Quando o rei já ia nu

Elvis Presley morreu novo, mas em evidente decadência. Pouco mais de vinte anos na música valeram-lhe o trono da idade rock. Mas, na hora da partida - passam hoje 40 anos -, era um homem solitário e excessivo.

No momento em que foi sepultado, quatro dias depois de uma morte que chocou o mundo, Elvis Aron Presley voltou à condição de solitário que o atormentou desde a partida de Linda Thompson, a mulher com quem se envolveu depois do divórcio. A família - o pai, Vernon, a ex-mulher, Priscilla, e a filha, Lisa Marie - ocupava os lugares de destaque na cerimónia, transmitida em direto e em simultâneo pelos canais CBS, NBC e ABC, os três maiores da América. A sua condição de rei do rock há muito se esbatera e disso é prova que só meia dúzia de celebridades marcasse presença: James Brown, Sammy Davis Jr., Chet Atkins, o ator George Hamilton, Caroline Kennedy (filha do antigo presidente, em representação da revista Rolling Stone) e a amiga Ann-Margret, com quem Elvis rodara o filme Amor em Las Vegas (1964) e que, desde então, recebia do cantor um enorme ramo de rosas sempre que estreava um novo espetáculo.

O luxo de Graceland, a mansão de Memphis que Elvis comprara por pouco mais de cem mil dólares, já tinha conhecido tempos melhores - a manutenção orçava, agora, em meio milhão por ano. Apesar de manter os três Cadillac cor-de-rosa nas garagens, Elvis tinha pouco mais de um milhão no banco.

Pouco, muito pouco, para alguém que conseguira os discos mais vendidos nas décadas de 1950 e 60, respetivamente Hound Dog e It"s Now or Never, que mantivera uma relação amorosa com os resultados de bilheteira de 31 filmes de longa-metragem, muitos deles sofríveis, quase todos rentáveis, e que terminaria esse fatídico 1977 com a digressão musical mais rentável do ano. Ironicamente, Presley nunca chegou a subir aos palcos europeus - estava a preparar uma tournée... para 1978.

À hora da morte, Elvis tinha apenas 42 anos, mas o seu reinado musical esboroava-se em despesas inacreditáveis com a segurança e com a saúde. Se a causa da morte foi oficialmente atribuída a um ataque cardíaco, não é difícil concluir que os mais de dez mil comprimidos prescritos ao cantor pelo seu médico "de confiança", George Nichopoulos, sobretudo porque se distribuíam por uma gama aterradora que incluía anfetaminas, barbitúricos, calmantes, soporíferos e até laxantes. Elvis ganhara peso excessivo e nunca resolveu os seus problemas de insónia crónica. Se pensarmos na sua alimentação, será sintomático dizer que há uma Elvis Sandwich - com manteiga de amendoim, banana e bacon, não muito saudável.

Aquele que ganhara fama e proveito, mas também polémicas e proibições, com os seus movimentos pélvicos (Elvis, The Pelvis, que a TV norte-americana só podia adivinhar, uma vez que as câmaras não estavam autorizadas a baixar da linha de cintura, nem mesmo no liberal show de Ed Sullivan), há muito tinha deixado cair a rebeldia e aceitava conselhos de Liberace quanto ao guarda-roupa: daí os fatos dourados e os casacos brancos de franjas.

A prática de karaté, em que chegou a alcançar o cinturão negro, era algo do passado. Os primeiros empregos, como arrumador de cinema e camionista, perdiam-se na memória. Retirado do cinema desde 1969, Elvis, que arriscara duas operações plásticas à cara, enfrentava um problema decisivo: a perda de direção no reportório, algo que não sucedera com os "súbditos" seus contemporâneos, de Chuck Berry a Jerry Lee Lewis, de Johnny Cash a Fats Domino.

A mudança dos ventos

Em 1977, os filhos daqueles que entregaram a coroa a Elvis Presley assistiam à chegada do punk e seus "derivados" , com discos dos Sex Pistols (à terceira editora), dos Clash, dos Stranglers, dos Jam, dos Damned, dos Television, dos Ramones (em dose dupla), de Richard Hell, dos Wiredos Talking Heads, de Ian Dury e de Elvis Costello; aplaudiam e dançavam um omnipresente disco sound, com a banda sonora de Saturday Night Fever, com Chic, Gloria Gaynor, Isley Brothers, Commodores, Tavares, O"Jays, Donna Summer e Earth, Wind & Fire; testemunhavam o estertor do rock sinfónico (ou prog rock), com discos em queda de Yes, Emerson, Lake & Palmer, Gentle Giant e Jethro Tull, salvando-se os Pink Floyd (de Animals), que sempre foram outra coisa; festejavam um "bloco central" em que cabiam Bob Marley (Exodus), Tom Waits (Foreign Affairs), David Bowie (Low), Fleetwood Mac (Rumours), Sandy Denny (Rendez-Vous) e Peter Gabriel (em estreia a solo). Elvis perdera carisma e alcance, bem como a sensibilidade para repetir os anos gloriosos e as canções trepidantes de 1956 e 1957, quando levava as jovens à histeria e os moços à inveja.

Numa vida e numa carreira que parecem alicerçadas em ironias, uma das maiores fica ligada ao papel do seu empresário, Tom Parker, que se imiscuía em tudo, desde o reportório escolhido aos papéis cinematográficos de Elvis. Neste particular, tendo ele feito nada menos do que nove filmes com um realizador menor, Norman Taurog, que juntou este filão ao que reunia a dupla Jerry Lewis-Dean Martin, regista-se um erro crasso por década: Parker vetou Gata em Telhado de Zinco Quente (de 1958, na personagem que foi parar a Paul Newman), O Cowboy da Meia-Noite (de 1969, para sorte de Jon Voight) e Nasce Uma Estrela (1976, em benefício de Kris Kristofferson). Não há quem resista...

Outro dado: desde 1977 até hoje, foram publicadas 94 (!) compilações discográficas de Presley. O que permite dizer que, 40 anos depois de falecer, ele ainda figura entre os artistas musicais mais rentáveis do mundo. Morreu no mesmo ano que levou Maria Callas e Bing Crosby. Estava sozinho em casa, algo que, como se sabe, não acontece a um rei em exercício.

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