O surrealismo como ponto de partida

O gosto pela pintura contadora de histórias (muitas vezes apenas apreendidas depois da leitura dos títulos das obras) ou o uso imaginoso de formas, cor e composição para representarem a realidade. São estes os traços que unem os oito artistas portugueses da exposição "A Partir do Surrealismo".

Paula Rego e Graça Morais não serão exatamente os nomes mais óbvios quando se pensa em artistas portugueses ligados ao surrealismo. Mas é precisamente com obras destas duas pintoras que Raquel Henriques da Silva começa a exposição A Partir do Surrealismo, que pode ser vista na Galeria Millennium bcp, em Lisboa, até 6 de janeiro. As duas que, sublinha a historiadora de arte e comissária da exposição, "não têm nenhum elo com a ideia do surrealismo militante" que, como explicara logo no início da visita guiada no sábado passado, marcou a produção artística portuguesa nos anos 1940, assumindo-se contra a pintura como função social, contestando os poderes instalados, questionado as convenções.

Ora, na forma como pensou o discurso desta mostra, sem preocupações de organização temporal - "às vezes sabe bem ter uma perspetiva menos cronológica" - Raquel Henriques da Silva fala do que une as duas artistas e o que a levou a optar por colocar obras suas no Piso 0 da galeria, quase numa antecipação da mesa redonda de dia 11 de novembro na qual irá falar dos bastidores desta exposição: "A pintura delas é tendencialmente narrativa, e têm em comum contar histórias crípticas, esquisitas, histórias que olhamos e [nas quais] percebemos que há evocações da realidade, de memórias próprias, de outrem, culturais e organizadas de uma forma que é o cerne da pesquisa surrealista: a ideia de deixar que o inconsciente se exprima".

E é já em frente a "duas obras-primas absolutas" de Paula Rego, "uma muito perturbante, sem título", de 1960, e outra, Ponte (Cão) de 1972 que a historiadora partilha uma das preocupações que a assaltou neste seu trabalho na coleção Millennium bcp. A dada altura, conta, surgiu a dúvida se essa obra de 1960, "mesmo do início do trabalho da artista, ainda estudante em Londres", seria, de facto, de Paula Rego. Uma fotografia do quadro foi enviada ao filho, Nick Willing. E a reação dele também foi de estranheza. "Mas quando o filho mostrou à Paula, a Paula deu um salto de alegria e disse, "ah! o meu quadro! Há quanto tempo eu não via o meu quadro!". A autenticação viria, assim, "de forma inequívoca", através da própria artista.

E da obra de Paula Rego, muito influenciada pelas histórias tradicionais populares, portuguesas e inglesas, a visita continua com Graça Morais e o imaginário, em torno da aldeia natal, Vieiro, perto de Bragança. "Uma aldeia pobre com uma vida muito dura e a Graça reinventa as histórias, dando-lhes uma carga mítica", refere em frente a O Espírito do Amor Autêntico (1987).

Altura em que põe em evidência outro elo comum às duas artistas: "Um gosto muito forte da cor tímbrica, suja, com contrastes que vão sendo encontrados no próprio ato de fazer das obras".

Ainda antes de se subir as escadas de acesso aos dois outros pisos da galeria surge "o corpo estranho desta exposição", como se apresenta a si mesmo Rui Macedo. Isto porque o artista concebeu para esta exposição uma inesperada história a partir do tema da paisagem: eram os seus quadros que ali estavam na galeria, antes desta exposição ser montada e, por isso mesmo, parece que estão expostos apenas os fragmentos dessas obras que estavam penduradas em espaços que não foram ocupados pelos escolhidos por Raquel Henriques da Silva.

No primeiro piso, as obras de Cruzeiro Seixas, Mário Cesariny, Marcelino Vespeira e António Dacosta, artistas que pertenceram a dois grupos surrealistas que se confrontaram embora tivessem algo em comum: a oposição ao salazarismo. "A coleção Millennium bcp não possui obras desse período, mas as que aqui estão mostram a excelência e o quão atuais estavam estes artistas em linha com o que se fazia lá fora". A fechar, no segundo piso, Carlos Calvet e Eduardo Luiz, que têm em comum "o gosto pela composição, minuciosamente pensada e concretizada", sublinha.

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