Carneiro e Snu Abecassis se ter despenhado em Camarate a 4 de dezembro de 1980. "Não sabia absolutamente nada sobre ela", confessa a atriz. E, no entanto, vendo-a a subir a escadaria do Hotel Ritz de braço dado com um senhor de fato cinzento, os passos pequenos por causa da saia justa até meio da perna, os sapatos com um pequeno salto, o cabelo loiríssimo apanhado numa banana na nuca, uma elegância a toda a prova, Inês parece perfeita no papel de Snu, a protagonista do filme realizado por Patrícia Sequeira que tem estreia marcada para 27 de setembro nos cinemas.

Na apresentação de Snu à comunicação social, ontem, no hotel em Lisboa onde ainda decorre a rodagem, a expressão mais repetida foi "história de amor". A ideia para o filme partiu de José Francisco Gandarez, o produtor, da Sky Dreams, que há muito tinha vontade de contar a história de Snu e Sá Carneiro e, ao mesmo tempo, falar dos anos 70 e 80 e "do nascimento da nossa democracia". A segunda pessoa a entrar no projeto foi a realizadora Patrícia Sequeira, que é também coprodutora através da Santa Rita Filmes, e coargumentista com Cláudia Clemente. Também ela se mostrou "completamente apaixonada por esta história de amor e coragem". De tal forma que deixou todos os outros projetos que tinha em mãos para se dedicar a estas personagens: "É a história de alguém que tem urgência em ser feliz."

Snu e Sá Carneiro conheceram-se em 1976. Ela era uma editora conceituada, na Dom Quixote, casada com Vasco Abecassis, com quem tinha três filhos. Ele tinha sido o fundador do Partido Popular Democrático (PPD) e era deputado, casado com Isabel, também com três filhos. Ambos deixaram as suas famílias para ficarem juntos. O filme centra-se na figura dela mas com o objetivo de contar esta história de amor, proibido a princípio, depois tão criticado mas, por fim, aceite por todos - e a prova disso é que, apesar de os opositores de Sá Carneiro terem tentado usar esta relação na campanha política, ele acabou por vencer as eleições legislativas de 1979 com a AD e tornar-se primeiro-ministro. "Este filme fala de nós, de como vivíamos. E é também um hino ao amor", diz a realizadora Patrícia Sequeira.

Para se preparar para o papel, Inês Castel-Branco começou por ler tudo o que havia sobre a vida desta dinamarquesa que na verdade se chamava Ebba Marete Seidenfaden e que chegou a Portugal depois de em 1961 ter casado com Vasco Abecassis. Depois, a atriz viajou até Estocolmo. "Não dá para perceber a Snu sem perceber a cultura escandinava", explica. E por fim quis "perceber a época". "Tentei saber o que é que ela sentiu ao chegar a Portugal, porque é que era tão diferente das mulheres portugueses, aquela necessidade de fazer aquilo que ela achava ser o bem e, apesar das dificuldades, não desistir." A história de Snu começa em 1973, com a criação da editora, passa pelos problemas com a censura, o 25 de abril e culmina com o encontro com Francisco Sá Carneiro, que no filme será interpretado por Pedro Almendra.

Isto não é um documentário

"A realidade é uma coisa. Isto é um filme", começa por dizer Patrícia Sequeira, que assina a segunda longa-metragem de ficção depois de Jogo de damas (2016). "Um filme tem de ter alguma poesia, se não seria um documentário. A ficção permite-me tirar um bocado os pés do chão." Apesar de toda a pesquisa que foi feita, é bom não esquecer isto.

E é por isso que a investigadora Helena Matos, que fez a pesquisa e acompanhou todo o projeto, não tem dúvidas em dizer que este é um "projeto arriscadíssimo", pelo contexto político que recupera, pela particularidade da relação entre a editora e o político, pela polémica em torno do acidente em que ambos morreram, e porque é ainda uma memória recente da História de Portugal. "Ao contrário do que acontece em Espanha e em Inglaterra, cá as pessoas não estão habituadas a ver ficção com pessoas que ainda estão vivas. Dizem sempre que "ainda não é tempo" para falar das coisas, quanto mais fazer ficção", diz. Mas, na sua opinião, não é assim. "Temos de perder o preconceito e contar as histórias que estão dentro da história."

"Isto mexe com muita coisa. É provavelmente dos filmes portuguesas mais arriscados, porque se têm feito grandes histórias de amor e liberdade, mas estava tudo morto, estava tudo na paz dos cemitérios. E aqui ninguém está na paz dos cemitérios." Neste caso, para além das condições das mortes de Snu e Sá Carneiro, que ainda há pouco tempo estavam em investigação, estão vivos muitos familiares e outras pessoas que conviveram com eles, e os seus testemunhos foram preciosos mas "cada um tem a sua história, a sua memória. E seria impossível o filme agradar a todas as pessoas", diz a realizadora. "A par disso há um contexto político complicadíssimo", explica Helena Matos. Estas duas figuras suscitaram ódios e paixões, "houve pessoas que mudaram as suas vidas, politicamente, socialmente, por causa delas". A solução foi tentar reunir todas essas versões e depois criar uma ficção a partir delas. Até porque, sublinha a realizadora: "Não sabemos como eles eram na intimidade."

Apesar de baseado em factos reais e de ter entre as suas personagens figuras como Mário Soares, Freitas do Amaral, Natália Correia ou Manuela Eanes, o filme não procura ser uma aula de história. "A realidade está lá mais como uma atmosfera que se sente", explica Helena Matos. "Tudo é coerente, não é preciso explicar todos os acontecimentos."

Com um orçamento de pouco mais de um milhão de euros e o apoio do ICA, NOS, RTP e Câmara de Lisboa, a rodagem de Snu deverá prolongar-se por mais duas semanas, tendo já passado por locais como o Palácio da Ajuda, o Mosteiro dos Jerónimos ou até o LNEC - Laboratório Nacional de Engenharia Civil, onde foi recriado o escritório de Snu Abecassis na Dom Quixote. No elenco encontramos ainda Inês Rosado, Simon Frankel, Ana Nave, Patrícia Tavares, Pedro Saavedra entre outros.

(artigo originalmente publicado a 7 de março de 2018)

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