Patxi Andión canta José Afonso

O espanhol relembra o português, nesta versão dos jogos sem fronteiras em que ninguém sai a perder. O homem de Madrid volta a (outra) casa.

Patxi Andión, oficialmente nascido em Madrid há 69 anos (embora se reclame, uma das vozes que ajudaram - há mais de 40 anos - a mudar a ideia e o prazer que associávamos à canção espanhola, gosta de lembrar que conheceu José Afonso na véspera de ser expulso de Portugal. Pela PIDE, evidentemente. Pode até pensar-se que a feroz perseguição à obra do antigo professor de Liceu não terá sido alheia a esse empurrão para lá da fronteira ao futuro professor de Sociologia. Fosse como fosse, Patxi insistiria em voltar e em se encontrar com o criador de Era Um Redondo Vocábulo, como terá acontecido exatamente um mês antes do 25 de Abril - a 24 de março de 1974 - num Coliseu dos Recreios a deitar por fora.

Agora, o espanhol - que já gravou pelo menos um fado de António Santos, Minha Alma d"Amor Sedenta, e contribuiu para um marcante dueto, Vaga No Azul Amplo Solta, com poema de Fernando Pessoa e melodia do próprio Patxi, no disco Para Além da Saudade, de Ana Moura - passa a um estado superior de luta: convoca uma série de cantigas do criador português, morto há precisamente 30 anos. O título genérico do espectáculo que traz de volta Andión, três vezes no espaço de um mês, não podia ser mais claro: Zeca no Coração.

Aqui, a única dúvida reside na justeza da ideia de "regresso", uma vez que o dono da voz de El Maestro ou Una, Dos y Tres sempre disse sentir-se entre nós como apenas "mais um". Para aqueles que tendem a desvalorizar palavras e a sublinhar feitos, há um dado indesmentível nesta proximidade: na sua extensa discografia, com 14 álbuns gravados entre 1969 e 1986, um ali no meio dos anos de (quase) silêncio, em 1998, e mais dois desde a "retoma" - esperando-se agora novidades, num futuro que poderá chamar-se Atiempo -, só figura um disco ao vivo, registado em 2011 e publicado em 2014. O curioso desta história está no facto de Patxi ter escolhido como base os seus espetáculos (de Maio de 2011) na Guarda, na Figueira da Foz, em Lisboa e no Porto. Que é como quem diz, todos em Portugal.

Contraste de vozes

Uma das grandes aliciantes destes concertos estará, seguramente, no teste que volta a ser feito às criações de José Afonso, já adaptadas e regravadas tantas vezes (e talvez valha a pena recordar esse notável Filhos da Madrugada, com os filhos do rock, e não só, a chamarem a si as canções do homem que começou por ser fadista de Coimbra e baladeiro, para depois se transformar numa força universal), mas sempre disponíveis para uma nova aventura. Neste caso, há um desafio evidente: fazê-las saltar da voz aguda e vibrante do seu autor para o tom grave e rouco de Andión. Uma tonalidade que o seu proprietário sugere ter sido adquirida "caminando". A frase, elucidativa, é esta: "Na aldeia em que cresci, havia uma Igreja. E oito tabernas".

Popularizado pela música, omnipresente e eficaz durante a década de 1970, Patxi tem livros publicados (ficção, poesia, caça - isso mesmo, caça) e uma filmografia considerável. Foi logo ao segundo filme, La Otra Alcoba (1976), que conheceu a sua primeira mulher, a actriz e modelo malaguenha Amparo Muñoz, considerada a mais bela mulher de Espanha na sua época e, sem coincidências, eleita Miss Universo em 1974. Este matrimónio e algumas opções profissionais mais "fora da caixa", como o desempenho papel principal na versão espanhola do musical Evita, afastaram Patxi da sua "zona de conforto", inclusivamente política. Preferiu tornar-se professor de Sociologia e de matérias relacionadas com a comunicação e a produção artística. Só em 2009, já dobrados os 60 anos, optou por um novo e continuado mergulho na música, ao editar o álbum Porvenir, muito saudado pela crítica.

Nas suas escalas portuguesas, além do abraço ao património de José Afonso, não deverá deixar de fora algumas das suas criações que ainda hoje lhe valem uma identificação rápida e um aplauso prolongado. A nós, dá-nos mais uma oportunidade de provar que aquela patetice das costas voltadas para o vizinho foi vencida de vez e à custa da viva voz, como esta.

Concertos

2 de junho, 21.00, Centro Cultural de Belém, Lisboa

Bilhetes de 20 euro a 50 euro

5 de junho, 21.00

Casa da Música, Porto

Bilhetes a 30 euro

28 de junho, 21.30

Feira de São João, Évora

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