Rentes inicia cruzada pela homossexualidade transmontana

O ensaio sobre Trás-os-Montes de J. Rentes de Carvalho contém páginas que criticam hábitos 'insultuosos' contra os homossexuais da região e considera que se vive ainda uma 'época medieval'.

O penúltimo livro do escritor J. Rentes de Carvalho, O Meças, já deixava uma pista sobre a questão da homossexualidade em Trás-os-Montes quando uma personagem faz esta afirmação: "Será que o Luís ficou larilas?" Ao leitor, acostumado à falta de cortesia literária em certas páginas dos seus romances - também conhecida pela frontalidade do transmontano -, achava que essa deixa faria parte da conceção criativa do autor português mais conhecido na Holanda, país onde habita há décadas. Mas não, a questão da "homossexualidade clandestina" em que parte da população daquela região portuguesa é, diz, obrigada a viver por razão de tabu social é uma preocupação real em Rentes de Carvalho.

Tanto assim que no seu mais recente ensaio, intitulado Trás-os-Montes, o Nordeste, o novíssimo volume da Fundação Francisco Manuel dos Santos, que já teve algumas polémicas na sua coleção Retratos (Henrique Raposo e Alentejo, por exemplo), J. Rentes de Carvalho volta à questão da homossexualidade em Trás-os-Montes, desta vez em duas páginas duras e sem o esconder atrás de um diálogo literário.

Usa palavras ferozes quando descreve que a sociedade transmontana vive um "sofrimento real" e que a região "não beneficiou do alargamento de vistas e das aceitações que vieram com a televisão e a mudança do regime político", designadamente no caso de "tabus da sociedade". Considera que existe um "ambiente de conspiração anónima e silenciosa em que muitos sofrem e todos perdem", à vista "dos pais, dos parentes dos amigos, dos vizinhos, e o sorriso dúbio, insultuoso".

O escritor retoma a palavra com que terminou o parágrafo anterior e repete "insultuoso" para caracterizar o que se passa com o "aparente descaso para com os casais de lésbicas, a atitude a implicar que "não é a mesma coisa que homens", reduzindo a homossexualidade feminina a uma "maluqueira" que nalguns ganha aparente aceitação, seja a condescendência desdenhosa que reserva aos que, por saírem do carreiro, mostram ser fracos de espírito".

Continua sem disfarce de personagem a discorrer sobre um problema. "Não ignoro como é gratuito opinar sobre situações que pessoalmente não nos tocam", e conclui que este é "infelizmente, dos dramas para que não se augura uma solução a curto, nem sequer a médio prazo, pois toca no que seja um dos mais anquilosados da sociedade do Nordeste Transmontano: a relação com a sexualidade e o desdém, para não dizer o nojo, com que é encarado quem, seja de que maneira for, dá mostras de ser diferente". E carrega mais na prosa que analisa a questão da homossexualidade nesta parte de Portugal: "São assim obrigados a uma experiência tragicamente ambígua, pois os força a aceitar as regras da chamada normalidade, negando-lhes o direito de assumirem a sua natureza e de se comportarem livremente."

Para Rentes de Carvalho, esta situação é incómoda e daí que o autor se tenha calado em tempos e que se tenha quase obrigado a manter-se em silêncio. No entanto, nestas duas páginas acaba por tocar a fundo pois considera "que [os homossexuais] são vítimas de um desumano e insidioso ostracismo", só comparável a "uma escuridão medieval".

Estas duas páginas do ensaio sobre Trás-os-Montes são tão inesperadas que durante a apresentação oficial deste novo livro, Francisco José Viegas, o editor da sua obra no nosso país, fez questão de as destacar perante a plateia de mais de uma centena de pessoas na Biblioteca Trindade Coelho, de Mogadouro, a poucos quilómetros de Estevais, onde o escritor passa metade do ano na casa do seu avô. Uma interpelação ao público presente que não se encontrava no discurso original mas a que não resistiu tocar.

No agradecimento a fechar essa sessão, Rentes de Carvalho não se referiu à homossexualidade mas, em entrevista ao DN, prometeu que a questão não se ficará pelo que já escreveu: "Na apresentação em Lisboa [amanhã, na Feira do Livro], vou falar um pouco mais sobre o assunto." Ressalva: "Aqui não, em Lisboa sim, que é muito longe."

Na conversa em Estevais com o autor questionou-se na sua atitude de algum comedimento na caracterização do transmontano e da sociedade de Trás-os-Montes. Referiu-se que a sua pena foi leve, ao que respondeu que o pode ter sido "mas quanto mais leve é mais dói". Insiste-se se foi um truque para não magoar os conterrâneos: "Nesse aspeto sou muito transmontano e não gosto de tocar nas feridas. Para quê? Para magoar e provocar dor gratuita e que não serve para nada. É preciso haver respeito por quem sofre."

Quando se define esta forma de ser como uma cruzada a favor da aceitação da homossexualidade em Trás-os-Montes, Rentes de Carvalho apenas a considera "ser muito nobre e muito discreta". Não fica a questão por aí e a pergunta que se segue é por que não foi então leve aquando da questão da homossexualidade. Isso não a escreveu de modo leve? "Esse é, talvez, o único grande drama desta província. As pessoas nem podem ser remotamente homossexuais, dar o mínimo sinal de que qualquer coisa os inclina para o mesmo sexo. E essa gente, que não são muitos nem serão poucos, serão o geral da sociedade, vive um drama terrível pois estão constantemente na clandestinidade de uma ditadura mais cruel e mais terrível do que todas as outras", diz. Para que não se diga que Rentes de Carvalho está a falar de cor, dá um exemplo: "Posso ir pela aldeia abaixo e mostrar um, dois, três ou quatro homens ou três mulheres do mais normal que se possa imaginar no sentido sexual, mas ninguém vê o sofrimento, o estigma e o anátema que cai sobre esta gente. É terrível."

Será que foi a parte que mais lhe custou a escrever? Rentes responde: "A minha dúvida era se o escrevia ou não e se tocava apenas pela rama. Talvez daqui a 50 anos haja alguém que escreva um livro com esta trama mas agora seria apenas uma crueldade."

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