Ricardo Pais regressa ao São Carlos para o Édipo de Stravinsky

A ópera-oratória Oedipus Rex, com libreto de Jean Cocteau, estreia hoje (às 20.00), no que é o regresso de Ricardo Pais ao Teatro, 25 anos depois. Restantes récitas nos dias 11 (20.00) e 13 (16.00). Direção musical do britânico Leo Hussain

Diz que o "modo normal" de produção de ópera não lhe interessa "absolutamente nada", razão para apenas duas prévias incursões em ópera em 40 anos de atividade - "e recusei convites por vezes bem apetitosos!" Agora, apesar de se achar "um erro de casting", Ricardo Pais aceitou encenar o Oedipus Rex, de Stravinsky/Cocteau, que estreia esta noite no Teatro São Carlos. Ou, na sua peculiar definição: "estou muito contente de ter sido obrigado a aceitar este sacrifício!"

Admite que tinha "apenas uma ideia vaga" da obra quando lhe foi proposta, mas entretanto "já vi dezenas de produções". A conceção agora idealizada para uma "obra que nunca é teatralmente convincente" é, diz, "minimal, geométrica, hierática, austera e sem "invenções"", na qual vê "qualquer coisa do teatro Noh". Pois, questiona-se, "o que pode um encenador fazer aqui, para além de um staging decente e bonito?"

Congratula desde logo o trabalho de António Lagarto (cenografia e figurinos): "ele é muitos quilómetros à frente o melhor cenógrafo português, tecnicamente. Vai direito ao detalhe, como eu". O resultado foi "um objeto especial, para nós, o que não significa que o seja também para o público..."

Um dos elementos cénicos proveio da tela cinematográfica: "o carrinho de bebé foi uma ideia do António Lagarto e aparece no Édipo do Pasolini, um filme de culto nosso, puxado pela Silvana Mangano. Achei logo a ideia muito boa, mas assumi desde o início que teria de ser o narrador a fazê-lo".

Figura do narrador que, diz, "não está ali para contar a história, mas é antes uma pessoa que está por dentro da história e a sabe, mas sabe dolorosamente, tanto que acaba por partilhar a angústia de Édipo". Mais à frente, dirá: "ele já traz dentro de si o Mensageiro que traz as más notícias, sabe-o interiormente. É uma espécie de Deus ex machina da tragédia".

Tragédia servida por uma música que "se cola à pele do cantor que faz a personagem" e "sela no corpo da pessoa as possibilidades todas, incluindo alguma rede psicológica", explicando que "é o ato de cantar que faz o personagem e não este que é levado para dentro do canto, como sucede em Verdi, por exemplo", levando-o a afirmar que "os personagens são feitos pela própria música, como em certas formas teatrais orientais".

Ricardo guarda viva a memória da sua primeira ópera de Britten The Turn of the Screw, que fez no Porto 2001, no São João: "Foi uma experiência fantástica e um momento muito feliz da minha vida".

Um próximo regresso seu à ópera foi assumindo várias faces ao longo da conversa: "É evidente que gostava de fazer uma ópera a sério, como a Traviata!" Pouco depois, retoma "a proposta de uma Carmen que tive há uns anos, do São Carlos, mas era uma adaptação, uma coisa completamente ao contrário chamada Carmencita, como a canção da Amália." Por fim, menciona o Capriccio, de Strauss: "É a que mais gosto de todas e essa sim, é uma peça que "dá pano para mangas"!..."

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