Ruy de Carvalho de volta ao palco para fazer "A Dama das Camélias"

Em 1962 foi o galã, agora é o pai do galã. O espetáculo, com encenação de Celso Cleto, estreia-se amanhã no Teatro de Oeiras

Ruy de Carvalho pede desculpa pelos dez minutos de atraso. Chegou ao teatro sozinho, a conduzir o seu próprio carro, para ensaiar durante a tarde a sós com Sofia Alves, antes de se juntar o resto do elenco. Amanhã, estreia-se no Auditório Municipal Eunice Muñoz, em Oeiras, o espetáculo A Dama das Camélias e o ator interpreta o papel do ancião Georges Duval.

É o primeiro espetáculo que faz depois de, em novembro, uma queda grave e um traumatismo craniano o terem levado de urgência para o hospital. Mas desdramatiza: "Não foi uma doença, dei uma cabeçada. Caí numa escada e magoei-me, fiquei com um galo muito grande, mas não foi nada grave. Já trabalhei muito depois disso."

Tem 88 anos e recusa-se a parar. Continua a apresentar, por todo o país, o espetáculo Trovas e Canções, em que trabalha com os dois filhos (Paula e João de Carvalho) e ainda com o neto (Henrique) que, seguindo as pisadas da família, também é ator. Do acidente de novembro guarda uma ligeira marca na cabeça e "cagaço tremendo de escadas". Mas segue em frente.

A Dama das Camélias é uma produção de Dramax - Centro de Artes Dramáticas de Oeiras, que está a comemorar dez anos de atividade. O encenador Celso Cleto decidiu "puxar pela imaginação, ignorar a crise que temos vivido nos últimos tempos e fazer uma peça com alguma dimensão e um grande elenco". Além de Ruy de Carvalho e Sofia Alves (na protagonista, Margarida Gautier), vão estar em palco Pedro Carvalho (como Armando Duval), Carmen Santos, Joel Branco, Igor Sampaio, Carlos Santos e outros.

A Dama das Camélias é um texto de Alexandre Dumas Filho, escrito no século XIX e inspirado na vida de uma elegante cortesã francesa, Marie Duplessi (1824-1847). O próprio autor do romance fez uma primeira adaptação ao palco, e o espetáculo estreou-se no Theatre de Vaudeville, em 1852. De então para cá, várias outras versões surgiram, na Broadway ou no cinema, mas entre elas a mais famosa é a ópera La Traviata (1953) com música de Giuseppe Verdi.

Em vez de Marie Duplessi a protagonista é Margarida Gautier, a mais cobiçada cortesã parisiense do final do século XIX. Tem muitas dívidas mas as conquistas que vai fazendo permitem-lhe manter um nível de vida bastante elevado. Até que se apaixona e inicia uma relação com Armando Duval, um jovem estudante de Direito, que pertence a uma família aristocrata.

Apesar de todas as dificuldades financeiras e do preconceito da sociedade e da família, os dois tentam viver o seu amor. O pai de Armando é um dos que, ao início, não aceitam a relação e pede-lhe para ela se afastar para que toda a família não seja prejudicada. Então, Margarida descobre que está doente, com tuberculose, e que irá morrer, e isso provoca uma mudança enorme na sua vida.

"Este é um dos textos essenciais da dramaturgia", diz Celso Cleto, que acredita que o texto "não ficou datado" e coloca ainda hoje questões pertinentes no que toca à misericórdia. "A Margarida é um pouco como Maria Madalena, que é perdoada por Deus mas não pela sociedade."

Sofia Alves, por seu lado, vê-a como a história de uma mulher que através do amor tem oportunidade de começar uma vida nova: "O amor transforma as pessoas, é o amor que nos faz felizes."

Esta não é a primeira vez que Ruy de Carvalho interpreta A Dama das Camélias. Mas se agora faz o pai, em 1962, o ator interpretou o papel de Armando Duval, o filho galã, ao lado de Eunice, que fazia a Margarida. "Os anos passam", diz, bem humorado.

Celso Cleto fez uma versão livre, escolhendo apenas as cenas essenciais para que a produção não ficasse muito cara. Apesar do reduzido cenário e de muito ser mais sugerido do que mostrado. "O trabalho dos atores é fundamental."

E não consegue evitar elogiar "o mestre": "Tem uma capacidade extraordinária de análise dos papéis e de memorização. E quer sempre trabalhar mais e mais. Não ensaiamos mais porque eu não deixo." O ator cora perante os elogios: "Eu já não fico nervoso, mas sinto um respeito enorme por aquilo que faço, pelo público, pelos meus colegas. E tenho uma ansiedade por saber se vou fazer bem."

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