Personagens de carne e osso numa obra que é toda sugestão

A temporada lírica do Teatro São Carlos "muda-se" para o CCB para Tristão e Isolda, a famosa ópera de Richard Wagner, com Elisabete Matos na protagonista. Só amanhã e domingo

Pela primeira vez com cena em 23 anos, volta a Lisboa Tristão e Isolda, quiçá a mais carismática de todas as óperas. Não duvida disso o inglês Charlie Edwards, elogioso sem reservas: "De certo modo, era o sonho da minha vida! Já a ouço desde os 16 anos, tenho 52, portanto há um longo convívio [risos] Agora que o fiz, percebo por que certos encenadores declaram: "nunca encenarei o Tristão". Mas eu espero regressar um dia a esta ópera, pois ela é inexaurível sob todos os aspetos". Modalidade desse regresso seria "repôr esta produção aqui em Lisboa, porque duas récitas é muito pouco para o imenso trabalho de todos os envolvidos - e ao que sei, as récitas já estão esgotadas, o que mostra que há muito público para Wagner em Lisboa. E seria fácil repô-la!"

Sobre esta produção, Edwards fala de "uma abordagem simples, clara e direta que põe em relevo a jornada psicológica encetada pelos protagonistas". Para tal, "quis pôr os cantores em contacto muito próximo com o público, para que seja claro para este o que eles sentem e os retratos emocionais muito intensos que vão sendo criados". No par protagonista, refere "o progressivo obscurecimento de Isolda - até à irrupção final - e o gradual desvelamento de Tristão no decurso da ópera". Declara-os "quase da mesma idade, mas Tristão é bem mais experiente e ele vai induzindo Isolda para a sua mundividência, canalizando o seu desejo de morrer para um amor cuja magnitude é vivível apenas num Além". Chama "rebeldes" aos amantes, pois "quebram as regras e "habitam" um outro planeta", afirmando ainda que "é desejo do próprio Wagner, qual feiticeiro, levar o público também a habitar esse planeta."

Contrariamente ao que se poderia pensar, "não é de modo algum uma tragédia o que sucede a Tristão e a Isolda. Eles não o sentem de todo como tal, e nesta produção nada há de visivelmente trágico no desfecho da ópera", referindo-se a esse final como "situado já num Além onde o amor deles enfim se cumprirá", a "morte de amor" de Isolda sendo "uma transfiguração, como se ela acompanhasse a sua própria alma para o lado de lá. E é desse "lá" que ela canta", sendo esse o fim desta "jornada catártica para uma diferente concepção do mundo".

Algo de muito semelhante afirma o soprano Elisabete Matos, que em Lisboa canta a sua quarta Isolda: "Aquele é um amor visceralmente puro, é transcendental, só vivível num plano outro que não o terreno". Elisabete vê Tristão e a sua Isolda "em dois mundos não fundíveis: ele no sonho e na noite, ela na luz. E no final, quando ele morre, ela sente-o intimamente nesse além que é luz".

Viver Isolda em palco "exige uma completa fusão com quem temos diante e nos fala. Tem de haver algo de físico em cada palavra pronunciada. É mesmo contracenar". A isto junta-se a dificuldade do papel: "há uma potência vocal que tem de estar sempre lá, mas que é preciso administrar, para chegar com a cor vocal ideal ao Liebestod. Depois, a Isolda "conhece" várias personalidades vocais no decurso da ópera e é preciso defini-las com clareza".

Elisabete confessa "ter muito de Isolda" em si, pois "o amor é para mim muito este romantismo exacerbado, este deslumbramento e esse desprendimento total de tudo quanto é terreno". A grande diferença é que "eles compreendem o sítio onde poderão enfim viver o seu amor e as implicações disso fazem sentido para um e outro".

Tal como o encenador, Elisabete acha "sem sentido" haver só duas récitas, diz que fazer esta ópera no CCB "sala que não conhecemos e nas condições que tivemos, comporta em si demasiadas incógnitas para poder haver a serenidade indispensável" e insurge-se com " a decisão de fazer um intervalo de uma hora na primeira récita: "Foi uma ideia infeliz. Quebra a atmosfera, a concentração, e eu fico quase duas horas à espera de reentrar!"

Tristão e Isolda

Direção musical: Graeme Jenkins
Encenação: Charlie Edwards
Matos (Isolda), Caves (Tristão), Sigmundsson (Rei Marke), Rodrigues (Kurwenal) et al., Coro TNSC, Orquestra Sinfónica. Portuguesa
Grande Auditório do CCB, amanhã, 18.00 e domingo, 15.00
espetáculos esgotados

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