Richard Hawley: cantar uma cidade, tocar o mundo todo

É um herói local e um músico global. Tem disco novo e concerto marcado para Barcelona

Ouçam como ele se explica: "Por muito anacrónico que isso soe nos nossos dias, eu sinto mesmo o poder das raízes e a felicidade da integração. Tenho a vantagem de contar no meu percurso com umas 15 viagens à volta do mundo e não desdenharei mais uma ou outra, quando se apresentar a oportunidade. Mas é aqui [em Sheffield] que me sinto em casa. Sei perfeitamente como ainda posso encantar-me com esta cidade e também sei como e quando refilar com algumas maldades que lhe fazem... Regressar corresponde a uma sensação única e eu sou um bocado gato, gosto de marcar território..."

Como ressalta óbvio, Richard Hawley, em tempos integrante dos Longpips (que fizeram furor no Brit Pop da década de 1990) e colaborador íntimo dos Pulp, só podia ser nativo da "cidade do aço", a mesma que viu nascer Gavin Bryars, Paul Carrack, Philip Oakey mais Joanne Catherall e Susan Ann Suley (as três vozes dos Human League), Alex Turner e Jamie Cook (duas das forças motrizes dos Arctic Monkeys), Bruce Dickinson (Iron Maiden), Joe Elliott e Rick Savage (ambos dos Def Leppard), Martin Fry (de quem nos lembramos nos ABC), Paul Heaton (ex-Beautiful South), Roisin Mur-phy (Moloko) ou Martyn Ware (Heaven 17). Acima de todos estes, os dois Cocker que partilham o apelido mas não quaisquer laços familiares: Jarvis, cabeça cantante dos divinos Pulp, e Joe, o cantor espasmódico que também publicou um álbum chamado Sheffield Steel.

O melhor é para ele

Hawley não fala gratuitamente; as ligações aos Longpigs e aos Pulp renderam-lhe fama e proveitos, os seus dotes de guitarrista "de sessão" com certeza ajudaram ao desafogo financeiro. Além dos citados, ele trabalhou com Robbie Williams, com as All Saints, com Nancy Sinatra, com o veterano Hank Marvin (dos Shadows), com os Arctic Monkeys e Shirley Bassey, com os Manic Street Preachers. Ou seja, bem pode dizer-se que o homem dispara em todas as direções - como guitarrista, cantor, autor ou produtor. Ainda assim, parece guardar o melhor para os álbuns que assina em nome próprio desde 2001, época em que Jarvis Cocker e Steve Mackey, ambos dos Pulp, quase o empurraram para dentro de um estúdio. Aos poucos, sem a pressão da sobrevivência, Hawley, já objeto de um culto local, começou a juntar as peças que acabariam por definir um percurso ímpar na atual música pop britânica. Sem deixar de manter Sheffield na mira: Late Night Final (também de 2001) ganhou o título a partir do pregão dos ardinas que vendiam o vespertino Sheffield Star pelas ruas; Lowedges (2003) é um subúrbio que o jovem estudante Hawley atravessava diariamente de autocarro; Coles Corner (2005) corresponde ao ponto da cidade preferido pelos pares de namorados para os respetivos encontros; já Lady"s Bridge (2007) é uma das pontes que cruzam o rio Sheaf, que cruza Sheffield.

Canções sem tiques

Desde cedo, a indústria, a crítica e o público do Reino Unido reconheceram os méritos de Hawley, autor de canções sem fórmulas resolventes e sem tiques de ocasião, antes pontos de partida devidamente localizados para viagens com final indeterminado, guitarrista sóbrio e incisivo, capaz de fintar os excessos de tantos virtuosos que se perdem diante das infinitas possibilidades que as cordas lhes vão oferecendo. Com Coles Corner, o autor foi nomeado para os prémios Mercury. Perdeu, mas teve direito a uma pequena vingança quando Alex Turner, dos Arctic Monkeys, gritou no palco da cerimónia: "Chamem a polícia! O Richard Hawley acaba de ser roubado!" Convém assinalar que o prémio em causa foi ganho precisamente pelos Arctic Mon-keys... Mais tarde, com Lady"s Bridge, Hawley também apareceu na corrida aos Brit Awards e, sobretudo, aproveitou a "ponte" para atravessar de vez o canal da Mancha e começar a demarcar terreno um pouco por toda a Europa, rendida às canções de "folha perene" que lhe apresentavam Sheffield e, sobretudo, que lhe garantiam perfumados intervalos sabáticos para as doses de música massificada e sem personalidade.

Vagabundo sonhador

Chegado a 2012, Hawley assinou o seu momento de deriva, com o psicadelismo de Standing at the Sky"s Edge, muitos furos abaixo da média cumprida anteriormente. Agora, para gáudio geral, tudo se recompõe em Hollow Meadows, que traz de volta o vagabundo sonhador, desta vez em abraço absoluto à intimidade (The World Looks Down, Tuesday pm, What Love Means) e ao romance (I Still Want You, Serenade of Blue, Sometimes I Feel), escolhas a que não será alheia a reclusão forçada a que Hawley esteve submetido, com uma perna partida seguida de uma hérnia discal. Apesar de algumas "escaramuças" rítmicas, voltam a predominar as amplas e atmosféricas baladas, cada uma delas capaz de explicar como o crooning pode tornar-se - à força de talento e de trabalho - uma via rápida para a concisão e para a assertividade. Os necessitados de um "código de acesso" só precisarão de ouvir Nothing Like a Friend para ganharem a certeza de que isto é coisinha para acompanhar, e bem, todo o inverno.

Já agora: sendo um fervoroso adepto do Sheffield Wednesday (só podia), Richard Hawley merece receber a informação de que o seu clube do coração - que em setembro funcionou como tomba-gigantes na Taça da Liga inglesa, ao eliminar o Newcastle - é treinado por um português (Carlos Carvalhal) e conta com dois lusitanos no plantel (os avançados Marcos Matias e Lucas João). Pode ser que esse memorando contribua para que ele deixe momentaneamente a sua cidade de meio milhão de habitantes (1,5 na área metropolitana) e se decida a trazer as novas canções a estas paragens. Dizem que vale a pena... Para já, tem paragem segura em Barcelona, no Primavera Sound. No dia 4 de junho.

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