O vinil vive do culto. De Tonicha a Pedrinho, passando por Cid

O Record Store Day não passa por aqui. Na Carbono, a mais antiga loja de discos de Lisboa, é um dia normal, com os habituais caixotes a apregoar "leve 5 pague 4". Casa cheia de discos e CD, forrada a posters. Um templo para quem gosta de música e que vive muito dos turistas (alguns compram cá discos que João Moreira mandou vir de lá) e do culto. Histórias de picuinhices

O tempo muda quando se passa aquela porta. Talvez seja o poder dos discos de vinil que ali parecem habitar perenemente. Ainda que entrem os clientes e, alguns, saiam com os inconfundíveis quadrados debaixo do braço. A Carbono é a mais antiga loja de discos de Lisboa. Nasceu em 1993 pela mão de dois sócios. João Moreira permanece, após as voltas da vida - seguramente menos do que as dos que discos que tem posto a girar no prato.

Entrámos a pretexto do Record Store Day (RSD), que hoje se assinala em todo o mundo há uma década: um sábado de abril em que as lojas de música independentes celebram a música. Fazem-se edições especiais, há uma programação para este dia. Mas o RSD este ano não passa pela Carbono. João Moreira tinha dois planos, o A e o B, mas nenhum deu certo. O A era fazer uma edição limitada em vinil de um single de António Variações, de um tema "muita giro que só apareceu uma vez numa coletânea que era Toma o Comprimido" (a editora não autorizou); O B era reeditar a banda sonora do filme Os Abismos da Meia Noite, de António Macedo (1984) da autoria de António de Sousa Dias - "uma banda sonora muito obscura da qual devem ter sido feitos uma meia dúzia de discos". Não conseguiu ter autorização do compositor. "Tive pena, isto ia-se tornar um objeto de culto. Este disco quem o quiser vai ter de o comprar por 150 euros e não há muitos à venda".

Furados os planos, o RSD é, por isso, um dia normal na Carbono. João nem se atreve a pensar num concerto acústico no espaço da Rua do Telhal porque já sabe que a vizinhança queixa-se do barulho à polícia. Mas na realidade, independentemente dos planos correrem melhor ou pior, o essencial deste dia são as edições especiais feitas um pouco por todo o mundo, e essas dificilmente chegam cá. "Nesse dia sai um milhão de edições especiais do RSD, saem CDs, sai vinil, essas coisas são sempre açambarcadas pelas lojas lá fora, nunca cá chegam porque dão sempre prioridade ao mercado da Alemanha, Inglaterra, por aí fora. E acontece um fenómeno um bocado estranho que é as pessoas dessa lojas lá fora comprarem tudo para depois irem vender a preços um bocado estúpidos no Ebay e noutros sites", diz o gerente da Carbono. José Moura, da Flur, corrobora: "As edições especiais deste dia raramente chegam a Portugal, vão para os EUA e para Inglaterra, os principais centros deste evento." Sem problemas com a vizinhança, esta loja de discos situada no Cais da Pedra, em Santa Apolónia, terá dois concertos UNITEDSTATESOF (às 16.00) e Bruxas/Cobras e um DJ Set. Promoções não haverá, até porque "os preços normais são já bastante razoáveis".

Na Carbono, não há promoções especiais mas há as do ano inteiro: leve 5 pague 4 em discos de vinil usados. É nestas verdadeiras caixas de surpresas em que se debruçam os clientes da loja. Mas ali não estarão os fenómenos que alimentam este mundo. Por exemplo, o LP 10000 anos entre Vénus e Marte, de José Cid: "na altura [1978] devem ter feito umas 500 cópias e metade devem ter ido parar ao lixo. É daqueles fenómenos, na altura não vendeu nada e depois da reedição entre vinil e CD já vendeu mais de cinco mil . Na altura ninguém deu valor, agora tornou-se objeto de culto". Uma reedição vale 25 euros, um original 300.

Outro filão é o Festival da Canção, há quem só compre discos do festival da canção e há o subfilão que só compra singles, "os pequeninos". João Moreira destaca alguns que são verdadeiras preciosidades como o single Penso em Ti (1985) de Adelaide Ferreira, que vale "uns 150 euros". Outro da Tonicha, Menina do Alto da Serra (1971) vendido por 200. E não se pense que a euforia é recente, com a vitória de Salvador Sobral na Eurovisão. "Não! E há uns poucos portugueses rendidos", disse.

E depois há "fenómenos estranhos", como a música de Cabo Verde. "Este disco é vendido a 200 euros", diz-nos enquanto mostra o exemplar de Nhós déxa de conta mintira, de Pedrinho. Na capa está o músico, sentado num muro de pedra com um urso atrás. "Fazem festas em Inglaterra de música de Cabo Verde, este disco dos anos 80 é cobiçado porque alguém fez um sampler de uma das músicas", conta João Moreira.

As histórias não acabam. Falemos de turistas que, no verão, são os que "safam a loja". O que procuram?"O turista comum que é o que compra por impulso, passa, vê a loja, entra, tira fotos, esse compra discos de fado. Amália é sempre um best seller, Ana Moura,... Também vêm muito à procura de Cabo Verde ou de Angola. E muitos dos discos novos das bandas novas que mandamos vir, quem os compra são estrangeiros. É estranho, mandar vir discos de Inglaterra e depois chegam os ingleses compram os discos..."

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