Ser atriz é mudar a vida de quem está na plateia

Fomos conhecer Isabel Muñoz Cardoso, a protagonista de O Novo Dancing Elétrico, que os Artistas Unidos estreiam amanhã. Uma atriz que contraria clichés

O encenador Jorge Silva Melo lembra-se de ela ter aparecido numa leitura de António, um Rapaz de Lisboa: "Achei que ela era realmente a Teresa, a mulher separada do António." Começou ali, em 1995, uma ligação que se mantém até hoje. Desde então, Isabel Muñoz Cardoso não trabalha com muito mais companhias para além dos Artistas Unidos. Ela foi a mulher de Vai Vir Alguém, de Jon Fosse; a Winnie de Dias Felizes, de Beckett; a tia solteirona de Doce Pássaro da Juventude, de Tennessee Williams. A partir de hoje, vai ser a Breda de O Novo Dancing Elétrico, de Enda Walsh.

"Mas há pequenos papéis que ela fez brilhantemente: como a criada japonesa de No Papel da Vítima dos Presnyakov. Perfeita", recorda o encenador. Aos 55 anos, Isabel Muñoz Cardoso confessa que também prefere os papéis menos importantes. É uma atriz que não tem vontade nem feitio para ser estrela. Começamos a conversa precisamente por aí. Isabel fala sem parar, com um nervoso miudinho. Diz que não está habituada a dar entrevistas e que é bom assim pois não gosta muito de falar de si, que não é como os outros atores que falam com paixão do teatro. "Por exemplo, todos dizem que têm o bichinho do teatro, eu nunca tive tal bichinho nem sei o que é."

Nunca tinha pensado ser atriz até aos 18 anos, quando uma amiga estrangeira da mãe ficou uma semana lá em casa e Isabel a acompanhou nas suas idas ao teatro (à Barraca e à Comuna). "Eu sempre quis ser médica porque não consigo ser inútil, não consigo estar no mundo pairando, fazendo de conta que não é nada comigo. Mas fiquei deslumbrada com a ideia de fazer teatro." A mãe, sempre tão rígida, não se opôs, disse-lhe apenas: "Podes ser atriz, médica, mulher-a-dias, o que quiseres, tens é que ser a melhor."

Isabel decidiu então ir para o Curso de Formação de Atores de Évora e aprender tudo o que tinha de aprender sobre o ofício. "Não tinha qualquer experiência mas nunca me perguntei se tinha jeito porque nunca achei que esta arte tivesse a ver com o jeito. Para mim, tem a ver com o trabalho, com a dedicação, com aquilo que queremos dizer ao mundo. Eu jeito não tenho nenhum. Tenho jeito para a costura, para tratar da casa e dos animais", diz, de rajada. "Fui aprender a ser atriz como teria aprendido a ser médico. É um trabalho."

Esteve no Teatro de Portalegre e depois no Teatro da Rainha e depois no Teatro do Tejo. Foi então que se cruzou com Jorge Silva Melo e com os Artistas Unidos e encontrou a sua casa. Ainda assim, de vez em quando, zanga-se com o teatro. Há uns anos, em 2005, desistiu de tudo. "Foi aquela questão da inutilidade. Achei que já bastava de estar a entreter intelectuais de esquerda em Lisboa." Mudou-se para Portalegre com as duas filhas. "Elas têm uma grande diferença de idades. Fui mãe aos 21 anos e depois aos 33 e nunca tinha tido as minhas duas filhas juntas. Fui ser mãe, fui auxiliar de ação educativa e adorei, tirei uma licenciatura em educação artística." No final do curso, em 2014, precisava de fazer um estágio e voltou aos Artistas Unidos. "O Jorge já não me deixou ir embora", conta, com vaidade mas ao mesmo tempo insatisfeita: "Nunca senti falta do teatro."

"Tenho muita sorte, porque gostei de todas as personagens que me deram, desde a primeira, a Bétia na Mosqueta do Rosante até à Breda de O Novo Dancing do Elétrico, adorei todas, todas, todas e odiei todas, todas todas. E todas me deram um trabalhão desmedido." Não, o teatro não a diverte, confessa. Diverte-a estar no sofá, a ver televisão, com a gata Morgana e a cadela Ebony, diverte-me estar no sofá, ou estar na palhaçada com o neto Afonso, ou passar tempo com as filhas e as amigas. "O teatro é a minha profissão e esforço-me, como me esforcei quando trabalhei no clube do vídeo ou na cozinha do Jardim da Cerveja. Se o Jorge me dá um papel eu tenho que fazê-lo o melhor que sei."

E é isso que vai fazer mais uma vez: "Como quando eu fui ao teatro mudaram-me a vida, é isso que eu imagino que estou a fazer. A mudar, pelo menos, a noite às pessoas. Sinto-me contente com isso. Sinto-me útil dessa forma."

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