Pré-publicação de inéditos de Murakami escritos na cozinha

Em 1979, quando Haruki Murakami fechava o bar de jazz Peter Cat, sentava-se na cozinha a escrever o primeiro romance. Duas obras que nunca autorizou a edição no Ocidente até agora

A introdução de Haruki Murakami aos seus dois únicos livros que estavam proibidos de ser traduzidos no Ocidente explica o início da que é uma das mais importantes carreiras literárias na literatura japonesa. Conta como decidiu ser escritor, e como escreveu a novela Ouve a Canção do Vento. Não gostou do resultado e receou nunca vir a ser o autor em que sonhava tornar-se. Até que compreendeu que uma primeira tentativa não era o suficiente. Continuou a escrever, desta vez em língua inglesa para ver o resultado. Como não dominava o inglês, redigia frases simples e curtas. Descobre que assim tem uma narrativa com ritmo próprio e, ao traduzir-se para japonês, descobre o seu estilo. Um ano depois de finalizar a primeira novela, sabe que é um dos cinco finalistas do importante prémio da revista literária Gunzo. Como numa epifânia, acredita que afinal será mesmo o caminho da escrita aquele que vai percorrer. Segue-se Flíper, 1973; vende o bar e assume-se como escritor a tempo inteiro. Decisão de onde surge em 1982 a primeira obra mítica, Em Busca do Carneiro Selvagem.

Na primeira novela há um personagem, o Rato, que se lhe assemelha nas razões de escrever. Também estão lá todos os ingredientes que vão marcar os livros e não apenas a sua pré-história. Na introdução, Murakami explica a alegada traição ao seu idioma natal e garante que ter escrito em inglês não era mais do que "reduzir as descrições ao essencial e adotar uma densidade que coubesse naquele recipiente limitado" em vez de utilizar o "celeiro a abarrotar" do seu "sistema linguístico de expressões e vocábulos japoneses".

A tradutora destas duas novelas continua a ser Maria João Lourenço. Questionada sobre se o registo desta escrita inicial é muito diferente do posterior, responde: "Até eu própria fico espantada, confesso. A resposta é um redondo não. Antes de ser escritor, Murakami já o era. Antes de sonhar sequer em fazer sonhar os outros, isso já acontecia. As duas histórias são simples, porventura menos intrincadas, no que toca ao enredo e ao domínio da linguagem, mas o bom do Murakami está todo lá, em embrião. O novo Murakami está no velho Murakami, contado não se acredita!"

Os dois livros num só volume chega às livrarias segunda-feira, dia 13, pela editora Casa das Letras.

Pré-publicação de "Ouve a Canção do Vento":

A rapariga com nove dedos nas mãos e eu entrámos num restaurante que ficava mesmo junto ao porto; depois de termos petiscado qualquer coisa, pedimos um Bloody Mary e um bourbon.

- Queres que te conte a verdade? - perguntou-me.

- Sabias que no ano passado dissecámos uma vaca?

- A sério?

- Quando abrimos o abdómen, encontrámos um punhado de erva no estômago. Enfiei a erva num saco de plástico, levei-a para minha casa e despejei aquilo em cima da secretária. Desde então, se queres que te diga, sempre que algo me desagrada, olho para o montinho de erva por digerir e pergunto a mim próprio por que motivo comerão as vacas aquela bodega, dando-se ao trabalho de ruminar muito bem para depois deitarem tudo fora. A jovem soltou uma pequena risada. Depois, franzindo os lábios, ficou a olhar para mim, pensativa.

- Compreendi. Não te digo mais nada.

Aprovei com a cabeça.

- Tenho uma coisa para te perguntar - declarou ela.

- Pode ser?

- Força.

- Porque morrem as pessoas?

- É a evolução, minha querida. É preciso que as gerações se renovem, visto que um organismo individual não consegue resistir por si só à energia da evolução. Claro que isto não passa de uma teoria.

- Nesse caso, continuamos a evoluir?

- Passo a passo, sim.

- Porquê?

- As opiniões dividem-se. A única coisa que sabemos é que o Universo continua a evoluir. Vamos pôr de lado a questão de saber se existe alguma direção definida, ou se a intencionalidade intervém nesse processo... O certo é que a evolução é uma realidade e que, ao fim e ao cabo, não somos mais do que uma pequenina parte desse processo. Pousei o copo de bourbon e acendi um cigarro.

- E de onde vem a energia? Ninguém sabe.

- Estás a falar a sério?

- Sim.

Ela manteve o olhar fixo na toalha branca, mexendo o gelo no copo com a ponta dos dedos.

- Cem anos depois de eu ter morrido, se calhar, ninguém se recordará da minha existência.

- É muito possível - disse eu.

Saímos do restaurante e passeámos com vagar pelas ruas do bairro cheio de armazéns. A luz do crepúsculo conferia à paisagem contornos estranhamente vívidos. Caminhávamos lado a lado e eu sentia o perfume fugaz do creme amaciador para o cabelo usado por ela. O vento fazia oscilar as folhas das árvores, prenúncio do fim do verão. Passado pouco tempo, ela deu-me a mão. Refiro-me à mão que tinha os cinco dedos.

- Quando é que voltas para Tóquio?

- Na semana que vem. Tenho exames.

A rapariga calou-se.

- Quando regressar a casa, estaremos no inverno. Pouco antes do Natal. Faço anos no dia vinte e quatro de dezembro.

Ela assentiu. Dir-se-ia que pensava numa coisa diferente.

- Quer dizer que és Capricórnio?

- Sim. E tu?

- Também. Nasci a 10 de janeiro.

- Não se pode dizer que seja o melhor signo do zodíaco, pois não? Jesus Cristo também era Capricórnio.

- Tens razão - reconheceu ela, apertando-me a mão com mais força. - Acho que vou sentir saudades tuas.

- Voltaremos a ver-nos, de certeza absoluta.

Ela não se dignou responder.

Quanto mais avançávamos, mais velhos e degradados se mostravam os armazéns prefabricados. Por entre os tijolos, cheios de fendas, crescia um tapete de musgo verde-escuro. Recortadas na escuridão, as altas janelas estavam munidas de sólidas grades de ferro, e em todas as pesadas portas oxidadas figurava uma placa indicando o nome da respetiva empresa comercial. Chegados à zona onde se distinguia já o intenso cheiro a maresia, a fila formada pelos edifícios interrompia-se, deixando antever buracos ocos na paisagem que faziam lembrar falhas de dentes. Prosseguimos o nosso passeio em direção à zona portuária. Assim que transpusemos os carris da via-férrea, sentámo-nos nos degraus de pedra de um depósito, num local mais ou menos deserto que nos permitia contemplar o oceano.

À nossa frente erguia-se um estaleiro iluminado, permitindo distinguir um cargueiro grego com ar de se encontrar ao abandono, a julgar pela elevada linha de flutuação. O ar salgado do mar salpicara de ferrugem a pintura branca da coberta e viam-se centenas de conchas agarradas ao flanco do velho navio, fazendo lembrar crostas na pele de um doente.

Ficámos calados durante muito tempo, a observar o oceano, o céu e os barcos. À medida que o vento da tarde vindo do mar fazia estremecer a erva, o crepúsculo convertia-se lentamente numa noite luminosa e as estrelas começavam a tremeluzir ao longe, sobre a doca.

Após um longo silêncio, ela cerrou o punho e desatou a bater nervosamente na palma da mão direita até esta ficar vermelha, tantas foram as pancadas. Manteve sempre o olhar fixo na mão, como se lhe faltasse a coragem.

- Detesto toda a gente - atirou-me, vincando bem a frase.

- A mim também?

- Desculpa.

Corando, tornou a pousar as mãos sobre os joelhos, procurando recuperar o autodomínio.

- Tu não és odioso.

- Pelo menos, não sou tão odioso quanto isso, certo?

A frase teve o condão de lhe arrancar um sorriso fugaz. Concordando, acendeu um cigarro: reparei que a mão dela tremia. O fumo flutuou na brisa marítima e agitou-lhe os cabelos, fundindo-se com as trevas.

- Quando estou sozinha, oiço vozes que falam comigo...

Pessoas conhecidas, pessoas que não sei quem são, o meu pai, a minha mãe, os professores.

Fiz sinal de estar a compreender a mensagem.

- Na sua maioria, dizem coisas pavorosas. Do género:

«Espero que morras», ou outras que tais, igualmente terríveis.

- Terríveis como?

- Custa-me repetir.

Usou a sola da sandália para apagar o cigarro acabado de acender. A seguir, pressionou suavemente as pálpebras com a ponta dos dedos.

- Achas que estou doente?

- Torna-se difícil dar uma opinião - disse eu, abanando a cabeça para reforçar a minha ignorância na matéria. - Se estás preocupada, porque não vais ao médico?

- Não te preocupes, isto passa.

Pré-publicação de Flíper, 1973

Cada dia era uma repetição a papel químico do anterior. Uma pessoa precisava de um marcador para os distinguir.

Naquele dia, em concreto, já cheirava a outono. Apareci no escritório à hora habitual, mas, quando voltei para casa, as gémeas tinham desaparecido do mapa. Enfiei-me na cama de peúgas, acendi um cigarro e entreguei-me aos devaneios. Tentei pensar numa data de coisas, mas não fui capaz de reter nada na minha cabeça. Suspirando, sentei-me e fixei o olhar na parede branca à minha frente. Sentia-me como que bloqueado. Disse para mim próprio que não podia ficar eternamente a olhar para aquela parede, mas isso não ajudou. Quem tinha razão era o meu professor de mestrado. «Escreves bem», costumava ele dizer, «e tens um raciocínio claro, mas falta-te substância.» Era esse o meu problema. Agora que me encontrava sozinho pela primeira vez desde há uma data de tempo, não sabia o que fazer com a minha pessoa.

Aquilo tinha o seu quê de estranho. Vivera sozinho anos a fio e sempre partira do princípio de que me safava lindamente. No entanto, já não me lembrava bem. Vinte e quatro anos não podiam desvanecer-se assim, como que por magia. Tinha a sensação de estar à procura de qualquer coisa, se bem que me tivesse esquecido do objeto em questão. Um abre-garrafas? Uma carta antiga? Uma fatura? Uma cotonete?

Com um suspiro desalentado, peguei no livro de Kant que tinha em cima da mesa de cabeceira, e foi nessa altura que, de entre as suas páginas, caiu um bilhete. Era a letra das gémeas. «Fomos dar uma volta pelo campo de golfe», só dizia isto. Fiquei preocupado. De noite, o campo de golfe estava longe de ser um local recomendado a neófitos. Nunca se sabia quando é que uma bola de golfe podia atingir-nos.

Calcei os ténis, pus uma camisola de malha pelos ombros e saí de casa. Saltei por cima da vedação metálica que delimitava o campo de golfe. Atravessei uma encosta suave, contornei o buraco 12, deixei para trás a zona de descanso, atravessei o pequeno bosque e continuei sempre em frente. Era fim de tarde, o Sol punha-se sobre as árvores no limiar oeste do campo, projetando-se sobre a erva. Na areia, em cima do obstáculo em forma de bunker, junto ao buraco 10, encontrei um pacote de bolachas de nata e café vazio: tudo indicava que tinham sido as gémeas a deixá-lo ali. Amarrotei-o, fiz uma bola com ele e enfiei-o no bolso, e, à medida que retrocedia, esforcei-me por apagar as nossas pegadas. Atravessei uma pequena ponte de madeira sobre o riacho e, depois de subir um montículo, fui dar com as duas. Encontrei-as sentadas ao lado uma da outra, entretidas a jogar gamão no meio da escada rolante que existia na colina oposta.

- Não vos disse que era perigoso andarem por aqui sozinhas? - perguntei-lhes.

- Sim, mas estava um pôr do Sol lindíssimo - justificou-se uma das gémeas.

Descemos juntos pela escada rolante até ao campo coberto de susuki, sentámo-nos na relva e assistimos ao poente até ao fim. Ela tinha razão. Era, de facto, um espetáculo maravilhoso.

- Não deviam atirar lixo para o chão - repreendi as duas.

- Desculpa - disseram as gémeas em coro.

- Uma vez, feri-me a brincar na areia, quando andava na primária. - Mostrei-lhes a cicatriz fina na ponta do indicador da mão esquerda. Tinha cerca de sete milímetros e parecia um fiozinho branco. - A culpa foi de alguém que se lembrou de enterrar uma garrafa partida de ginger ale na areia.

Acenaram as duas, manifestando a sua cumplicidade.

- Bem sei que ninguém corre o risco de se cortar com um pacote de bolachas, mas não é de bom-tom depositar lixo num campo de jogo. Os terrenos cobertos de areia são sagrados e, como tal, não devemos conspurcá-los.

- De acordo - disse uma delas.

- Vamos passar a ter cuidado - disse a outra. - Tens mais alguma cicatriz?

- Claro que sim. - Mostrei-lhes então as cicatrizes espalhadas pelo corpo. Um autêntico catálogo de marcas bizarras. O olho esquerdo, onde apanhara em cheio com uma bola de futebol. (Ainda tinha a marca na retina.) Uma cicatriz na ponte do nariz, também por causa do futebol: preparava-me para dar um toque de cabeça quando choquei contra os dentes do meu adversário. Tinha ainda levado com sete pontos no lábio inferior, ao cair da bicicleta. Tudo para evitar um camião. Sem esquecer aquele dente partido...

Permanecemos estendidos na relva fria, a ouvir a canção do vento, que fazia oscilar ao de leve as espigas de susuki.

Ao anoitecer, regressámos ao apartamento e jantámos juntos. No tempo que demorei a tomar duche e a beber uma cerveja, elas puseram três trutas no forno, e então demos início à refeição. A comida dava e sobrava para os três: além das trutas, tínhamos como acompanhamento espargos de conserva e um grande molho de agriões. A truta tinha um sabor que me fez recordar velhos tempos - o cheiro dos caminhos montanhosos no pino do verão. Mastigávamos calmamente a comida, manuseando sem pressas os pauzinhos. Grossos como lápis, restaram apenas as espinhas brancas do peixe e os talos dos agriões nos pratos. As gémeas lavaram a loiça logo a seguir e fizeram café.

- Temos de conversar acerca do quadro de distribuição - disse. - Essa história deixa-me nervoso.

Elas concordaram com a cabeça.

- Porque é que acham que está a morrer?

- Porque absorveu mais do que devia.

- Sim, e acabou por rebentar...

Com a chávena de café na mão esquerda e o cigarro na direita, refleti no assunto.

- Será que podemos fazer alguma coisa?

As gémeas fitaram-se por momentos e abanaram a cabeça.

- Não, é demasiado tarde.

- Deve estar reduzido a cinzas.

- Alguma vez viram um gato com septicemia?

- Não - responderam as duas à uma.

- De início, fica com as patas e o rabo hirtos, como uma pedra. Demora uma eternidade. Por fim, o coração deixa de bater.

Suspirei.

- Não quero que ele morra.

- Compreendemos como te sentes - declarou uma delas. - Mas deve ser um fardo demasiado pesado para ti.

Falava sem sentimentalismo, no mesmo tom ligeiro com que poderia estar a dizer que nevara pouco e que não tínhamos hipóteses de fazer esqui naquele inverno. Desisti da conversa e bebi o resto do café.

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