Pianista Pedro Costa estreia-se hoje no Festival ao Largo. É um prémio

O músico do Porto, a estudar na Áustria, venceu o concurso do Estoril em 2013. Um dos prémios era o concerto desta noite

Cá fora, está uma azáfama. Montam-se o palco, os cabos, as luzes, o cenário... Dentro do Teatro de São Carlos, os músicos preparam a edição deste ano do Festival ao Largo, que arranca esta sexta-feira, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a maestrina Joana Carneiro e, como solista, o pianista Pedro Costa. O músico faz uma pausa no ensaio para as fotografias. Um dia de ensaios, com indicações a rever, que continuará quando a entrevista termina, no estúdio desta histórica sala de espetáculos, grande e vazio, onde poderá trabalhar na peça de Maurice Ravel, com que se estreia esta noite.

O compositor francês é um dos preferidos de Pedro Costa e foi proposta sua, aceite por Joana Carneiro e pela Orquestra Sinfónica Portuguesa, entre o repertório disponível. "Ele usa muita influência jazzística, material que absorveu da cultura norte-americana, mas também outras culturas como a do País Basco, onde viveu na infância. E depois há o lado impressionista francês, que torna o concerto bastante humorístico, mas também bastante profundo, de uma beleza pura", refere. "Acho que me cai bem. É um dos meus concertos preferidos", ri-se.

É o remate de uma noite que começa com Abertura Sinfónica nºs (1954)do compositor português Joly Braga Santos e continua com as Symphonic Dances, de Leonard Bernstein, extraídas em 1960 do musical West Side Story (1957). O concerto repete amanhã, também às 21.30 e também de entrada livre, como, de resto, todo o festival.

A participação de Pedro Costa no Festival ao Largo é um ajuste de contas, sem qualquer carga pejorativa. Tocar neste palco é parte do prémio atribuído ao vencedor do Concurso de Interpretação do XV Festival do Estoril.

Pedro Costa ganhou em 2013, mas, por várias razões, ainda não tinha participado no festival, junto ao Teatro de São Carlos, no coração da cidade de Lisboa. "Um dos prémios era tocar com várias orquestras. Uma das orquestras era esta, integrado no Festival do Estoril e no Festival ao Largo", precisa. "Entretanto, era para ser em 2014, atrasou, as programações não estavam a bater certo, mas este ano tudo se conjugou", conta.

"Tocar no festival ao Largo com a maestrina Joana Carneiro é uma responsabilidade. Tive a sorte de ganhar alguns concursos [Prémio Helena Sá e Costa, o Concurso Louis Spohr, na Alemanha, o Concurso New Tenuto, na Bélgica, o Concurso Florinda Santos e o Concurso Internacional Cidade do Fundão] e tenho tido concertos com orquestras, mas mais pequenas, não com esta dimensão, e é uma honra", assume o músico, de 27 anos. No ensaio, a maestrina pediu-lhe "para ir com mais calma".

Pedro Costa está, há dois anos, a fazer um segundo mestrado em acompanhamento de canto, em Graz, na Áustria, aluno do professor Joseph Breinl, com vista a tornar-se acompanhador numa escola ou universidade. "É uma área em que me quero especializar já há algum tempo", justifica. No próximo ano, as aulas serão com outro professor, o britânico Julius Drake.

Admite a principal dificuldade a enfrentar esta noite: voltar a ser solista. "De repente, é uma ribalta, uma responsabilidade tão grande. Ao princípio sofri um bocadinho, tive de fazer o clique de solista", revela. "Mas eu já passei por isto, tenho de conseguir lidar e consigo lidar , mas perdi um pouco o hábito de tocar como solista, de ganhar esse protagonismo", reflete. "Gosto de passar despercebido".

Custa-lhe ter todo o protagonismo. "Gosto de tocar com outras pessoas", afirma, trazendo para a conversa a expressão anglo-saxónica usada para referir aqueles que tocam com outros, pianista colaborador. "Sofro um bocadinho com nervos, toda a gente sofre, mas sinto-me mais à vontade a tocar com outras pessoas. Cantores, o que aconteceu por acaso, mas também outros instrumentistas". Elogia os primeiros. "É a mistura da palavra, é música pura e formas pequenas. A poesia é única".

O caminho de Pedro Costa começou cedo, aluno de Suzana Ralha na escola Os Gambozinos (e de Anne Marie Soares no Conservatório do Porto) . "No 9.º ano, cheguei a inscrever-me em Ciências, mas havia qualquer coisa que não batia certo". Pedro fez o exame do 5.º grau, teve a nota máxima e a professora Suzana Ralha lembrou-se que tinham aberto vagas para piano na Escola Profissional de Espinho, com Fausto Neves. Mudou tudo numa semana. "De repente, fez tudo sentido".

Seguiu-se a licenciatura na ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo), o Erasmus no conservatório flamengo de Bruxelas e o regresso, condicional, ao Porto. "Gostei tanto de Bruxelas que fiz um quinto ano no Porto e, ao mesmo tempo, em Bruxelas". Uma vez por mês, ia à Bélgica. Elogia o professor, Piet Kuijken. "Senti-me mesmo muito bem em Bruxelas. Não sei se foi o estar pela primeira vez fora de casa, numa cidade europeia, central, essa liberdade fez com que quisesse sair de Portugal. Senti-me mesmo muito bem. Há uns meses fui a Bruxelas e pensei: esta é a minha cidade, tenho de voltar para cá".

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