"O Senhor dos Anéis" também é uma experiência musical

Sábado e domingo, a Orquestra e o Coro Gulbenkian interpretam a banda sonora da segunda parte da saga, com Ludwig Wicki na batuta e o filme a passar no grande ecrã.

"O público fica sempre muito empolgado", descreve Pedro Pacheco sobre o concerto com projeção de As Duas Torres, a segunda parte da saga O Senhor dos Anéis (2002), que acontece hoje e amanhã, às 20.00, e no domingo, às 17.00, no grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian. Di-lo com o saber de quem esteve nos primeiros dois concertos, há um ano, quando o maestro suíço Ludwig Wicki esteve em Lisboa para dirigir A Irmandade do Anel. Os dois concertos de janeiro de 2016 esgotaram, foi programado um concerto extra esta temporada e os bilhetes voaram também. Descansem, entretanto, os fãs. Está planeado o espetáculo da terceira parte, O Regresso do Rei.

De que se trata, enfim? De ouvir a banda sonora tocada por uma orquestra e cantada por um coro enquanto é projetado o filme. "É uma experiência", sintetiza o maestro, após o segundo ensaio com a orquestra Gulbenkian. Passa das 14.00 quando regressa ao camarim, após três horas de trabalho.

A soprano Grace Davidson acompanha-o ainda para rever uma passagem. "Já dirigi esta peça tantas vezes que é possível que esteja enganado, mas acho que há aí uma diferença", diz Wicki, abrindo o computador, à procura do filme. "Tenho a certeza que não está enganado", diz-lhe ela, abrindo a pasta das partituras. Ele tinha razão, adiante-se já.

Ver o filme de Peter Jackson e ouvir a banda sonora ao vivo teve adesão imediata desde que o compositor das bandas sonoras de O Senhor dos Anéis começou o projeto, em 2008, mas é injusto atribuir a Howard Shore a ideia, pois, como afirma o maestro Wicki, "veio de [Charlie] Chaplin".

Em todo o caso, foi o autor da música da saga de Peter Jackson quem propôs ao maestro suíço dirigir o concerto ao vivo, com o filme em projeção. "Ele não tinha encontrado ninguém que o quisesse fazer, até se cruzar comigo", conta Ludwig Wicki, trombonista de formação, maestro coral e orquestral, com experiência na música sacra, que continua a dirigir. Destas, porém, já fez muitas apresentações. Pelas suas contas, 80 vezes A Irmandade do Anel, 55 As Duas Torres e 48 O Regresso do Rei.

Ponto prévio: Ludwig Wicki ficou dececionado quando viu o filme baseado nos livros do inglês J.R. R. Tolkien. "À saída, perguntei à minha mulher por que me tinha levado a ver um filme tão feio, não gostava destes filmes de fantasia". E, no entanto, refere de imediato: "Gostei logo da música". "A linguagem é profunda, escura."

No ensaio, preocupa-se sobretudo com o "tempo". "Temos as gravações de Howard Shore, que ele dirigiu, sabemos o que ele quer", explica. E foi isso que trabalhou com os músicos nos cinco ensaios antes dos concertos.

O músico David Lefèvre, concertino nos espetáculos, conhecido do público da Gulbenkian, um dos que fez mais perguntas durante o ensaio. "É o meu trabalho", resume, o músico, primeiro violino solista da Orquestra de Monte Carlo desde 2000. "Não é difícil de tocar, é difícil a parte da concentração", considera. Afinal , os músicos não tocam a peça de seguida, mas sim ao ritmo do filme, e podem não estar todos em ação ao mesmo tempo.

Nem todos os filmes podem ser usados para esta experiência, refere Wicki. Aqueles em que o música, efeitos especiais e falas foram gravados na mesma pista e aqueles em que a música é esparsa. Ludwig Wicki, dá o mais surpreendente exemplo. "Muitas pessoas já nos pediram O Padrinho, mas não fazemos, porque é um filme de três horas com 40 minutos de música. As pessoas vão ver uma orquestra aborrecida. Um músico tem de manter a atenção e em alguns [filmes] tem 45 minutos de intervalo.

Espetáculos com estas características exigem competências distintas a quem rege o concerto, explica. "Estão três coisas a acontecer ao mesmo tempo". A batuta dirige mais de 200 pessoas em palco, entre músicos da orquestra, o coro da Gulbenkian e as crianças do coro infantojuvenil da Universidade de Lisboa. E além da tradicional partitura, Ludwig Wicki, 56 anos, também controla as deixas da música com um monitor à sua frente.

O maestro reabre o computador para mostrar o que é um punches and streamers , um programa que marca a cadência da música com um ponto, a marcar o compasso, e uma linha musical. "Já era assim no tempo de Chaplin", entusiasma-se. "Só que mecânico. Faziam-se furos na bobine para que o maestro soubesse".

Mais Notícias

Outras Notícias GMG