Seal. A longa viagem do cantor universal

Em 25 anos, tudo mudou na vida de Seal. A voz, essa continua a ser um imutável fator de sedução. Canta hoje, perto de Lisboa

As calças de cabedal foram deixadas lá atrás, por troca com outras de corte clássico ou por uns jeans de marca. Em vez das botas afiveladas, de cano alto, aparecem sapatos de atacador ou sapatilhas topo de gama. O colete decotado, também de cabedal, deu lugar a T-shirts sóbrias ou a camisas sport chic. O cabelo selvagem, despenteado e a aproveitar as curvas naturais dos genes africanos, há muito foi rapado, dando lugar - episodicamente - a bigode e pera, sempre ralos. Percebe-se, pela simples consulta às fotografias e aos vídeos, a transformação: no princípio, o homem cantava Crazy e era um arauto dos excessos como via única para a sobrevivência; hoje, canta The Big Love Has Died, numa clara alusão à mulher que com ele casou em 2005 e anualmente renovou os votos do matrimónio... até iniciar o processo de divórcio. Não se inferem, de todas estas metamorfoses, quaisquer juízos de valor: afinal, lá ao fundo está o moço que conheceu o êxito tardio aos 27 anos, aqui ao lado está um respeitável veterano com 53.

Estamos perante um daqueles casos em que uma providência zela por nós, intermediários felizes, que podemos identificar este filho de pai brasileiro e de mãe nigeriana, nascido em Paddington, Londres, a 19 de fevereiro de 1963, pelo nome artístico, Seal, com reconhecimento planetário. Mais difícil seria apontá-lo por extenso, se tivéssemos que repetir Seal Henry Olusegun Olumide Adeola Samuel. Foi criado e educado por uma família adotiva. Nos seus primeiros passos no mundo das cantigas, integrou o elenco de uma banda britânica sem história nem legado, os Push, e foi com estes parceiros que rumou ao Japão, para uma série de espetáculos, começando por romper esta ligação em função de um grupo de blues com quem tocou na Tailândia e acabando numa espécie de "peregrinação" solitária pela Índia. Ganhou experiência e ganhou mundo. O que não o impediu, no regresso a Inglaterra, de pedir asilo ao sofá de um amigo, Julian Brunster, então modelo fotográfico.

Reza a lenda que Seal acabou por ser descoberto num clube londrino, o Solaris (abençoado Tarkovsky!), mérito de um precoce produtor chamado Adamski que teve o bom senso e o bom gosto de convocar o futuro cantor para as suas itinerâncias pela cena noturna britânica. O teclado e os computadores de Adamski, um MC de circunstância e a voz de Seal garantiam um público fiel, que transformou a canção Killer num tema de culto, abrindo as portas para o sucesso maciço de que se encarregaria Seal, já sob contrato com a atenta ZTT, a editora liderada por Trevor Horn.

Ironicamente, Killer haveria de ser ultrapassada por um hino das pistas de dança durante os anos 1990-91--92, Crazy, um vírus contagiante e omnipresente para os que, à noite, esgotavam a paciência para o bom comportamento e para os arrumadinhos. Seal triunfava em toda a linha, conseguindo três Brit Awards na mesma sessão (algo inédito, ao tempo): Artista Inglês, Vídeo e Álbum. O curioso é que, no momento de regressar aos estúdios, rapidamente deixou perceber uma mudança estratégica no público-alvo: dos mais novos e mais rebeldes, a pontaria era corrigida para abarcar gente de todas as idades, que se fixasse nas melodias e no respetivo portador, a voz de Seal. Basta recorrer a Prayer of the Dying e, sobretudo, à mais emblemática e mais perfeita das criações do cantor, Kiss from a Rose, para alcançar essa correção estratégica.

Tarefa superada, ideia que se confirma por uma só referência: 30 milhões de cópias vendidas dos seus discos. Que, em novembro último, chegaram ao sétimo capítulo. Na verdade são nove, se quisermos contabilizar duas abordagens aos clássicos da soul que hoje vale ao cantor como luz orientadora. Somou quatro Grammies aos três Brit Awards.

Sobressaltos também houve, claro. Desde um disco que não chegou a ser editado (Togetherland, agendado para 2001) até à controvérsia gerada quando Seal decidiu, em 2011, cantar na festa de aniversário de Ramzan Kadyrov, presidente da Chechénia, acusado de envolvimento com mortes arbitrárias e torturas. Também por lá passaram Hillary Swank (essa, a dos dois Óscares), Jean-Claude Van Damme e a violinista Vanessa Mae, mas foi sobre Seal que carregaram os grupos de defesa dos direitos humanos. A resposta: "Não me envolvam em questões políticas." Meio milhão de dólares, livre de impostos, deve ter ajudado a aliviar a consciência.

Depois, há a questão de Heidi Klum, a supermodelo com quem Seal foi casado. Tudo idílico, desde o romance inicial ao casamento na praia. O divórcio surpreendeu toda a gente (incluindo Seal, ao que se sabe). Para a memória, fica o videoclip escaldante que protagonizaram para a canção Secret, de 2010, menos de dois anos antes da separação. Mas os espectadores do concerto, mais logo, que devem ser brindados com doses generosas do álbum 7, não têm que temer o fantasma de Miss Klum - Seal já namora outra vez. E canta como sempre.

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