"O Túnel dos Pombos" de John le Carré

As memórias de John le Carré, um autor que recriou o significado do termo Guerra Fria. As memórias do escritor explicam os bastidores da sua obra literária. Leia aqui um excerto em pré-publicação

Nos últimos anos, adquiri uma aversão infantil a ler seja o que for que apareça escrito na imprensa sobre mim, bom, mau ou nem uma coisa nem outra. Mas há ocasiões em que algo ilude as minhas defesas, como aconteceu numa manhã no outono de 1991 quando abri o jornal The Times e se me deparou o meu rosto a olhar-me carrancudo. Pela minha expressão azeda, soube logo que o texto à volta da fotografia não ia ser positivo. Os editores fotográficos sabem do seu ofício. Um teatro de Varsóvia a debater-se com dificuldades, li, ia celebrar a sua liberdade pós-comunista levando à cena uma versão dramatizada de O Espião Que Saiu do Frio. Mas o ganancioso Le Carré queria a soma exorbitante de cento e cinquenta libras por cada sessão. "O preço da liberdade, supomos."

Lancei mais um olhar à fotografia e vi exatamente o tipo de sujeito que de facto anda por aí à caça de teatros polacos a debaterem-se com dificuldades. Ganancioso. Com apetites repelentes. Olhe-se só para aquelas sobrancelhas. Nessa altura, já não estava a cair-me bem o pequeno-almoço.

Manter-me calmo e telefonar ao meu agente. Falho na primeira, acerto na segunda. O nome do meu agente literário é Rainer. Naquilo a que os romancistas chamam uma voz trémula, leio-lhe o artigo em voz alta. Será que ele, sugiro delicadamente - será possível que, só desta vez, será de todo concebível? -, nesta ocasião foi um nadinha demasiado zeloso dos meus interesses?

Telefono a Coppola. O Francis está muito ocupado neste momento. Ninguém encena o silêncio melhor do que Hollywood

Com Fritz Lang

Acredito que um dia será reconhecido que os melhores filmes baseados nas minhas obras foram os que nunca chegaram a ser realizados. Em 1965, o ano em que o filme de O Espião Que Saiu do Frio estreou, fui persuadido pela minha editora britânica a ir à Feira do Livro de Frankfurt, o que não me agradava, para publicitar um romance do qual tinha poucas expectativas e, de um modo geral, me tornar agradável e interessante aos meios de comunicação. Farto do som da minha própria voz - e de ser passado de jornalista estrangeiro em jornalista estrangeiro como um saco de mercadorias - retirei-me para a minha suíte no Frankfurter Hof para amuar. E era o que estava a fazer num fim de tarde quando o telefone do quarto tocou e a voz rouca de uma mulher, falando em inglês com um sotaque estrangeiro, me avisou que Fritz Lang estava no átrio e desejava ver-me e será que eu poderia fazer o favor de descer?

Aquela convocatória não me causou nenhuma impressão especial. Os Langs na Alemanha são mais do que as mães, os Fritzes também. Seria o mesmo coscuvilheiro literário odioso que eu tinha evitado antes nesse mesmo dia? Suspeitava que sim, e que ele estava a usar uma mulher como isco. Perguntei-lhe qual era a natureza dos negócios de Mr. Lang.

- Fritz Lang, o realizador de cinema - corrigiu-me ela reprovadoramente -, deseja discutir uma proposta com o senhor.

Se ela me tivesse dito que Goethe estava à espera no átrio a minha reação não teria sido muito diferente. Para ser franco, nem sabia que ainda estava vivo. E ainda pensava que o telefonema poderia ser uma partida que me estava a ser pregada.

- Então, está a dizer -me que o Dr. Mabuse está lá em baixo? - pergunto à sedutora voz feminina com o que espero que seja um ceticismo altivo.

- É Mr. Fritz Lang, o realizador de cinema, e deseja ter uma discussão positiva com o senhor - repete ela, sem ceder um milímetro. Se é o Lang verdadeiro, deve estar de venda no olho, digo para comigo enquanto visto uma camisa e escolho uma gravata. (...)

Tive a primeira indicação do interesse de Stanley Kubrick em adaptar o meu romance quando ele me telefonou a querer saber porque eu tinha recusado a sua oferta

Com Sydney Pollack

Em 1968, o meu romance Algures na Alemanha inspirou Sydney Pollack por um breve período de tempo. A nossa colaboração, complicada pela descoberta de Sydney das encostas suíças, não correspondera às expectativas e a empresa que comprou os direitos originalmente tinha ido à falência, deixando-os perdidos num labirinto legal. Se eu aprendi alguma coisa sobre o negócio dos filmes foi que nunca mais devia deixar-me arrastar pelos acessos de entusiasmo de Sydney, gloriosos mas de curta duração. Por isso, é natural que vinte anos depois, quando ele me telefonou a meio da noite e me disse aos berros na sua voz melodiosa que o meu novo romance O Gerente da Noite seria o filme inspirado da sua carreira, eu tenha largado tudo e apanhado o primeiro voo disponível para Nova Iorque. Dessa vez, Sydney e eu concordámos, íamos ser mais velhos e mais sensatos. Nada de vilas suíças para nós, nada de quedas de neve tentadoras, nada de Martin Epps, nada de encosta norte do Eiger. Dessa vez, seria o próprio Robert Towne, nesses tempos a maior estrela no universo dos argumentistas e com certeza o mais caro, a escrever o argumento. A Paramount acedeu a comprar os direitos.

Numa casa segura em Santa Mónica onde teríamos a certeza de não sermos perturbados, Sydney, Bob Towne e eu andámos de um lado para o outro e fizemos brilharetes à vez, até uma explosão colossal pôr um fim abrupto às nossas deliberações. Towne, convencido de que se tratava de um ataque terrorista, atirou -se para o chão. Sydney, um intrépido homem de ação, telefonou para uma linha de emergência da polícia de Los Angeles que me agrada pensar que só estava disponível para realizadores de cinema de primeira. Eu, com a minha usual presença de espírito, não pareço ter feito mais nada a não ser olhar boquiaberto.

A resposta da polícia é tranquilizadora: trata -se de um pequeno tremor de terra, Sydney, nada de que ter medo, e escute, que tipo de filme estão a congeminar aí em baixo? Continuámos a fazer brilharetes, mas com menos brilho, e parámos de trabalhar mais cedo. Towne faria uma primeira versão, concordámos. Sydney trabalharia depois nela com ele. Eu seria um recurso passivo.

- Se alguma vez quiser experimentar ideias, Bob, sinta -se à vontade para me telefonar - disse eu, magnânimo, e dei -lhe o meu número de telefone da casa da Cornualha.

Se ela me tivesse dito que Goethe estava à espera no átrio a minha reação não teria sido muito diferente. Para ser franco, nem sabia que Fritz Lang ainda estava vivo

Com Coppola

Quando Francis Ford Coppola me telefonou a convidar-me para uma estada na sua quinta vinícola em Napa Valley para trabalhar com ele numa adaptação ao cinema do meu romance O Nosso Jogo, eu soube que dessa vez seria a sério. Fui de avião até São Francisco. Coppola mandou-me um carro. Previsivelmente, era um sonho trabalhar com ele: rápido, incisivo, criativo, colaborativo. Em cinco dias, a trabalhar assim, teremos um primeiro rascunho, garantiu-me ele. E foi o que aconteceu. Éramos brilhantes juntos. Eu tinha um chalé só para mim na propriedade, levantava-me com o amanhecer e escrevia brilhantemente até ao meio-dia. Épicos almoços em família a uma mesa comprida, cozinhados por Coppola. Um passeio à beira-lago, um mergulho talvez, e depois de volta a sermos brilhantes juntos durante o resto da tarde.

Ao fim de cinco dias, tínhamos a primeira versão. O Harrison vai realmente adorar isto, disse Coppola. Está a referir -se a Harrison Ford. Em Hollywood, os apelidos são só para quem é de fora. Houve um momento espinhoso quando Coppola entregou o nosso argumento ao seu editor pessoal e ele voltou riscado com linhas onduladas e comentários a lápis nas margens tais como «TRAMPA! NÃO DIGA, MOSTRE!», mas Coppola arredou a rir tais comentários ligeiros. O seu editor era sempre assim, disse. Não era por nada que lhe chamavam o cortador assassino. O argumento seguiria para Harrison na segunda-feira. E eu estava livre para regressar a Inglaterra e aguardar os desenvolvimentos. Regresso a Inglaterra e aguardo. Passam-se semanas. Telefono a Coppola, mas atende-me a sua assistente. O Francis está muito ocupado neste momento, David, posso ajudá-lo nalguma coisa? Não, David, o Harrison ainda não respondeu. E até hoje, tanto quanto alguma vez saberei, o Harrison ainda não respondeu. Ninguém encena o silêncio melhor que Hollywood.

Sydney, Bob Towne e eu andámos de um lado para o outro e fizemos brilharetes à vez, até uma explosão colossal pôr um fim abrupto às nossas deliberações

Com Kubrick

Tive a primeira indicação do interesse de Stanley Kubrick em adaptar o meu romance Um Espião Perfeito ao grande ecrã quando ele me telefonou a querer saber porque eu tinha recusado a sua oferta pelos direitos cinematográficos.

Eu tinha recusado Stanley Kubrick? Ficou espantado e horrorizado. Nós conhecíamo-nos, por amor de Deus! Não bem, mas o suficiente. Porque é que ele não me tinha telefonado a dizer que estava interessado?

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