Querubim Lapa: a vasta obra que fez de Portugal a sua paisagem

Tem 90 anos. Quem não o conhecer, reconhece-lhe a obra, espalhada pelo espaço público português. Mas quem lhe conhecer o nome não mais o esquece. Fomos assistir a uma aula aberta do mestre da cerâmica e da pintura

Uma rapariga fuma um cigarro num dos pátios interiores da Escola Superior de Educação de Lisboa. Com a amiga ao lado, lê em voz alta um folheto: "Pintor, escultor e ceramista, Querubim surge associado ao neorrealismo português..." "A professora conhece?", pergunta a Susana Barros, logo ao lado. "É meu marido", responde a mulher de Querubim Lapa.

Se a rapariga tiver, dali a pouco tempo, entrado no auditório da escola, terá conhecido o "mestre Querubim", hoje com 90 anos. E se tiver assistido a essa aula aberta que Querubim deu na quinta-feira perante um auditório repleto de alunos do curso de Artes Visuais e Tecnologias, que o aplaudiram à entrada, terá percebido que é dele, por exemplo, o painel que figura na pastelaria lisboeta Mexicana - recentemente reaberta -, Sol Ardente. Como são dele os painéis do Palácio da Justiça, do metro da Bela Vista ou da Casa da Sorte, no Chiado, com que em 1960 foi integrado no projeto de remodelação pelo arquiteto Conceição Silva. A Casa da Sorte - que foi vendida à Pastelaria Alcôa -, entre a Rua Garrett e a Rua Ivens. A primeira é a rua da "primeira escola" de Querubim, o café A Brasileira; na segunda está "a segunda escola", a Faculdade de Belas-Artes, onde estudou.

Quem passa de carro pela Avenida da Índia, Alcântara, verá o seu Terraço, painel de azulejos. E quem entrar na nova Loja das Meias, na Avenida da Liberdade, poderá ficar defronte do painel que o mestre fez para a primeira loja daquela empresa, no Rossio, em 1960, comprada pela Benetton em 2007.

Quando se procura elencar a obra de Querubim Lapa, quase apetece dizer o que ele, sucessivamente, vai repetindo em cada conversa. Expressões como: "Eu contava coisas até amanhã, depois de amanhã...", "mas isso agora...", ou "ah, isso era uma conversa que não acabava". Começava a aula aberta e o mestre avisava: "Não é uma aula, é uma conversa entre todos." Uma "conversa" que passou pelos azulejos de padrão do Centro Comercial do Restelo, que datam de 1964, dez anos depois de se iniciar na cerâmica, ou pelo relevo cerâmico do Casino Estoril.

Vai falando, vai desenhando. O que ocorre naquela aula aberta é, se assim se puder chamar, uma síntese do que foram os seus dias durante 45 anos. De manhã, professor na Escola Secundária Artística António Arroio; a partir da tarde, "pintor, escultor e ceramista". Na plateia está Susana, que foi sua aluna - ela e a sua irmã gémea, que logo chamaram a atenção do mestre quando este se deparou com uma Susana Maria e uma Maria Susana. A certa altura, é ela quem conta que Querubim Lapa modelava o barro para os grandes painéis em cima dos andaimes. "Às vezes caía do andaime. Levantava-se e continuava a trabalhar."

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