Os equilíbrios (im)possíveis de Mozart e Salieri

Pedro Carneiro dirigiu no Centro Cultural de Belém a Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP) numa produção semi-encenada de duas pequenas óperas dos dois compositores

A Orquestra de Câmara Portuguesa organizou o seu "batismo" operático de forma no mínimo original. As obras eram Prima la musica, poi le parole, de Salieri e Der Schauspieldirektor, de Mozart: uma pequena opera buffa e um pequeno Singspiel que estrearam em simultâneo à laia do despique ópera italiana/ópera alemã, em 1786. No Grande Auditório do CCB, elas foram dadas em versão semi-encenada (responsável: Teresa Simas), sem os recitativos (à exceção de um) e com intercalações textuais originais (da autoria de Teresa Simas e Pedro Carneiro).

O resultado foi um espetáculo certamente engraçado, conceptual e visualmente atraente (bonitas luzes!), que entretém e é acessível aos neófitos, mas em que as óperas passaram em demasia a pretexto do todo, em vez da "matéria em si". Teresa Simas e Pedro Carneiro expressaram a intenção de levar este espetáculo em digressão. Potencial não lhe falta e seria outrossim bom, pois permitiria afinar o conceito subjacente, seja recentrando-o mais nas óperas, seja assumindo de vez um formato "outro", "meta-". Ou vir a achar mesmo, quem sabe, o justo compromisso!

Nos cantores, Luís Rodrigues foi aquele onde a díade prestação vocal/desempenho teatral esteve ao nível mais alto. Mário Alves esteve mais discreto e Diogo Oliveira mais limitado no plano histriónico. Senhoras teatralmente em bom plano, mas Carla Caramujo teve ocasionais deslizes de intonação (e agudos às vezes menos bem timbrados), enquanto que Cristiana Oliveira se mostrou mais oscilante no tempo e com projeção menos clara.

Um prazer, sempre, foi ouvir a OCP - para mais, em repertório do Classicismo! A disposição dos músicos em bancada mais beneficiou a distinção das várias estantes, acrescendo à propriedade da textura. E na eterna questão Salieri vs. Mozart, este "gémeos" são, logo pelas respetivas Aberturas, a prova dos anos-luz a que a escrita orquestral de Mozart estava (à frente, óbvio...) da do seu colega-rival vienense.

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