"Podemos ir a todo o lado com Miles - depende das drogas"

Entrevista a Don Cheadle, ator e realizador do filme "MIles Ahead".

Costuma dizer-se que os filmes mais pessoais são trabalhos de amor. Com todas as complicações desta produção acredito que neste caso tenha sido um trabalho de dor.

Digamos que foi um parto! Todos os partos têm dor e amor. Foi uma maneira desafiante de conceber um filme. Tive de me desdobrar em todas as funções. Se há três anos tivesse desistido talvez até tivesse ficado aliviado. Tinha muita responsabilidade sob as minhas costas mas a única forma de Miles Ahead ser feito passava realmente por assumir tudo neste projeto. Agora, feitas as contas, ainda bem que insisti.

Porque razão foi tão complicado arranjar financiamento para um projeto sobre Miles Davis?

Por muitas razões! Para as mentes dos investidores um filme sobre jazz quer dizer um público muito restrito. Além do mais, é um filme negro e do ponto de vista de Hollywood estes filmes não viajam para fora dos EUA... Enfim, todas as razões para esta indústria recusar o projeto. Tinham todas as razões para dizer não e nenhuma para dizer sim. É a vida...

Ficou espantado pela sua perícia técnica como realizador? Este resultado final surpreende-o?

Sempre tive muita confiança nas minhas capacidades. Realizar para cinema não é muito diferente deque realizar para televisão. Aliás, não senti muitas diferenças de quando dirigi anúncios ou peças de teatro. Sou um realizador que não acredita muito nas hierarquias em cinema, mesmo apesar de ter obviamente a última palavra. Sinceramente sinto que tentamos resolver as cenas em conjunto.

Em termos de interpretação, tem aquele distanciamento para perceber que esta é uma das sua melhores interpretações?

Não consigo, não me cabe a mim. Raramente olho para o filme, já há muito que não lhe ponho os olhos em cima. Ver-me num cinema não é uma situação que me deixe confortável. Só espero que os outros gostem e , claro, fico contente quando ouço dizer que estou muito bem.

Para onde o transporta o som de Miles Ahead?

Podemos ir a todo o lado com Miles, mas depende da música, depende do meu mood e das drogas que tomei nessa manhã...[risos]. Mas musicalmente sou transportado para todo o lado com todos os géneros que tocou, de material mais tradicional ao som de Miles Ahead, passando por Circle in The Round, So What e tantos outros estilos... Miles tocou tantas expressões diferentes! Ele conseguia chegar aí. Miles tem sempre a música apropriada para cada um de nós.

Está curioso em ver Born to Be Blue, de Robert Budreau, a biografia de Chet Baker?

Estou, espero que seja bom. Sabe, o Ethan Hawke é um amigo, espero que seja um sucesso.

Está em crer que toda a controvérsia sobre a questão racial em Hollywood e na Academia pode realmente mudar algo?

Vamos ver... É uma daquelas situações que só o tempo o vai dizer. Se para o ano houver muitas nomeações para afro-americanos vão falar em cabala! Mas não vai haver mudanças radicais. Não acredito que coletivamente os votantes digam: "eh pá, vamos ter de fazer algo para mudar a situação", acho que vão continuar a votar da mesma maneira.

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