Cahiers du Cinéma. Os cadernos essenciais do cinema

Antes da entrevista de Truffaut, a agitação entre os colaboradores dos Cahiers du Cinéma já fazia crescer o respeito por Hitchcock

"Hitchcock é um dos maiores inventores de formas em toda a história do cinema." Afirmar uma coisa destas em 1957, quando Alfred Hitchcock era considerado, no sentido mais popular e por vezes pejorativo, o mestre do suspense, foi um golpe de bravura teórica. Quem o desferiu em uníssono foram Claude Chabrol e Eric Rohmer (então, críticos dos Cahiers du Cinéma) num livro intitulado simplesmente Hitchcock. Por essa altura, o realizador inglês ainda não tinha concebido alguns dos filmes que hoje constam no vocabulário de qualquer cinéfilo, como A Mulher Que Viveu Duas Vezes (1958), Psico (1960) ou Os Pássaros (1963). Hitchcock estava integrado no sistema de Hollywood, e as entrevistas que dava encorajavam a leveza do epíteto de "realizador de policiais". Nesse pequeno livro, da coleção Classiques du Cinéma, organizada por Jean Mitry (lamentavelmente, ainda sem tradução portuguesa), sublinha-se um primeiríssimo olhar conceptual e apaixonado sobre as 44 obras que, até 1957, compunham a sua filmografia.

Repare-se que, antes da entrevista seminal de François Truffaut (feita em 1962, mas com publicação apenas em 1967), recuperada agora no labor do documentário de Kent Jones, Hitchcock já era, aqui e ali, defendido pelos críticos franceses dos Cahiers du Cinéma. Logo no número um da revista, de 1951, Alexandre Astruc elogiava um dos seus filmes mais desconsiderados, Sob o Signo de Capricórnio (1949), e no prefácio da famosa edição especial n.º 39, com Grace Kelly e Robert Cummings na capa, em Chamada para a Morte (1954), usou mesmo o termo "autor de filmes", para rematar a sua admiração pela linha singular do estilo hitchcockiano. Além dos já referidos jovens colaboradores dos Cahiers (Rohmer assinava Maurice Schérer), também Jacques Rivette e Jean-Luc Godard, todos futuros cineastas da chamada Nouvelle Vague, se declaravam profundos admiradores de Hitchcock e, já agora, entre os nomes de Hollywood, de Howard Hawks também, colocando-os no cerne do debate da famigerada política dos autores.

E o que significava, concretamente, dizer que estes homens do cinema eram autores? Para grande perplexidade dos estúdios, significava que, mais do que o produtor, o argumentista ou os atores, eram eles o cérebro dos filmes, eram eles, enfim, que conduziam os seus recursos a um resultado artístico, muitas vezes a entrar no domínio do inconsciente. Para todos os efeitos, no caso de Hitchcock, a Paramount tinha-lhe mesmo consentido o controlo criativo absoluto de tudo o que realizava... imagine-se se assim não tivesse acontecido. Temos exemplos de outros realizadores-autores espartilhados por Hollywood, como Fritz Lang ou Jean Renoir, mas também eles, nessa fase americana das suas obras, conseguiram resistir, com extraordinária habilidade dentro dos códigos da indústria, nos princípios da arte individual.

Ter hoje esta perceção, tomá-la como inequivocamente lógica, é perceber que estes autores recuperados pelos Cahiers são os pilares da história do cinema, em permanente evocação.

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