Rita Maia solta os novos sons do mundo no Musicbox

Radicada em Londres, a DJ e radialista portuguesa Rita Maia regressa a Portugal como curadora das Migrant Sounds, as novas noites de clubbing do Musicbox, onde, uma vez por mês, irá apresentar "música de dança com linhagem da música negra", sempre com muitos convidados à mistura. Hoje conta com a presença do inglês Thris Tian, um dos fundadores da Boiler Room

Já lá vão 15 anos desde que Rita Maia trocou Lisboa por Londres, atraída pela fervilhante cena musical da capital inglesa, onde se destacou na divulgação das novas tendências da música de dança mundial. "Tinha família em Londres e desde miúda que lá ia. Sempre me atraiu muito a cena musical urbana londrina, em especial a eletrónica, que por lá já tem uma história de quase 40 anos, bem como as influências caribenhas do reggae e do dub. Interessa-me muito essa parte da música negra", explica a DJ e radialista portuguesa, de 37 anos, que hoje é a anfitriã de mais uma Migrant Sounds, a nova noite de clubbing do Musicbox, em Lisboa, da qual será a curadora.

"Em Londres é normal criarem-se comunidades de artistas, que organizam eventos para tocarem juntos e trocarem experiências. O objetivo destas noites é trazer algumas dessas pessoas cá e juntá-las com artistas portugueses, porque também há uma comunidade muito interessante em Lisboa, já com várias gerações, que vai da música eletrónica às sonoridades mais tradicionais", revela. "Quando cá venho, sinto que faz falta juntar mais vezes estas pessoas, e há muito potencial para isso em Lisboa. Trata-se de uma cidade onde a cena musical evoluiu bastante nos últimos anos, porque se começou finalmente a dar valor a uma certa tipicidade, relacionada com a enorme mistura de culturas que aqui coabita", sustenta.

As noites Migrant Sounds terão uma periodicidade mensal e irão sempre contar com convidados e participações-surpresa a meio da noite, sejam eles músicos, cantores, DJ ou dançarinos. "O objetivo é trazer mais instrumentos para a pista de dança, criar um espaço onde as pessoas se encontrem e tudo possa fluir de um modo mais espontâneo, que é algo que hoje faz muita falta nos clubes", defende.

A primeira sessão Migrant Sounds decorrer no mês passado, só com convidados portugueses e, segundo Rita, "funcionou como um teste" para as edições futuras, até porque "a ideia é ter sempre algum convidado internacional", nomes que não passam por cá habitualmente, de modo a provocar o tal "cruzamento de experiências".

Hoje, o convidado será o também DJ e radialista inglês Thris Tian, um dos fundadores da Boiler Room (plataforma que organiza pequenos espetáculos com alguns dos maiores nomes da música eletrónica, transmitidos via internet) e autor do programa Dark N" Lovely Global Roots, transmitido em todo o mundo pela NTS, estação de rádio online sedeada em Londres.

"O Thris Tian é, acima de tudo, um colecionador de música com uma sensibilidade única que, apesar de ter milhões de seguidores em todo o mundo, continua a não ser um nome muito conhecido do grande público. Mas é isso mesmo que se pretende, apresentar pessoas com enorme cultura musical, independentemente de serem ou não conhecidos", afirma Rita Maia, que hoje à tarde irá fazer com Thris Tian uma sessão de rádio a partir de Lisboa, para ser transmitida na Worldwide FM, a famosa estação online criada por Gilles Peterson.

Em busca do sonho musical

Desde muito cedo que Rita Maia tinha a certeza de que queria fazer da música a sua vida, muito embora nem sempre da forma mais óbvia. "Fiz parte de algumas bandas durante a adolescência, como é normal, mas quando ingressei na universidade escolhi o curso de Serviço Social e fi-lo por causa da música", revela. A explicação é simples: "Estava interessada em fazer projetos de música com as comunidades africanas dos subúrbios de Lisboa e o modo mais simples de o fazer foi como assistente social." Foi, aliás, a desenvolver projetos musicais com jovens desfavorecidos que começou a trabalhar quando se mudou para Londres. Entretanto, começou a trabalhar como DJ no Notting Hill Arts Club, onde atuava uma vez por mês e deu a conhecer nomes como Disclosure ou Funkineven.

Depois tornou-se residente do BBC Club, onde esteve durante dois anos. Atualmente é presença assídua nos mais famosos clubes e festivais londrinos, como o Carnaval de Notting Hill ou o Worldwide Festival, organizado pelo lendário Gilles Peterson, sendo também a autora do programa Sine of Times, transmitido desde há seis anos na Resonance FM, uma das mais alternativas estações de rádio inglesas.

"Nunca planeei ficar tanto tempo em Londres e agora, que há esta cena musical tão interessante em Lisboa, gostava de criar algo mais regular por cá", confessa. Para já está a filmar um documentário, em parceria com o diretor de fotografia Vasco Viana, sobre a identidade da música de Lisboa, que deverá estar concluído na primavera. "Tem que ver com o modo como a música dos PALOP se tornou, também ela, lisboeta. Queremos contar a história dessa evolução, através de um olhar de fora, neste caso o meu, que vivo em Londres há muito tempo, mas também com uma observação direta dessa diversidade, através da música e do depoimento de dez personalidades ligadas à música, todas elas oriundas de diferentes partes da cidade", refere.

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