Ouvem-se as pancadas de Molière nos 170 anos do D. Maria II

Estreia em dia de festa O Impromptu de Versalhes, peça de Molière que o encenador Miguel Loureiro transformou num delírio sobre a condição do ator e a história do teatro

A trupe atravessa a sala em alvoroço. Um violino, uma canção em francês, Fascination, que um deles vai traduzindo mal do francês. Há cabeleiras postiças, figurinos estilizados a fazer lembrar vagamente a corte de Luís XIV, atrizes que têm bigodes pintados na cara para fazer de homens. Ainda mal começou o espetáculo e já sabemos que estamos a entrar numa viagem pela história do teatro que nos há de levar até ao século XVII de Molière e ao Palácio de Versalhes e de volta ao Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, no ano de 2016 - no dia em que este teatro comemora os 170 anos. Ouvem-se as famosas pancadas. E este é O Impromptu de Versalhes.

O encenador Miguel Loureiro, que interpreta também o papel de Molière, explica que para perceber o Impromptu, texto escrito pelo dramaturgo francês em 1663 como um divertimento para o rei (impromptu pode ser traduzido por improviso), é preciso recuar até à Escola de Mulheres, que Molière escreveu um ano antes e em que faz uma série de insinuações sobre alguns dos nobres - uns eram corruptos, outro impotente, etc. A peça foi um êxito mas caiu muito mal na corte e Molière foi bastante atacado pelos seus rivais, como Donneau de Visé, Boursault e Montfleury. Ele fez então uma "autocrítica", mas todos percebem que ele está a fingir. Boursault faz então o Retrato de Um Pintor, em que ridiculariza Molière e a sua companhia.

"Depois o Molière quer ficar por aí mas o Luís XIV insiste com ele para dar uma resposta, então ele faz um pequeno divertissement, quando vai a Versalhes, que é o impromptu", explica Miguel Loureiro. Aqui, os atores do Illustre Théâtre fazem de atores que estão a ensaiar um espetáculo para o rei, debatendo-se com a falta de tempo e com inúmeras discussões sobre a forma certa de representar e de fazer teatro. E, por isso, Loureiro, além de incluir no espetáculo excertos da Escola e da Crítica, ainda achou por bem colocar também um excerto do Paradoxo sobre o Ator, de Diderot.

"Isto já era teatro dentro do teatro mas aqui ainda temos mais uma camada, que somos nós, estes atores que aqui estão e que estão a representar aqueles atores que também são verdadeiros e têm a sua própria biografia", diz o encenador. E é aqui que reside o grande divertimento. Pois não são poucas as vezes em que os atores falam de si mesmos, com referências (e algumas alfinetadas) ao meio teatral português. Veja-se o momento dedicado à atriz Maria Amélia Matta, que integra o elenco residente do D. Maria II, e de quem Miguel Loureiro se assume fã.

"Este é um texto muito utilizado na história do teatro porque permite dar um vislumbre do que seria a orgânica interna de uma companhia naquele tempo e as relações quer com o estado quer com o meio artístico da altura. E isso é muito engraçado", explica o encenador. Uma das questões que está por trás disto tudo e que ainda se mantém atual é "quando é que vamos além da crítica ao outro, onde fica essa fronteira da ética".

Na velocidade dos ensaios, na vertigem das referências e nas mudanças de personagem, entre danças à la Lully e desatinos do encenador Molière, desesperado com os seus atores "canastrões", é provável que às vezes os espectadores menos dentro dos meandros do teatro se percam. A esses, Miguel Loureiro deixa um conselho: "É perder-se. A minha ideia era não estar a justificar dramaturgicamente quando entramos numa camada mais para dentro. É fazer o mise en abyme, entrarmos e pronto. Há momentos em que as coisas se misturam todas. É deixar ir." Ou como diria o outro encenador, o da peça dentro da peça, On y va?


O Impromptu de Versalhes

Encenação de Miguel Loureiro

Com Álvaro Correia, Carla Bolito, Lúcia Maria, Maria Amélia Matta, Maria Duarte, Miguel Loureiro, e Maria do Mar (violinista), entre outros.

Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa

Até 30 de abril

Bilhetes: 5/17 euros. Hoje, os bilhetes são gratuitos e estarão disponíveis a partir das 11.00. Limite de dois bilhetes por pessoa.

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