Sharon Stone, muito para além da imagem de Instinto Fatal

Soderbergh dirige Sharon Stone em Mosaic, série de seis episódios que chega esta noite ao TV Séries - nos EUA, a série pode ser vista também através de uma aplicação virtual

O nome de Steven Soderbergh volta a estar em evidência na atualidade televisiva. Ou será audiovisual? Ou ainda: virtual? As perguntas justificam-se porque a sua nova série, Mosaic, com chancela da HBO, se apresenta como um típico produto televisivo (a estrear-se à 01.00, de segunda para terça, no TV Séries), mas também como uma aplicação que permite ao utilizador construir a sua própria história (a partir do site watchmosaic.com).

Relativizemos, em qualquer caso: a estreia é mundial, mas a aplicação (que faculta a possibilidade de acompanhar a história a partir do ponto de vista de cada uma das personagens principais) só está disponível nos EUA. Nos outros mercados, Mosaic surge como uma típica minissérie. São seis episódios que, entre nós, serão exibidos diariamente, no horário referido, até à noite de sexta para sábado (neste caso, em episódio duplo); a maratona completa está agendada para domingo, dia 28, a partir das 16.15.

Há outra maneira de dizer tudo isto: Soderbergh, o jovem desconhecido que, em 1989, arrebatou a Palma de Ouro em Cannes com Sexo, Mentiras e Vídeo, continua a ser um verdadeiro experimentador. Para ele, há muito tempo que cinema e televisão são entidades separadas por fronteiras difusas, sempre suscetíveis de serem cruzadas e, de alguma maneira, reinventadas. Para nos ficarmos por exemplos próximos, lembremos que o seu Por detrás do Candelabro (2013), com Michael Douglas a interpretar a figura mítica de Liberace, era, de facto, um telefilme, enquanto The Knick (2014-2015), retrato de um hospital na Nova Iorque do começo do século XX, tinha também o formato de série.

Curiosamente, o primeiro episódio de Mosaic lança a intriga a partir de um clássico dispositivo cinematográfico: o flashback. Joel Hurley, um jovem artista interpretado por Garrett Hedlund, é tido como suspeito de um crime; depois da introdução em que tomamos conhecimento desse facto, a ação recua quatro anos, ao início da sua relação com Olivia Lake, autora de livros para crianças que, numa espécie de curadoria artística, acolhe Joel na sua propriedade, ao mesmo tempo que é alvo de um duvidoso negócio que pode envolver muitos milhões de dólares...

Que Olivia Lake seja interpretada por Sharon Stone, eis o que também não será secundário nas opções de Soderbergh. Desde logo, porque ela é uma excelente atriz, muito para além da imagem de marca que se lhe colou como uma segunda pele desde Instinto Fatal (1992) - lembremos a sua espantosa composição em Casino (1995), de Martin Scorsese. Mas sobretudo porque Soderbergh sabe "forçar" os seus intérpretes a superar qualquer modelo de personagem que possam ser tentados a repetir - o caso de Channing Tatum será um esclarecedor exemplo, ele que, sob a direção de Soderbergh, já surgiu em Magic Mike (2012), Efeitos Secundários (2013) e Sorte à Logan (2017).

Sábio controlo da iluminação

Como sempre acontece com Soderbergh, em particular quando explora ambientes de alguma inquietação, tal como acontece em Mosaic, o trabalho de câmara surpreende pelo rigor dos movimentos e também pelo sábio controlo da iluminação. A sua assinatura pertence a Peter Andrews, nome que encontramos nas fichas técnicas de muitos títulos do realizador - incluindo a trilogia Ocean"s Eleven (2001), Ocean"s Twelve (2004) e Ocean"s Thirteen (2007) - e que, afinal, ilustra uma bela forma de esquizofrenia artística. Porquê? Porque Peter Andrews é um pseudónimo de... Steven Soderbergh.

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