Ouviu-se cante alentejano na Gran Vía de Madrid

Na apresentação do Festival Terras Sem Sombra houve música em petiscos na capital espanhola

"Esta é a maior concentração de alentejanos em Madrid", comenta um dos cantadores no final do concerto. E é bem capaz de ter razão. A Sala das Columnas do Círculo de Belas Artes de Madrid, em Espanha, recebeu no sábado à noite o espetáculo "É tão grande o Alentejo". No palco, estiveram o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento, Os Ganhões e os Moços d'Uma Cana. Mais de 60 cantores e músicos para apresentar à capital espanhola o cante alentejano numa iniciativa do Festival Terras Sem Sombra.

A noite tinha começado na varanda do edifício, com vista para a Gran Vía, onde os homens cantaram todos juntos "É tão grande o Alentejano". Foi apenas um aperitivo para o concerto, com entrada gratuita e lotação esgotada, em que os grupos fizeram uma viagem pelas várias modas - de festa e de trabalho. Terminado o espetáculo quase não há espaço para nos movimentarmos no átrio do quarto andar do Círculo de Belas Artes, um edifício do inicio do século XX, de salões faustosos e enormes lustres. Além da música, a organização do Festival Terras Sem Sombra trouxe uma mostra gastronómica e, entre queijadas de Castro Verde, queijos de Serpa, ferreirenses de Ferreira do Alentejo, alcôncoras de Odemira, mel de Montemor o Novo e vinho de várias terras alentejanas, ninguém parece querer arredar pé.

E enquanto se come, canta-se. "Isto é sempre assim. Onde nós estamos, estamos sempre a cantar", diz Matias Preto, 67 anos, "filho do melhor cantador de sempre, que foi Bento Soares Preto". Matias aprendeu a cantar com o pai, claro está. "Eu era mais para o futebol, mas como trabalhava com o meu pai, na moagem da farinha ou no olival, aprendi a cantar. Iamos varejando e cantando." Hoje em dia, ainda é assim é muitas localidades. Junta-se um grupo de homens e é certo que há de haver algum que lança um "quero uma gotinha de água" ou outra qualquer. "A gente junta-se na taberna ou onde for e cantamos. Eu ando sempre a cantar, mesmo sozinho, quando passeio pela rua", diz Manuel Gonçalves, 74 anos, o mais antigo elemento dos Ganhões, de Castro Verde.

Isto é sempre assim. Onde nós estamos, estamos sempre a cantar

Fora do palco, Álvaro Mira volta a agarrar-se à bengala. Tem 72 anos e é um dos pontos dos Ganhões. "Já não tenho idade para estas aventuras", comenta, sorrindo, ao descer a enorme escadaria do Círculo de Belas Artes. Leandro Guerreiro, de 15 anos, o mais novo do grupo, chama-lhe "mestre Álvaro". No cante, são tradicionalmente os mais velhos que ensinam os mais novos, mas também há espaço para experimentar coisas novas, explica Luís Serrano enquanto aproveita para vender Cds do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de Sã Bento. Já vendeu quase 20 discos a 10 euros cada. E revela: "Já estamos a gravar o nosso próximo disco em que cantamos com o António Zambujo, o Miguel Araújo, a Luísa Sobral, Ana Moura, Virgem Suta e Dead Combo." Há de sair em novembro. "As pessoas pensam que o cante é só aquelas modas mais conhecidas mas nós fazemos muitas coisas diferentes."

Damian e Tónia vêm dar os parabéns aos cantadores. São espanhóis e adoram o cante alentejano. Damian nasceu e cresceu perto do Rosal de la Frontera e, mesmo agora, que já mora há mais 30 anos em Madrid, não abandonou as suas raízes: "Sempre que lá vamos, aproveitamos para ir a Serpa. Vamos sempre na Semana Santa", conta Tónia. "Vamos comer ao Lebrinha e ao Pedra de Sal. E ouvimos sempre o cante." Desta vez não tiveram que viajar. O cante veio ter com eles. "Gostámos muitíssimo."

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