"Que vida rica ser capaz de cantar em várias línguas"

Repetente nos palcos portugueses, Stacey Kent apresenta-se nesta noite nos Jardins do Marquês de Pombal, em Oeiras. Com a música em português no repertório

"Vai ser uma delícia para mim", diz Stacey Kent, a mesma voz doce que se lhe reconhece do disco Tenderly, lançado em 2015, o mais recente dos 11 que já editou. "Para mim é muito lindo compartilhar estas canções, e algumas novas que vou gravar", começa por contar, assim que atende o telefone, a propósito do concerto do festival EDP Cool Jazz hoje, às 21.00. nos Jardins do Marquês de Pombal, em Oeiras.

A conversa decorre em português, por iniciativa da cantora norte-americana. "Se não compreender alguma coisa, digo. Não estou acostumada a falar português." E, no entanto, fala com correção com um sotaque que mistura, em partes iguais, Portugal e o Brasil.

"Já viajámos muito com este disco", afirma. "Faço alterações segundo a atmosfera", explica. "Já estou com estes músicos há muito tempo." E, promete, acrescentará algumas a pedido dos espectadores. "Há um página no Facebook, sou uma das administradoras ,vou lá ver o que escrevem, tento incluir as canções que as pessoas pedem." "Adoro essa relação íntima com as pessoas. Gosto de comunicar, por isso estudo línguas."

É a pergunta que está no ar desde que Stacey Kent, numa tarde de junho, estando em Londres, atendeu o telefone em português. Conta que queria aprendê-lo desde que começou a ouvir João Gilberto e António Carlos Jobim, "muito antes de ser cantora". Antes mesmo de entender o que diziam.

"Quando tinha 14 anos e ouvia a voz e o violão do João Gilberto, sem ser capaz de compreender as palavras, podia ouvir o balanço, entre a tristeza e algo mais otimista. Cita Vinicius de Moraes (e esta não é a primeira entrevista em que o faz): "O samba tem esperança de um dia não ser triste mais." Palavras de Samba Saravah, um dos temas que já gravou (Breakfast on the Morning Tram, 2007).

Foi-lhe impossível aprender português enquanto aluna de Literatura da Universidade Sarah Lawrence, em Nova Iorque. E em Inglaterra, onde continuou os estudos, e conheceu o saxofonista Jim Tomlinson, com quem se casou em 1991, e com quem partilha o palco e a composição de várias canções.

Chegamos, então, a 2008. Stacey Kent inscreve-se finalmente num curso de Português na Universidade de Middlesbury. Sete intensas semanas de aulas. "A gente não pode usar uma palavra em inglês!"

O professor era António Ladeira, investigador de literatura de Portugal e do Brasil, poeta, hoje a lecionar na Universidade do Texas. "Ficámos amigos." Por e-mail, mandou-lhe um dos seus poemas, que Stacey Kent acabaria por musicar como tinha feito já com o japonês Kazuo Ishiguro. "Trouxe essa esperança no futuro", que a cantora já apreciava. "Ele compreendeu!", conta. Gravaram, por exemplo, O Comboio, que faz parte do disco Dreamer Concert, de 2011, gravado no La Cigale, em Paris, onde também se inclui Postcard Lovers, com letra do autor japonês (e canta uma versão de Waters of March, de António Jobim). "Se a química existe entre as pessoas, algo acontece. Vamos continuar a trabalhar com ele", adianta.

Fala no plural, abarcando Jim Tomlinson, que conheceu durante a época em que estudou em Londres e se cruzaram na Guildhall School of Music. Pretendia seguir uma carreira académica, foi estudar música por gosto pessoal.

Depois dos estudos nos EUA, na Europa a Alemanha foi a primeira paragem. Também aprendeu italiano. Diz que lhe é essencial comunicar na língua das pessoas que conhece. "Toda a língua tem a sua sensibilidade", considera, acrescentando: "Que vida rica ser capaz de cantar em várias línguas. É uma mistura muito linda."

Volte-se, pois, ao curso de Português. Não o fez para ser capaz de cantar em português, algo que já fazia. O seu repertório vai buscar muito à música brasileira, especialmente bossa-nova e ao samba. Antes para comunicar com os outros. "É um caminho muito longo [a aprendizagem da língua], que continua para o resto da vida, não quero fazê-lo superficialmente."

Parêntesis. "Também falo fluentemente francês", diz Stacey Kent, 48 anos feitos no dia 27 de março. Aprendeu com o avô, russo, que fugiu da revolução de 1917 para França, onde viveu muitos anos. Acabaria por emigrar para os Estados Unidos da América, mantendo, porém, a ligação a França através da sua cultura e literatura. Recitava poemas de Charles Baudelaire à neta. A cantora gravou mesmo um álbum neste idioma - Raconte-Moi (2010).

Portugal é ponto de paragem mesmo quando não tem concertos. "Quando temos dias disponíveis vamos para Portugal." Mas não agora. De Londres, Stacey Kent seguiria para Budapeste e antes de aterrar em Portugal para o seu concerto nos Jardins Marquês de Pombal, em Oeiras, ainda houve uma passagem por casa, no EUA, para gravar o próximo disco. "Estamos a começar o trabalho."

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