Robert Schwentke: "Os vilões não estavam apenas nas SS"

O realizador e argumentista alemão assina o filme O Capitão. Um regresso a casa depois de blockbusters em Hollywood com um filme duro sobre a Alemanha no final da II Guerra Mundial

Chegamos antes da hora combinada. Enquanto Robert Schwentke não aparece, é o ambiente ocioso de um hotel parisiense, para os lados de Saint-Germain-des-Près, que nos ocupa a atenção. Umas vozes ao fundo, a conversar num pátio interior, dão àquele início de tarde um aroma de chá e simpatia à século XIX. Perto da entrada, a assinalar o anacronismo, ouve-se as portas de vidro automáticas que abrem e fecham sempre que alguém passa na rua. Quando Schwentke entra, sorridente, com a barba comprida e um porte francamente alemão, é como se interrompesse a viagem no tempo... Algo parecido acontece no final do seu novo filme, O Capitão. Esta é a história verídica de um jovem soldado germânico, Willi Herold (1925-1946), que, lutando pela sobrevivência nos últimos dias da Segunda Guerra Mundial, depois de encontrar o uniforme intacto de um oficial nazi, assumiu para si esse papel. Levou o seu teatro até às últimas e monstruosas consequências: um massacre. Este é um filme sobre o passado que se assume como uma carta endereçada ao presente. Schwentke, atualmente cativo de Hollywood, é um realizador que retorna a casa.

O que é que, enquanto alemão, lhe interessou na história do soldado Willi Herold: a personagem em si ou a reflexão que o seu caso implica?

Será mais a segunda hipótese. Eu queria fazer um filme sobre a dinâmica e a estrutura do nacional-socialismo. Olhando para um filme como A Queda: Hitler e o Fim do Terceiro Reich (2004), este diz-nos que houve um homem que levou o país ao abismo. E isso não é verdade. Muitas pessoas tiveram de acompanhar o mal, ou dar-lhe passagem, para que esta catástrofe cultural acontecesse. Então eu quis fazer um filme sobre a terceira, a quarta, a quinta linha de perpetradores, que não sendo os arquitetos do sistema, fizeram continuar esse sistema. E vamos ver e não há praticamente nada sobre eles na literatura ou no cinema alemão. Achei isso surpreendente. Talvez seja um tabu contar uma história do ponto de vista dos perpetradores... Sabe, eu cresci com o mito nacional de uma Wehrmacht [forças armadas alemãs] limpa, o mito de que os soldados não estavam envolvidos em atrocidades nem massacres. Mas no final dos anos 1980 houve uma grande exposição, com muito material fotográfico disponibilizado pelos arquivos russos - depois do fim da Cortina de Ferro -, e as fotografias tinham sido tiradas por militares alemães que foram capturados e se tornaram prisioneiros de guerra na Rússia. Os russos tinham-lhes apreendido fotografias em que eles posavam em frente às pessoas que tinham acabado de matar... Ora o que esse material, exibido numa exposição na Alemanha, provou é que não houve uma Wehrmacht limpa. Os vilões não estavam apenas nas SS.

E esse mito ainda existe?

Algumas pessoas disseram-me "não podes fazer este filme, porque mancha a Wehrmacht". O mito ainda está vivo em algumas zonas do país. E outro mito nacional é que o exército germânico não teve desertores... Por isso, como se vê, há coisas que achei que podia afirmar com este filme. Fazer um outro tipo de filme sobre o nacional-socialismo, como ainda não tinha sido feito na Alemanha.

Mas voltando a Willi Herold...

Sim, o que me interessou nesta personagem verídica não foi só a sua jornada pessoal, mas todo o sistema que o usou, na mesma medida em que ele usou o sistema. Senti que através desta história podia olhar para todas as camadas do sistema, desde o mais comum soldado aos generais, passando pela burocracia. Para mim este massacre não é uma tragédia clássica, no sentido em que tudo nos conduz para ele. Esta é uma tragédia que podia ter sido evitada, e não foi porque ninguém a parou e muita gente beneficiou dela... O que me parece interessante para análise é isto: eles permitiram que acontecesse. Foi isso que me chamou mais a atenção no caso de Willi Herold. Eu não estava interessado em fazer um biopic, mas em mostrar uma faceta do nacional-socialismo que ainda não tinha sido mostrada desta forma.

A vulnerabilidade do jovem protagonista, que testemunhamos no início, por vezes continua a espreitar, quando este já ostenta a farda que lhe dará poder para tudo. É importante não cair numa perceção maniqueísta em relação a ele?

Sim, não acredito num universo maniqueísta ou num pensamento binário. Acho que todos temos zonas cinzentas. Tudo existe em nós o tempo todo. E há também uma dialética no filme: temos a tese do soldado e a antítese do capitão. Eles não são o mesmo, mas depois temos a síntese, onde as duas coisas se juntam. Aqui, embora ele ainda pareça jovem, já está enfatuado pelo poder. Então, no fim, algo de novo foi criado, ele foi corrompido.

Num certo sentido, este filme funciona como uma experiência filosófica e sensorial. Como se fôssemos nós a ter aquela farda de capitão vestida.

É um filme sobre a natureza humana: algo que aconteceu e pode voltar a acontecer. Às vezes reparo que muitos filmes históricos fingem que o passado não tem nada que ver com o presente, que são mundos fechados. Esses filmes dizem-nos que há uma distância entre nós e o passado. E eu tentei fazer um que dissesse que tal distância não existe. Lá está, é também uma reação específica ao modo como o cinema alemão tem lidado com o passado. Porquê fazer um filme sobre esse passado se não for dirigido ao presente?

Precisamente, estamos a falar de um "filme de época" que não vive da fachada temporal. Aliás, a cena dos créditos finais, em que os atores, ainda envergando as personagens, confiscam pessoas nossas contemporâneas na rua, é um remate que quebra qualquer barreira de tempo...

É isso. Em termos de rigor histórico, todos os uniformes são cem por cento fidedignos - porque se trata de um filme sobre uniformes. Mas muitas outras coisas são abstratas: alguns dos cenários, o modo como filmámos, etc. E o final foi pensado para ser uma alegoria, para mostrar que pode acontecer em qualquer tempo e lugar, não apenas na Alemanha.

Do ponto de vista estético, há também um tom que se instala, como se nos estivesse a dar imagens de um conto de terror. Houve influências estilísticas?

Sim, trabalhámos conscientemente dentro das tradições artísticas alemãs, como o gótico, o romantismo e o expressionismo. As pinturas de Otto Dix foram muito importantes no desenho dos interiores, por exemplo, ou o romantismo fantástico de E.T.A. Hoffmann, com que deliberadamente evocámos um género filiado no terror.

E filmar a preto e branco sublinha a referência dessas tradições. Foi por aí a escolha?

Sobre isso há um episódio curioso que tenho de evocar: um dia Michael Powell - um dos meus cineastas favoritos de todos os tempos -, que foi um mestre do Technicolor, visionou testes de O Touro Enraivecido [1980], que Martin Scorsese tinha filmado a cores. Depois de ver essas imagens, Powell disse-lhe que ele não podia rodar o filme a cores, porque ninguém aguentaria ver tanto sangue... Disse mesmo: "As pessoas não serão capazes de entender que não fizeste um filme violento, mas um filme sobre violência." Eis uma importantíssima distinção. Eu pensei durante muito tempo como é que gostaria de fazer O Capitão, e este episódio ficou-me preso nas ideias, pela sua grande ironia, astúcia, e pela inteligência da análise sobre a perceção do público.

Apesar de as suas primeiras longas--metragens serem alemãs, nos últimos dez anos tem trabalhado na indústria americana. Como é que sente este regresso às origens, em termos de um filme falado em alemão?

Em termos de língua, foi talvez um pouco mais fácil de realizar, para mim. Mas no que toca a produção não há grandes diferenças entre os Estados Unidos e a Alemanha, o processo é muito semelhante, até com os atores. O que é diferente é o desenvolvimento desse processo. Vejamos, eu não poderia fazer um filme como O Capitão no ambiente de um estúdio, porque ele ignora várias convenções narrativas, inclusivamente não há uma personagem com a qual nos identifiquemos - essa é uma grande diferença. Mas, sobretudo, um filme como este não poderia ser feito em inglês. Seria estranho...

E falso...

Exatamente. A língua alemã é muito importante para o filme porque representa, só por si, uma forma de autoridade. É aqui uma língua totalitária que suporta um sistema totalitário. Uma coisa requer a outra.

Este é também um filme com argumento seu. Desde que entrou na indústria americana, nunca mais se viu a sua assinatura nos argumentos dos filmes que tem realizado...

Sim, é verdade. Mas também costumo trabalhar nos argumentos que filmo. Não sou do tipo de executar apenas.

Mas ainda sobre o aspeto da produção, não identifica muitos contrastes entre o sistema da grande indústria e o trabalho independente?

Nem por isso. O que muda é que temos financiamentos estatais. A verdade é que não poderíamos ter realizado O Capitão dentro do sistema americano, porque lá o financiamento é baseado nas estrelas, cada ator tem um certo valor. Eu fiz um filme com um ator jovem [Max Hubacher] e não muito conhecido... nunca conseguiria o dinheiro.

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