Obras sacras de Davide Perez foram retiradas da sombra

Agrupamento italiano I Turchini, de Antonio Florio, apresentou-se em Odemira, no âmbito do 11.º Festival Terra Sem Sombra.

O segundo concerto do Festival Terras Sem Sombra levou à Matriz de São Salvador de Odemira o ensemble I Turchini, dirigido pelo seu fundador Antonio Florio. O programa propunha uma revisitação da obra sacra de Davide Perez (1711-1778), autor napolitano que estabeleceu profunda e prolongada ligação com a corte portuguesa (D. José e D. Maria), fazendo de Lisboa a base da sua atividade desde 1752 até à sua morte.

As três obras suas em programa - na ordem: Lição de Quinta-Feira Santa a 4, Nisi Dominus para soprano solo e Credo Breve a 4 - eram, dir-nos-ia Florio, ilustrativas dos três centros para os quais escreveu Perez no decurso da sua vida criativa, a saber e de acordo com a ordem exposta: Lisboa, Palermo e Nápoles. Intercaladas, ouviram-se obras de napolitanos seus coetâneos: uma Sonata para órgão e arcos, de Gian Francesco de Majo; uma Missa Brevis a 4, de Girolamo Abos; e uma Ninna Nonna para arcos, de Emanuelle Barbella.

O ensemble incluía quarteto de cordas, mais baixo-contínuo de violone e órgão, e quatro solistas: soprano Valentina Varriale, mezzo Daniela Salvo, tenor Rosario Totaro e baixo Giuseppe Naviglio - todos, exceto a Salvo colaboradores de longa data dos Turchini.

Das obras de Perez, gostámos sobretudo da Lição de Quinta-Feira Santa, extraída das Lamentações de Jeremias, em cinco secções, segundo a habitual divisão pelo alfabeto hebraico. E isto porque ali perpassa um empenho criador e uma súmula de técnicas composicionais que o autor mostra dominar, no intuito de conferir contraste expressivo, variedade anímica e pungência (dado o tema da Paixão de Cristo) à sua partitura. Tudo a umas dimensão e magnitude que as restantes obras não revelaram.

O Nisi Dominus atinge momentos de beleza, mas nem sempre os mantém. Agora o que sempre esteve a um nível altíssimo, daqueles que tornam as obras maiores do que realmente são, foi a performance imaculada do soprano Valentina Varriale: beleza luminosa do timbre em todos os registos, segurança absoluta na emissão, brilho das fioriture vocais, intencionalidade expressiva, tudo se conjugou para nos deixar estupefactos.

Por fim, o Credo afigurou-se-nos uma obra rotineira em largos momentos, com um cuidado/marca autoral especial colocados na secção de vai de Et incarnatus a Et sepultus e na preparação do Amen.

A Sonata para órgão e arcos tem no fundo a estrutura de um concerto barroco, com forma ritornello no andamento inicial, e andamento final de textura mais ligeira e caráter mais teatral, separados por um breve andamento lento sem grande história. A escrita para o órgão é brilhante, embora não particularmente idiomática (tem feição violinística) e foi bravamente defendida por Patrizia Varone.

De outro interesse se revestiu a Ninna Nonna de Barbella: num tempo Adagio e com um arabesco como figura motívica recorrente, esta canção desenvolve uma melopeia que funde feição sacra e canto popular tradicional, com um apelo que parece vir de muito fundo, tingido ocasionalmente por "encontros" dissonantes nas linhas.

A Missa Brevis (apenas com Kyrie e Gloria) de Abos (1715-1760) revelou-se obra de sonoridade muito interessante, fazendo pensar amiúde nas missas que o jovem Mozart escreveu para Salzburgo, o que, considerando a vita de Abos, ilustra o quanto o estilo italiano permeou o praticado na cidade natal de Mozart: escrita concertante muito fluente, gosto pelos contrastes, exploração comedida de certas palavras para fins expressivos (indiciando a superação da estética dos affetti). Realce particular para a secção Qui sedes ad dexteram patris e para o Amen conclusivo: dois momentos muito contrastantes, de escrita bela, muito expressiva e eficaz nos respetivos propósitos.

Em extra, ouviu-se um seráfico Ave verum corpus (KV618 de Mozart), num tempo por sinal bastante lento. Um final celestial para um concerto que andou sempre, em termos interpretativos, por regiões extremamente elevadas.

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